Lista de Poemas

malmequer negro

percorro pulsante o corredor
de pés mudos como muros
ergo o intransponível crânio
nascendo e dormindo prescrito
adio a translúcida sibilância
malmequer fulgente e negro
que levo ao peito como um sabre
recito pelo adejar rítmico dos lábios
salmos rituais ossos barro pó
fulgurante translação das veias
arde-me o míope sangue vertical
escorrendo pelo lantânio e lutécio
hei-de criar pedra sobre pedra
farei da luz dois vítreos ciclopes
pousarei nos pilares de hércules
a incorpórea maldição dos deuses
e levitando andarão as testas
dos homens e deuses
dos deuses homens
sit tibi terra levis[1]
requievit in pace.[2]

[1] que a terra te seja leve
[2] descansa em paz

(Pedro Rodrigues de Menezes, "malmequer negro")
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fim

no fim de cada garrafa 
batem por mim tambores
os tambores da terra insólita 
do sonho ao sono um passo
é sempre só mais um passo
breve e leve lúgubre papoila
nascendo da fome na boca
vívido lábio aceso na noite
amanhã não amanhecerei.

(Pedro Rodrigues de Menezes, fim)




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tríptico

se esta tarde nascer 
amanhã será poema
não saberei dizer 
quem nascerá primeiro
se o poema amanhã
se amanhã a tarde
em mim tudo se difunde 
tudo me pesa como direi
como um pesado lamento
são as margens deste rio
à margem de um poema
é o obscuro silêncio do sol
o luminoso ruído da noite 
a tremenda solidão tremente
a mão em vão no vão da alma.

(Pedro Rodrigues de Menezes, tríptico)
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não enterrarei as minhas mãos

não enterrarei
as minhas mãos 
por não caberem
na terra dos outros.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "não enterrarei as minhas mãos")
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o céu cinzento das bocas

se eu soubesse contar pelos ingénuos dedos da infância
de quantas terríveis mortes são feitas todas as minhas veias
a palavra talvez talvez tivesse a extraordinária física de um astro 
e eu pudesse no silêncio brilhante de quem não escuta
escrever que no circadiano ritmo destas outonais cabeças 
há só línguas martelando o céu cinzento das suas bocas

(Pedro Rodrigues de Menezes, "o céu cinzento das bocas")


 

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o poeta, o poema e o fantasma

o corpo pairando
suspenso nu
fantasma sem cor
com forma de fantasma
candura obliterada
interrupção incomum
cadáver assombroso
terra inclinada na chuva
um poeta sobre uma poça
milenar
o sangue coagulando todo
vertical

a veia míope tocando o
horizonte

a vírgula expansiva da sua artéria
cavernosa

os pés, uma chaga infernal do
caminho

as mãos, um claustro negro de
silêncio

o poeta salta
o poeta corre
o poeta também ri
mas o poeta está morto.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "o poeta, o poema e o fantasma")
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um cometa chamado poesia

quero a poesia alta e superior
a que se eleve acima do corpo
capaz de transcender a lucidez
como se o sonho da montanha
fosse mais importante e nobre
que a própria subida à montanha
uma poesia que não obedeça
ao circadiano ritmo dos homens
uma poesia portanto sem o ritmo
perpendicular da língua no céu
cheio de uma tonalidade viva
que não seja o azul celeste
quero a poesia que incapacite
os homens ásperos da terra
incapazes da vigília letárgica
de um astro que os queime.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "um cometa chamado poesia")
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a instrução da luz

se eu fechar os olhos
pelo instante breve
talvez o instante perdure
porque a escuridão é
uma luz por instruir.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "a instrução da luz")
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quasar

coração
basculante
pulsante
mínguante

(Pedro Rodrigues de Menezes, "quasar")
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Requiem for Adílio Lopes

Adília e Adílio, ambos Lopes


oferecer-te um poema
em forma de livro
de receitas
cozer-te pão 
para o coração 
há tanta falta de pão 
para o coração.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes XV)


Adília 
e
Adílio
comem 
pão 
de ló 
pelos pés 
Lopes.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes, XVI)


imagino-te
como vieste
ao mundo
de pano do pó 
na mão 
e sem mais nada
por cima 
por baixo
mas cheia 
de coração.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes, XVII)


Herberto Helder 
convida
Adília Lopes 
para jantar
duas solidões
uma doméstica 
não domesticada
outro uma artéria
sem pressão arterial
ponto de interrupção.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes, XVIII)

o teu cabelo
Adília 
o teu cabelo
Adília
é uma rosa
de ventos
ventania
poesia.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes XIX)


os capítulos 
capitulam
esta história
no fim triste
cumpriu o destino
de Adílio Lopes 
morreu nos braços 
de Adília Lopes
no dia em que se conheceram 
consta que morreram
Adílio Lopes
os gatos 
e só sobreviveu 
Adília Lopes
e as suas baratas
mas sobre os gatos
assassinos
que esgatanharam
(não confundir com esgadanhar)
o corpo de Adílio Lopes
ninguém escreveu.

(Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes, XX)


Nota: termina a história de Adília e Adílio, ambos Lopes.
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Comentários (6)

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Carina Alexandra Oliveira
Carina Alexandra Oliveira
2024-09-10

Parabéns por continuares sempre a escrever e partilhares a tua obra. Quem escreve nunca está verdadeiramente só. Saibamos agradecer quem por nós passou e permanece deixando o seu legado mais profundo. Um beijo

Cândida
Cândida
2024-04-14

Lindo bjnhos

Cândida
Cândida
2024-02-10

Está tudo bem grande poeta bjnhos

Cândida
Cândida
2023-11-01

Olá Pedro és um orgulho muito sucesso nesta tua etapa bjnhos

Rosa Lima
Rosa Lima
2023-10-22

Orgulho na escrita do meu querido Primo