Lista de Poemas

TALVEZ DEMASIADO TARDE

Próximo aos 48,
como já não fazia há muito tempo,
levantei-me de minha insônia
e me fui a caminhar pela silente madrugada,
à avenida sombriamente deserta,

tal como quando era uma criança
que, entretida em caçar passarinhos com seu bodoque,
perdeu-se na mata escura,
com a impressão de que havia um monstro
ou um demônio a lhe perseguir,

tal como naquela ocasião
pelejei contra a maldita visagem
em angustiosa correria que não parecia
ter mais fim;

temi, apavorei-me e quis
correr, fugir, ter um par de braços a me abrigar,
ou uma mão que seja para tocar
e me resgatarem o mais breve
possível

- mas não olhos, olhos não,
nem semblantes, semblantes não,
que todos os olhares e todos os rostos
seriam demoníacos naquele,

mas, depois de um tempo,
extremamente cansado, esquálido e ébrio de sentidos,
olhei para todos os lados
por entres as casas, as esquinas e os vultos
fabricados pelas luzes
de neon,

e percebi novamente
que eram tão somente meus terríveis fantasmas
que sempre me acompanharam
deste quando me habitava
em puro templo.
176

NÃO TOQUEMOS NOS SEGREDOS

... tu veste
teus véus e eu visto minhas
___ máscaras

e, assim,
vamos nos perdendo, aos poucos,
___ nas vastidões dos mares;

e por isso,
com nossas almas diamante
e com nossas carnes
___ inflamadas,

para se
manter na margem este grande amor,
devemos estar cientes
___ de que

sempre
há um grande
problema quando quem diz
___ nos amar

exige
claras evidências de nossas
caminhadas pela
___ estrada!
188

LUZ E SOMBRA

Houve um tempo,
nos soslaios dos ébrios caminhares
por entre as imagens
do mundo,

que singular força
me precipitou a algo que
imaginei ser uma
luz.

E tal como as mariposas
de retinas cegas buscam o fatal enlace
à florescência das lâmpadas
de néons;

da ampla e espúria
circunferência de meu ego,
lancei-me à vertigem de cândido brilho,
com soberano desejo.

Foi então, com as híspidas
aas espiralando-se ao chão, que aprendi
que as luzes nem sempre
são confiáveis,
​​​​​​​
e que, muitas vezes,
tiram das sombras suas tênues
e virgens essências.
132

EM UMA MANHÃ SEM SOL

187

LIVRE DE QUÊ? COMO?

Disseste
uma vez estares livre
de mim;
e eu que sou
de pouco riso, comecei delirantemente
a sorrir,
gargalhei,
mais exatamente.
E, tu já
chateada com alguma coisa
que eu supunha, convenientemente,
não saber,
quis saber
porque eu tanto sorria, o que
à época lhe respondera que era
segredo,
e hoje,
já em outro plano como que a voares
sobres céus, terras e mares, sem a senciente
e humana condição,
revelo-te
aos átomos modificados: é porque
quando dissestes estar livre
de mim,
não percebeste que,
tragicamente, como éramos espelho
e reflexo, estavas afirmando no contrapondo
de teu dito, que não conseguias
ficar sem ti!
154

PASSOU-SE O TEMPO DE BRINCAR

... agora
vou te brindar sob uma noite
___ estrelada,

vou te namorar,
vou te beijar, vou te amar,
___ vou de ti cuidar;

e contra
os cânceres e contra as pseudoluzes
do mundo e, sobretudo, contra mim mesmo,
que sou um humano
___ absurdo,

eu vou lutar
a fim de tentar evitar, ao máximo,
que ao caminho nos haja pedras
___ de tropeço

que nos levem
às quedas, aos destroços, aos vazios
___ e aos nadas!
162

LUZES BRANCAS

Embora
costumemos escorrer
luzes brancas
por aí,

enquanto
apontamos escuras
e torpes vagas nos avanços cegos
de nossos semelhantes
irmãos;

a um ponto,
convém refletirmos
em que nada do que vive
em nós mesmos

- ou que
emerja entre as margens
de nossos cernes
côncavos -

possa haver-se,
de semelhante modo
e por igual motivo, inocente
ou verdadeiro.
234

HOJE EU A ENTENDO MELHOR!

Éh, a Flor de inverno

que amou,
que sonhou, que voou,
que caiu,

que transou,
que aos ares dos mitos festejou
e se suicidou,

que aos anjos
se fez dolorosamente uma pueril
criança sedutora;

sim,
tipo como eu, tipo como muitos,
lutando sempre para não ser tão humana
num mundo de loucos
humanos.

Ela venceu.
Nós, por hora ficamos.

Sim, indo
à morte, porque garanto que só na morte
a puerícia espiritual é possível,
ela venceu.

Nós, por hora, ainda
ficamos: e infelizmente ainda
humanamente demasiado
humanos!
182

NÃO QUERO SER MUITO RUDE

264

O NIILISTA FOI AMPARADO POR TI NO MAIS SECO DESERTO E NO MAIS DURO CHÃO!

É verdade.

Um ano te lendo silentemente,

Flor do Deserto.



O cão talvez

nem se saiba mais frio,

niilista ou tímido.



Mas que bom

que a flor apareceu no deserto

e se corajosamente se desabrochou,

e logo após também a perda da eternal

Flor de Inverno!



Eu me lembro bem:

eu estava no chão, depois de um internamento

de um ano e de várias condenações

à morte,



e havia anjos

cuspindo em mim, quando me estendeste

a mão e me ofertaste

o teu coração!
152

Comentários (7)

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fernanda_xerez

SEMPRE SUSPREENDE-ME COM TUA INESGOTÁVEL INSPIRAÇÃO. AMO TEUS POEMAS PARA A FLOR DE INVERNO, sinceramente. Saudações Alenarinas da Flor*

fernanda_xerez

Por tudo, mais uma vez, obrigada! ¨¨¨¨¨Beijo_Flor*

Trivium
Trivium

Olá, cara. Gostei bastante desta poesia tua. Você com partilha suas poesias em algum outro site que não este?

fernanda_xerez

E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.

fernanda_xerez

Lindo e provocante!