Lista de Poemas

As curas que buscamos...


As curas que buscamos
nos cobram cavoucar nossos
cantinhos mais íntimos,
apreendendo tudo que lá está,
tateando,
sentindo,
escutando,

e, com delicadeza,
encontrar o que,
ontem, sequer ousávamos espiar,
sendo reféns das máscaras dos dias,
mas, com carinho e trabalho,
as curas hão de chegar
e, então, seremos mais amor e amar.
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Bailarinos dos céus I ...


Ao longo de anos João nutria por Maria mais que uma afeição, mas a introversão e a timidez não lhe permitiam dividir com ela nada além de sorrisos e brincadeiras comuns a uma amizade de muitos anos.

Conheciam-se desde pequenos, frequentaram a mesma escola, estudavam na mesma classe e a partir de um determinado ano, já mais crescidos, iam e vinham sem a companhia das mães.

Ao voltarem para casa, num determinado dia do mês, após Maria acumular alguns trocados de mesada, paravam na única sorveteria daquele canto da cidade para tomar um sorvete e combinavam, ela, a dona do dinheiro, comprava picolés de sabores diferentes, assim cada um saboreava uma metade, forma criativa para fazer de conta que tomaram dois sorvetes dos quais mais gostavam, milho e framboesa.

O primeiro e único beijo inocente foi rápido, gelado, com sabor de milho e framboesa, roubado por Maria.

Faziam a tarefa de casa invariavelmente juntos e sempre no período da tarde, e na casa de Maria, quando Dona Rosa, a mãe da amiga, lhes oferecia um esperado ki suco, num dia de guaraná, noutro de groselha, acompanhado de bolachas de maizena da marca Maria, para eles era uma espécie de chá de todas as tardes, mas só após o dever de casa estar pronto e decorado.

Os anos se passaram, João e Maria sabiam praticamente tudo um do outro, o que mais gostavam e o que mais lhes incomodava.


Maria se chateava sempre que achava estar sendo interrompida quando estivesse conversando, asseverando, - Por favor, não me interrompa.

João, vez em quando, só para provocar, tentava atravessar sua fala, mas por dentro já ria ao vê-la zangada, para ele Maria era e estava sempre bonita, tudo nela era perfeito, os cabelos longos e loiros, gostava ainda mais quando ela os deixava soltos.

Maria sabia muito da timidez de João e como ele ficava embaraçado ao ser elogiado ou chamado à atenção, ficando ruborizado e sem jeito.

Quando estavam com 13 anos os rumos tomados foram diferentes, a família de Maria precisou se mudar para um bairro distante na mesma cidade e eles se distanciaram, compartilharam endereços, prometeram escrever um para o outro e, escondidinhos trocaram um último beijo, não gelado e sem gosto de milho e framboesa, as pernas de João tremeram, ele ficara sem jeito, o rosto ardia, mas, vindo de Maria tudo estava bom e por ela João aceitava qualquer coisa, até o ruborizar constrangido.

Durante o primeiro ano de separação João e Maria escreviam um para o outro, contando novidades, tristezas, medos, amizades novas e incertezas.

No segundo ano as cartas rarearam, João escrevia, mas poucas respostas recebia, com o tempo passando agora somente ele mandava notícias, e, dessa forma, ano após ano, sempre às vésperas do dia 11 de fevereiro, aniversário de Maria, ele lhe mandava um carinhoso cartão, alimentando no coração a esperança de uma resposta que nunca veio.

João, chamado insistentemente pela esposa para almoçar, lhe pede um pouco mais de tempo e, olhando pela janela de seu quarto, de onde avista o jardim de sua casa, todo gramado e florido, contempla o desabrochar das flores de suas árvores preferidas, o majestoso Pau-Brasil, um Jacarandá e o Ipê-Amarelo, além dos manacás, das onze-horas, das flores-de-maio e a dança dos graciosos bailarinos dos céus, os Beija-Flores, delicados, sutis, belos como Maria.
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Bailarinos dos céus II, os sonhos de Maria e João...


Quando Maria nasceu, pequena em altura e peso para os padrões, chorou alto e forte como fazem a maioria das crianças, em seguida sorriu, aninhou-se ao peito da mãe e já sonhando descansou.

Lá pela quinta semana de vida, ainda na barriga da mãe, sonhou pela primeira vez e gostou, entrando para um mundo de sonhos e melodias multicores não só seu, de muitas crianças mais.

As canções que brotam dos corações desses pequenos são delicadas, mas há músicas para gostos diversos, afinal é um mundo de sonhos de crianças de todas as partes do mundo, entendendo-se em sua linguagem universal, a do amor puro e espontâneo, selada com beijos e risos.

Maria conheceu a todos, mas um menino tinha algo de especial, até nascera no mesmo dia, na mesma maternidade, com uma diferença de poucos minutos, foi o tempo exato de sua mãe, Dona Rosa, sair com ela para Dona Rita chegar e ter o João, garoto forte, grande, quase que não chora se não fosse o Doutor dar um empurrão.

Maria, João e todas as crianças desse mundo sentem as flores coloridas, perfeitas, acarinhadas por borboletas, beija-flores, rouxinóis, abelhas e outras vidas que surgem a todo instante.

Sonhos bons de crianças são rascunhos caprichados de todas as formas de expressão, resultando em aquarelas de doce emoção.

Maria e João, como já sabemos, marcaram encontro e viveram 13 anos de magias, quando seus caminhos tomaram outras direções por escolhas que fizeram nessa ocasião.

Maria olha pela janela, observa a vida lá fora, sente o aroma das flores do seu jardim, ouve os cantos dos rouxinóis a acompanhar o bailado dos beija-flores e uma brisa que traz melodias não esquecidas.

Sua mãe, Dona Rosa, insiste - Maria, minha filha, até hoje você pensa naquele menino, deixa de sonhar, volta...

Maria, calma, sorri contida lembrando do acanhado João e acredita que o sonho não acabou.
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Arte para poucos...


Elas são especialmente raras nos dias de hoje.

Não precisam de muito para saberem como estão e do que precisam aqueles que as procuram.

Jamais julgam, antes colocam-se em seus lugares, ouvindo e dedicando-lhes carinhosa atenção.

Compartilham porções preciosas de tempo.

Percebem do outro, com anuência recíproca, o seu todo, e, sem lhes tocar, apalpam seus corpos, assentindo-lhes pulsações, temperatura, humores, sabores, sorrisos e, quando das lágrimas, intuem se originadas de alegrias, medos, tristezas e toda a sorte de dores.

Não fazem apologia de perfeições ou de quaisquer certezas, pois, assumem, elas não existem.

Quem são e onde estão essas pessoas?

Se precisarem rotulá-las ou adjetivá-las chamem-nas de vocacionadas, virtuosas ou nascidas com um dom.

Espalhadas pelo mundo, sem alarde, cumprem delicada tarefa, estar com gente de todos os tipos, culturas, idades, com ou sem credos.

Lidar com seres humanos, respeitando-os, dignificando-os em suas jornadas, andando junto e construindo caminhos é uma arte para poucos.
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Às mães de todos...



Todos os dias ao se deitarem, cerrando os olhos cansados, lhes vêm à mente os sorrisos de seus filhos, seus abraços e os amorosos beijos de sempre.

Suplicam ao Deus de todos eles que estejam bem, protegidos amparados, sem fome ou frio, que nada lhes falte e que não se esqueçam de tomar cuidado ao sair ou chegar em casa.

Quando viajam lhes pedem para que avisem, certificando-se que chegaram bem.

Desejam que não façam escolhas ruins, mas se o fizerem que se lembrem que elas sempre estarão por perto.

Que não duvidem que elas, cada uma a seu jeito, lhes chamarão atenção pelos excessos de todos os tipos, na maioria das vezes com aqueles olhares.

Mães e filhos tem ligações singulares, diferentes, especiais, assemelhando-se aos Pinguins Imperadores na Antártida que, entre milhares, identificam seus filhos e os buscam incessantemente.

As mães sem filhos adotam, de um jeito ou de outro, sobrinhos, amigos, amigas e lhes dedicam o mesmo amor.

O sono vem rápido, entre o cerrar dos olhos e o dormir, todos os dias esse filme lhes passa à mente.

As mães assim o fazem, mas nem todos os filhos percebem ou dão atenção.

As mães que já se foram e estão num Plano Maior, também o fazem diariamente, buscam continuar os cuidados.

Celebremos todas as mães, especialmente aquelas que, em vários pontos da Terra, diariamente sofrem com seus filhos em meio às estúpidas guerras de irmãos contra irmãos, que não conseguem atendimento médico e hospitalar, ou que sequer chegam a enterrar os corpos de suas crianças.

O dia de hoje é apenas mais um Dia das Mães, como devem ser todos os outros, desde e para sempre.

Obrigado Deus a todas as mães.
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Arroz, feijão e ovo...


Um estudante universitário, chegando da universidade de uma cidade vizinha, já tarde, desce no mesmo ponto de ônibus de todas as noites no centro da região de São José dos Campos.
Um menino se aproxima, balançando as mãos, e diz:
- Tio, eu tô com fome.
- O que você está fazendo na rua nessa hora?
- Ah eu tenho que levar comida para meus irmãos.
- Quantos anos você tem?
- Nove anos.
- E irmãos, quantos são?
- Tenho mais cinco irmãos.
- Qual a idade deles?
- Eu sou o maior.
- Sabe que eu te vejo por aqui quase todas as noites?
- Eu também vejo o tio.
- Sua mãe sabe onde você anda?
- Sabe sim, ela pede pra eu só voltar quando tiver comida pra levar.
- Você tá com fome?
- Tô sim.
- O que você quer comer?
- Arroz, feijão e ovo.
- Olha, vai ser difícil achar um lugar aqui nessa hora que tenha o que você tá pedindo, pode ser um lanche? (mostrando-lhe um carrinho de cachorro-quente).
- Não, quero arroz, feijão e ovo.
- Tá bom, vamos procurar.
- Ali tio, ali...
- Onde?

O menino aponta para um restaurante famoso, na Av. Dr. João Guilhermino, ao lado da então Faculdade de Direito, posteriormente UNIVAP.

- Tá bom, vamos ver se eles ainda atendem.
- Eu também quero guaraná.
- Por favor, o menino está comigo, é possível vocês prepararem um prato com arroz, feijão e dois ovos fritos?

Entreolhares, garçons, quase meia-noite de um dia de semana, o gerente faz um discreto movimento, autorizando o pedido.
Escolhida a mesa, toalha e guardanapos branquinhos e lá estava o menino, pés no chão, camiseta e calção surrados, atento a tudo.
Logo chega o prato, arroz, feijão e dois ovos estrelados, acompanhado de guaraná.

- Tio eu quero comer de colher.
- Prontamente o garçom providencia a troca de talheres.

O menino comeu gostoso e rápido, mostrando bons modos à mesa, conversava bem, logo terminou também o guaraná.

Não havia mais clientes no restaurante, toalhas recolhidas, cadeiras de pernas pro ar e já sobre as mesas, garçons varrendo e limpando o salão, portas semi-fechadas.

Conta paga, o cliente mais especial da noite, pelas circunstâncias talvez da história, com um inesquecível sorriso de felicidade no rosto, deixa o restaurante que ainda hoje mantém a aura de seus tempos de referência na região.

Já se passaram cerca de 32 anos, onde andará aquele menino?
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Crianças, filhos, netos...


As crianças de agora representam a esperança de mudanças necessárias nos rumos do nosso machucado orbe terrestre e estão entre nós para nos ensinar a enxergar caminhos possíveis, nos forçando a aprender e permitir que as sensibilidades aflorem, elas são facilitadoras dos novos saberes.

Dentre suas mensagens uma das mais significativas talvez seja a de nos permitir acreditar que podemos mudar, que as enormes distorções que observamos entre nós, com os excessos de toda ordem, especialmente as muitas formas de violência, não prosperarão.

Não nascemos para sofrer infinitamente, a evolução é um caminho sem volta, estamos sendo impelidos a caminhar para frente, a abandonarmos as crenças de que a vida é assim mesmo, como uma sina imutável, estamos sendo sacudidos para acordarmos de um longo período de hibernação de um sono pesado e que quase sempre nos levava ao desalento.

O caminho é ainda longo e a jornada trará possíveis incertezas e descrenças, as crianças deste tempo estão a nos alentar para darmos uma oportunidade à esperança e crermos que, a cada vida que vivemos, avançamos um pouco, continuaremos com nosso livre arbítrio para fazermos nossas escolhas.

Se estivermos em dúvida dentre o que e quando escolher fixemos nosso olhar no olhar de uma criança, neste exato momento teremos a exata percepção de que podemos ou já começamos a mudar.

Luz, paz e serenidade.
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Você e eu...


Você e eu,
a sós,
nos abraçamos,
beijamo-nos,
nos olhamos,
acarinhamo-nos,
e, em silêncio,
com a música daquele dia,
e a mais bela chuva,
dissemos com todos os sentidos,
sim,
sempre foi o que procurávamos,
um ao outro,
fim da solidão sem sentido,
juntos, enfim,
para todo o tempo desta e de outras vidas,
sem nenhuma dúvida,
nos encontramos para caminharmos,
de mãos dadas e corações aquecidos,
temos ainda um tempo,
que não seja breve,
que dure um pouco mais,
para desfrutarmo-nos e,
quando partirmos,
quem for na frente,
ajeita o canto novo de mais uma parada,
continuaremos nossa jornada,
confiamos em nós,
superamos momentos difíceis,
nos amparamos,
ora eu, ora você,
com leveza,
melhorado, sutil,
não mais o mesmo amor,
outro, melhorado,
leve, desinteressado,
te amo, você me ama,
nos amamos,
passamos para nossos filhos,
apenas um jeito de amar,
outros, eles construirão,
com ingredientes imprescindíveis,
tolerância, paciência, ternura e perdão...
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Beija-flores, amores e flores...


Sou um discípulo dos meus filhos,
mentores que me acolhem
em minhas dúvidas e temores,
e a eles me dirijo com amor.

Não se esqueçam,
cuidem sempre de seus amores,
mirem-se nos beija-flores,
ao se achegarem às flores,
com delicadeza e carinho,
sorvem vidas em seus néctares.

Com sabedoria, não esgotam suas amadas fontes,
continuam voltando, voltando e voltando,
estimulando-as a se manterem belas e vivas,
reciprocidade para todas as vidas.

Flores e beija-flores completam-se e nos ensinam,
com sutileza, cumplicidade, leveza e ternura os laços
se fortalecem sem prender, pois que,
ao contrário, predominaria o egoísmo que seca,
esvaindo-se dia-a-dia a paixão que aprendeu
a ser amor.
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Como nossos pais...


Naquele dia, desejando que fosse melhor que todos os outros, lhe disse.
- Bom dia, desculpe-me por ontem, uma vez mais lhe falei o que não devia e da pior maneira possível...
Apenas reiterava mais um pedido de perdão a quem o amava e suportava seu comportamento de sempre, mas não conseguia mudar de atitude, repetia os passos batidos que não o levaram até então a lugar algum, desnudando suas enormes dificuldades de se olhar, ouvir-se e melhor entender as razões para continuar carregando tantas mágoas e sofrimentos.
Acessar histórias de vida, acreditando apenas na memória, nem sempre fiel aos fatos, é reforçar as crenças enraizadas de que não conseguimos mudar o passado e que estamos fadados a sermos vítimas de nós mesmos.
Nada tem que ser para sempre, especialmente quando envolve o sofrer sem sentido por acreditar que não há jeito ou está gravado em pedra e, portanto, imutável.
O autoconhecimento é uma jornada possível para desarmar essas armadilhas e se permitir um novo caminho e verdadeiros dias novos para si mesmo a para com aqueles que nos amam e nos toleram, melhor encarando as dificuldades normais do dia-a-dia que, por si só, bastam.
Quando não acreditamos que merecemos dias melhores em nossa própria companhia optamos por uma vida ancorada na amargura e sofrimento que nos leva a infelicitar também quem nos escolheu para viver acreditando numa saída para algo melhor.
Quem está ao lado pode pensar da mesma maneira, nessa hipótese passam a ser dois a acreditar que a vida tem que ser como sempre foi, em muitas das vezes igual à saga de seus pais.
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