Escritas

Lista de Poemas

Desalento da noite ou da morte da noite pela virgem

Minha noite escura, por que me procuras?
Quer o alento de meu calor?
Quer o profundo do meu suspirar?
A mancha do meu cobertor?

Noite fria, por que me crias?
Não vias pois minha máscara de ferro
Meus olhos em fogo devasso
A angústia do desejo aprisionado

Noite tola, por quem me toma?
Acaso a ti o palor é graça?
Oh noite! Meus lábios são taças
De transbordante anseio

Pobre tola não vejas a mim
A musa do teu passado morto
Pois sou filha do mundo torto
Carnal e carmim
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Rosa sepultada

São como botões brilhantes os meus olhos
Ardendo sobre brasas de um coração ausente
Como a serpente envolta em dardejante enleio
A rastejar tonturas em lacrimante choro

Qual dia enfumaçado atravessado pelo meio
A me marcar promessas soturnas
Qual sabor amargo disfarçado em flor
Enganando o meu sentido dilacerado

Não tenho sombras acolchoadas em minhas costas
Sou o mundo fechado, a rosa morta pelo chão.
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Louco

Vergado sob o peso do cair na correnteza
repuxando os nervos pra cobrir a pele nua
falando em pacotes de nuvem
o louco da lua cheia nascido do galho seco

A dias passados cantando borboletas na macieira
passado um sopro de alívio ao ver azul pra cima
um dia talvez ele não morra
o louco cantado por raios brilhantes

Na ermida dos passos de um homem no mato
a vaca vacila ociosa e com sono
de um leite jorrando por dentro de si
pela beleza de ter um pouco do escorregado
molhado do líquido pela espuma

Assim cruzado no mistério sem nome
o louco dos dias de final de mundo
entende o cantar da estrela rebatida sobre o couro do chão
vê a amarga e doce necessidade do leite
o louco por vida pulsando o louco marinheiro da noite de lua
de vida comida e vomitada, adubo.
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Cicirandando

Canta-se, ama-se! Tome
Transborde em vozes sobre os sinos e os fios da tempestade do tempo a eternidade

Canta-se, dança-se! Rode
Falseando os abismos em lascas de dor e criando os brados da formosa aventura

Canta, repete, despete-me!
-se ao cantar, ao chorar,
no meu coração

Toma meu corpo, roda o desejo do amor
Ventura, a tontura, o ardor

Cantemos,
Amemos,
hic et nunc
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Meu Poeta

Os sonhos loucos de minha voz louca
Voam nas asas do pássaro alado

As pétalas de sons de meus lábios
Pendidas no ar como plumas
Dedilhada nos pianos da lua...
Eu! em canção derretida
Aos beijos do poeta rendida

Despedaçada em tecnicolor translúcido
Variante metafísica do escuro!

A ti super-amante do espaço
Entrego-me em gota destilada
A sonhar alto a quimera esfumaçada;
Rasgando-me nos céus num beijo transbordante
Em murmúrios secretos de nossos amores distantes

Os desejos loucos de minha boca sedenta
Voam nas asas do pássaro alado...

Para MD
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Amante Sepulcral

Me deu o beijo de lama meu amante da noite passada
não sofri nem chorei pelas amargas pesadas
nem meu corpo curvou ao soco e punhaladas
que recebi com amor de defunta descarada

Me alisei nos buracos que me sobraram
me senti pelo vento carregada para o chão
levantei o rosto morto pro amante
amante doce que me levou para o caixão

Empertiguei meus ossos pontudos
revirei os braços e pernas entortados
para alcançar mais um desejo afogado
e lançar um sopro podre ao primeiro alheado

Ver o meus requintes sobre pedra dura
ser alvo das chacotas de raparigas e putas!
na minha cela enterrar cantos e lamúrias
onde escondes, oh amante, tua boca muda?

Me roubaste o som me transformaste em serpente
e mais as pétalas do meu chorar de amor
não me ficou nem teu rosto nem teu beijo
para compensar a dor de morrer em teu ardor.
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Brincadeira

Tenho horror ao céu aberto
ao som de colores
horror do dia final
meu suspiro... uma gota d'água bailando

Baile

A vida surge da morte? O dia da noite
e a tarde do diabo
a vida um erro
a vida absurda

Um tempo inteiro, um tempo curto
tempo ou não tempo
tempo ou eternidade
o deus da alma, a lama do chão
um tempo todo pela frente
ou um tempo todo por trás
a ruína do meu corpo

Ter o espírito e não ter o sentimento
do tempo da terra
do só aqui e agora
do começo e do fim
um fim............ ter um fim
nunca ter existido e existir
e nunca mais, nem uma única vez
morrer e a morte ser um bem
o descanso eterno.... o eterno, nós somos eternos

Se eu cair pelo abismo de dentro
e sofrer o golpe sobre a minha cabeça?
Se eu berrar o erro o absurdo
o sonho dourado
o que será de mim?
Feito do feito do feito
eu já fui feita... e brinco
de rolar um dado que não existe

Cantar, e eu nem sei cantar
Dançar, e eu nem sei dançar
a vida, ao não tempo
ou suspenso
entre o céu e a terra
escrevo para me consolar
da dor de ser nada, ser suspiro
de uma vida maior
vida que não para de nascer
e me usa e me abandona
me devora, meus olhos meus ossoso som da minha voz

Eu nem sei mais se tenho
a força de um tigre pra matar e comer
matar um amor, retalhar
matar a amizade, fiapo
matar o desejo, fumaça
destruir o destruível
e não sorrir nem chorar
a linda força de ser um coração sem olhos
sem sombra nem consolação
ser o não a tudo,
e comer todos

Ser eu
será eu?
Foi eu... fui eu
o dia que eu morrer terá terminado
sem nem um segundo a mais
será o fim dessa loucura
sem razão sem destino
espaço sobre espaço com um ponto final
espaço sobre espaço pelos meus olhos
e destruir
e me reconstruir ou nem isso

E eu terei sido
e meu sofrimento será apagado
assim como a minha lágrima que já secou
assim como o adeus
apagado, nunca existido
até se repetir de novo sob outros olhos que não os meus
nem os teus, mas o de alguém que chegará a sofrer tudo que sofri
como se fosse a primeira vez debaixo do sol

É a brincadeira
vamos brincar?
Dizer que existimos e que a lua nunca nos viu
e dizer que descobrimos o segredo da vida:
é o que vem antes da morte
que é a eternidade sem memória,
é poder rolar e mudar e sair e voltar
é rasgar o rosto ou não sentir a dor
é assim parecer ser nada e ser o nada
o rabisco da natureza
Eu e Tu
Vamos brincar?
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Novo

Planejo encontrar a solução da minha dor

Escrevendo em tijolos coloridos

Serão doces de chocolate por dentro

Com saborosas caldas escaldantes

Em todo o percurso de minha obra incompleta

Serei sereia do mundo submerso

Ah, uma desgraçada sereia dos tempos antigos

Cantando quiméricas desgraças...

Docemente, qual o tijolo que construo, embaladas.

A minha obra repartirá o mundo

Entre quatro paredes

Enlouquecendo a lógica euclidiana

Tão propícia ao verdadeiro

E essa obra será eterna

Na imensidão de todos os dias

Cada pequeno mundo, um revolução inteira.

Não há meio de descrever minha obra,

Não concebida, sem consequência,

Ao menos que a ela me entregue,

No sangue do meu corpo,

Todo ele corpo, às vezes tão corpo, que me dói.

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Sem entender

Quando conheci a doce canção de amor,
Quase não acreditei e te disse para ir.
No dia em que beijei teus lábios macios e sinceros,
Quase chorei, disse que não merecia.
À noite, quando deitei meu corpo nu e esperei por ti,
Quase duvidei que a vida pudesse ser tão perfeita.
Quando te vejo sorrir, ainda não entendo como as estrelas
podem vivem dentro de teus olhos.
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sou fato falhado

sou fato falhado de uma faca afiada rasgando a pele amarela de sol
ardente candente faltando pedaços estilhaçada

sou a mera saudade estampada num peito fraco ardido roído
sonâmbulo zumbido sem flores sem sonhos

sou marca de um tempo tampado por dentro sozinho vizinho vinho
áspero amargo molhado e vazio

sou soou soprado címbalo sou soou coruja migrante
alerta almirante voo rasante raspa da crosta crua

da carne que sou
verme serpente cruel

do grande canibalismo criador
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