Lista de Poemas

Temporal

O horizonte escureceu,
o vento rapidamente se levantou,
o sol partiu fugitivo.

A abelha abandou a flor.

Quase em desespero,
o pássaro iniciou
um voo longínquo.

E o vento
parece começar a despir tudo.

O tempo…
 
O temporal
tem  força 
e nunca é igual.

Tão bruto,
descomunal,
arranca placas,
espalha latas,
arremessa papéis.

Galopa medos,
anseios,
olhos cheios.

E, quando passa,
ainda fica para trás.

(Do livro Abstratos poéticos)
👁️ 135

Passagem

Seja via só de passagem.
Não plante futuros entre as pedras,
nem abane adeuses em cais,
em momentos sombrios.

Melhor ouvirmos o vento declamar
redemoinho-de-poesias
que enchem de alegrias,
mesmo que fúteis e vazias.

Sem medo de decepções,
mantendo o sonho bem vivo
e a felicidade em nossas mãos.

(Do livro Abstratos poéticos)
👁️ 76

Infusão

O perfume exala,
inspirando o rimador.

Quente é a poesia.

Seu rosto é retrato
de vapor abstrato,
desenhado no espelho.

O verso cafeinado
ascende os sonhos 
dá asas aos pensamentos
enobrece a criação 
e

ternura
poética

voa. 

(Do livro Abstratos poéticos)
👁️ 108

Fugaz

Ausências que habitam
distantes épocas
das minhas memórias,
sem nomes,
sem rostos,
sem corpos.

Endereços nem constam.
falta a glória,
faltam folhas,
sobram histórias,
esquecidas.

Nem meu nome aparece.

Ergo as mãos,
saúdo o finito.

Lembro-me de que tudo era bonito,
quase uma prece.

Ajoelho-me
e sinto que algumas raízes
resistem em heroísmo.

Há uma luz
esperançosa,
mas não há recomeços.

Dou mais alguns passos
para recordar o vivido,

e depois…
o último tropeço.
(Do livro Abstratos poéticos)
👁️ 94

Delírio

O píer fica imóvel,
enquanto o navio se afasta. 
Vou ficando cada vez mais sozinho,
 - Eu e o livro -
que agora, há pouco,
lia, ouvindo o barulho das ondas.

À noitinha, a neblina virá,
como sempre vem,
e mudará meus pensamentos.

Lembrar-me-ei das nuvens brancas
que abrirão o dia, amanhã,
e terei vontade de escrever 
um verso nelas.

Mas o giz não alcança
e, se alcançasse, seria da mesma cor:
- ninguém leria.

Ideias são, por vezes, delirantes.
Eu morro, como morre a sombra ao anoitecer.
- É o destino –

Depois,
desapareço na imensidão das águas,
cavalgando ondas da imaginação.

(Do livro Abstratos poéticos)
👁️ 87

Tardezinha

Entardeceu,
o relógio soou.

A matriz emite o som 
e contempla a praça.

-  Para que servem as horas?

Gosto de ser feliz,
tanto, que sou!

Mas o tempo...

Se não passasse
haveria adeuses?

O presente, 
eu sei,
é todo meu.

O tempo…
só pode ser Deus.
(Do livro Abstratos poéticos)
👁️ 104

Palavras

Se apontas em palavras,
já é má língua.
Se boa fosse, 
silenciaria.

Se buscas a transparência,
coloca o coração na mão
e fita-o com olhos céticos.

Verás absurdos ecléticos
em sujeitos na primeira pessoa.

Abras-te.
Há outros.
Inclua-as
nas orações que entoas.
(Do livro Abstratos poéticos)
👁️ 80

Rédeas

Seguro
as rédeas da vida
na penumbra
natural do anoitecer.

Amanheci faz tanto tempo…!

Léguas percorridas
marcaram o caminho.

inúteis mares navegados,
agora percebo:
- Nem toda onda é mar.

(Do livro Abstratos poéticos)
👁️ 54

Sentença

Sentenciei a noite,
apaguei as estrelas,
escureci a lua
e proibi lembranças.

O mundo virou trevas.

Dizer é mais forte,
sentir é menos,
muito menos.

Dizer enfurece alheios,
desperta dormidos
e azeda.

Sentir é solitário.

Silêncio não dá eco
e assim, calado,
quase dormente,
meu eu me invade,
docemente
adormeço 


- Há tanta suavidade em não ser!

(Do livro Abstratos poéticos)
👁️ 110

Estranho meu

Sou ativista do inativo
porque vibro com meus sonhos não vividos.
Emociono-me com o que não tenho sentido.
Lembro-me do que sempre foi esquecido.

Sou o belo que não se viu.
Juventude que do nada envelheceu,
vida de quem nunca viveu,
morte de quem sequer nasceu.

Não me conheço.

Sou o estranho meu,
fé e crença de ateu.

Prazer em não me conhecer!

- É só o que posso dizer.
(Do livro Abstratos poéticos)
👁️ 132

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