Lista de Poemas
O ÚLTIMO SUICÍDIO [MANOEL SERRÃO]

Ó velais o meu corpo que jaz inerte e que nu descansa imaleável sobre o pálio.
Velais o meu corpo pálido intemerato, putrescível, indigente e supérfluo nesse parco rito.
Ei-me, vem, e, faz-me o teu escárnio mórbido, o sarcasmo e o teu júbilo.
Vem, e, faz-me o teu desprezo, a mazela, o teu berro e o teu grito.
Vem, e, faz-me o teu espanto, tua admiração, tua dúvida, teu encanto; e, o teu medo.
Ó aqui de novo te evoco: vela o meu silêncio eterno, tão sinistro e profano quanto místico.
Vede esse é o meu mundo, a minha fábula, a recompensa, e o meu fardo imundo.
Ó vede pois enquanto existo entre tantos mistérios mudos, sestros, ingratos e obscuros,
Que pungem sonhos, a utopia da vida e sangrando-me morrerei sob o teu jugo.
E és tu ó Mortal sorrindo no rosto da morte? Inda indagas se vivi?
- Eu vivi... Juro! Eu vivi!
Na ânsia e no adágio da insana, ouço sonoras e fúnebres notas musicais.
Sim essa é a minha saga? Se essa é a minha sina que vaga quão manchas, espectros, e sombras intrusas de vozes e fantasmas.
Quisera eu ver o purgatório de Hades? Quisera!
Ah! Deus sabe: até que o confesses, a vossa carne fede até o universo. Ó insetos, parasitas e micróbios? Qualquer morte te serve!
Sou eu. Sou eu. O mundo que diria se soubesse de onde venho?
Lá havia homens às janelas, e olhavam ruas desertas e eternas...
Nunca serei uma mera exposição decorativa do-que-é-óbvio.
Escarra, meu filho, escarra-me no rosto! Despreza-me tanto quanto queiras.
Mas ajudai-me a vencer-me? Logo tu? Quem te morreu? A sãos e doentes, o que é para ser humano? Não sei!
Ó apaguem as luzes, vamos maestro! Vamos tocar a orquestra?
Escutem! Escutem! Escutem os violinos, os violões, o rufar das trombetas anunciando-lhes.
Exercitem em dissonantes os acordes que exalam no aceno o bálsamo do adeus, do membro amputado.
Ó maldição! Ó malditos sons!!!!! Ó malditos que regam o pranto das lágrimas e que espalham ao vento o lamento da despedida.
Ouviram!!!! Escutam-se o som de poucas palavras. Sobram soníferos, murmúrios...
E eis que segue o féretro mórfico rumo a ressurreição
A caminho do supremo e do divino reino.
Uma dádiva ancestral de lembranças e saudades lucrarás.
Ó devaneio devoto além do pensamento, vejo a minha construção;
A minha morada, ora é de sonhos sobre o eterno, ora é de pedra sob a terra.
Ó aqui estão as minhas horas...
Dá-me o templo e a ruína nos pedaços do tempo!
... e do espaço, vestígio e lenda, filhos do vento, e me pego cheio de alucinações.
Agora temente à febre que enfraquece o remédio...
Tomo o último analgésico que não sana o delírio e nem cura o da agonia que padece de alucinação...
Assim tombo silente no meu último suicídio!
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DORA [Manoel Serrão]

Se o hiato é preia que oprime?
Ó "vades retro" o que exprime.
Fora os doxas, os paradoxos
e os ortodoxos.
Abaixo a dialética, as parabólicas, e a metafísica.
Fora a prosa sem demora e de rebuscado vernáculo a poesia!
Para dentro? Ou para fora?
Hoje eu quero é beijar Dora.
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NUNCUPATIVA [MANOEL SERRÃO]

Nefanda e nuncupativa fora a tua paixão.
Nem Malasarte e nem Apollo nos seus mais gloriosos dias,
Tiveram antídoto para o teu mortal ofídico.
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CÉPTICO SEM REMÉDIO [MANOEL SERRÃO]
E se Thomé creu porque viu,
Eu o incréu sem remédio?
Nem com rivotril... Crio!
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SISTEMA LÍMBICO [MANOEL SERRÃO]

Ora o gânglio fujão e o límbico bufão.
Ora o basal mal comportado xingão.
Ó como é cinza o submundo do cérebro.
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A CANETA QUE EMBURRECE O HOMEM [Musica Caneta Azul] [MANOEL SERRÃO]
Discorda? Pare, pense. Consegue? Então, sigamos. Sente-se numa cadeira, de frente pra duas pessoas que estão dançando... Com algodão, ou qualquer coisa do tipo, isole acusticamente os seus ouvidos. Fez? Então, agora, preste atenção. Aguce o seu senso crítico – caso tenha um. O que você vê? O que você realmente vê? É bonito? Por que o ritmo alucina – e isso só pode ter vindo da inteligência – e a letra atrai a má crítica – e isso só pode ter vindo da burrice; Chego a uma conclusão: Isto não é um grande feito. Nem de perto é. Como uma música de apenas refrão não pode ser. É um perigo. Sim, um perigo. Porque com essa sedentarização que é imposta ao nosso pensamento, é um verdadeiro golpe na cultura. Cada vez mais nascem músicas sem letra, sem sentido – propriamente pensante – e, cada vez menos, se vê a verdadeira essência da música => a mensagem que se passa. E por último, temos a xaropada invasiva do estilo sofrência, que de tão ridículas jamais deveriam ser definidas ou chamadas de músicas. Para tanto, tentando entender (se é que é possível entender alguma coisa) como chegamos nisso? Como podemos ouvir a algo verdadeiramente tão ruim? Um verdadeiro purgatório de musicas com letras purgativas que só falam de traição, sexo, cachaça, bumbum: "eu vou beber até...; eu vou quebrar-a-cara dela [é assim mesmo com cacofonia e tudo mais]". Ou ainda: "já vendi o carro e vou beber de cachaça"; "vou pegar a novinha...": "rebola o bumbum", etecetera, desvalorizando a mulher; desconstruindo a família, exercitando um português chulo e desprovido de qualquer concordância verbal e/ou nominal, ainda aparece a tal da Caneta Azul. De prima facie, que fique claro, aqui não se trata de preconceito, mas de conceito. Ouço incrédulo toda uma geração emborrecida, flutuante e vazia, resultante de anos de uma lavagem cerebral cruel e perversa proporcionada pela indústria do lixo – trash - cultural, enfim, óbvio verificar o quanto a música de péssima qualidade - em TODOS os sentidos - conseguiu invadir todos os espaços midiáticos que você imaginar, a ponto de presenciarmos a todo instante o quanto a riquíssima e legítima cultura regional do país está completamente diluída.Eis ai então que está formata e criada uma legião de alienados, energúmenos e mentecaptos de um gosto musical medonho e bestializado. Como gado no curral, dominados pelo cabresto do lixo cultural imposto pelo poder, sem que percebam a mediocridade a que foram levados. Tá tudo e todos dominados. Um grande curral cheio de excrementos "sonoros'. Um panótipo assustador que corrói quão ferrugem a formação do espírito humano, mormente o pensamento crítico de um povo que deveria ter acesso franqueando a um leque de opção que permitisse ou permita sacar a venda dos olhos e do espírito. A propósito muitas pessoas acham graça da “música” , cantarolam, divulgam aos amigos, tocam em seus possantes paredões, etc., porém em vez de engraçada, vejo é mesmo com muita preocupação, porque nos faz constatar que realmente estamos no caminho errado. Isso já fora constatados por Platão [filósofo grego] que tratou à estética e a ética com referencia a música e a educação em sua obra. “Para Platão, o ideal da educação não é formar o indivíduo por ou para si mesmo, mas formar o cidadão para a polis.” (TEIXEIRA, 2006, p. 26) Nesse Estado ideal, o mais perfeito possível, os cidadãos seriam educados desde a infância para buscar a verdade, praticar o bem e contemplar a beleza. A obra A República discute como seria tal Estado, senão vejamos: “Para Platão, os gregos, a literatura, a música e a arte teria grande influência na formação do caráter, e seu objetivo era imprimir ritmo, harmonia e temperança à alma”. Por isso se deve preserva-la como tarefa do Estado.” (FONTERRADA, 2008, p. 27). A principal função da música, portanto, seria pedagógica, uma vez que ela era responsável pela ética e estética, o que implicaria na construção da moral e do caráter da nação. De acordo com Tom Martins, bacharel em Composição e Regência, é maestro da OFSSP, compositor e instrumentista.": "A música – ou a arte – não é necessariamente algo bom apenas por ser música ou arte. Há a música nefasta, a arte degradante. Se há uma relação íntima entre ética e estética, os valores cultivados por quem cresceu ouvindo lixo cultural evidentemente vão se refletir em suas ações. “Fechar os olhos a isso e não cuidar para que o que nós ouvimos e consumimos como arte seja algo minimamente razoável ultrapassa o limite da irresponsabilidade: é suicídio. ”Portanto, sim retirar-lhe dos olhos e do espírito a feiura do mau gosto. E acesso então a uma ética e estética cultural de apurado gosto. Porque essa história de que gosto não se discute? Engano! Gosto se discute Sim! Porque gosto que não se discuta? Atrofia! É verdade, infelizmente chegamos ao fundo do poço. Grande ABRAÇO.
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MACBEIJO TEEN [MANOEL SERRÃO]

Nosso primeiro beijo
Foi no MacDonald’s.
Depois no Bob’s,
Foi amor sem vergonha!
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PASSATEMPO [MANOEL SERRÃO]

À tempo sem tempo...
Só-correndo sem tempo há tempos
O homem sem passo passatempo!
Só-correndo o homem sem tempo.
Sem passo passa o tempo correndo
Passatempo só-correndo no tempo.
O Homem sem tempo correndo? Jaz há tempo!..
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ACÍDIA [MANOEL SERRÃO]
Açoita-me acídia! Açoita-me!Anuncia-me um mau presságio.
Rumina-me e odiosa detesta-me.
Rouba-me d’minha alma à fórceps as forças.
E devora-me pelo medo a razão.
Vinga-te então! Vinga-te então!
Vós que passais as horas babando, lambendo as migalhas da existência!
Solta a tua gana eclusa de vingança
Nas noites vazias de terror.
E assim, quando juntares todas
As flores murchas do vosso jardim?
Dá-me “perdão” e o "perdão à ti!!
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DIREITOS HUMANOS [MANOEL SERRÃO]
Direitos Humanos?Apenas para Humanos Direitos!
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Comentários (1)
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321alnd
2019-03-06
Parabéns por seus textos e seus poemas, meu caro Manoel Serrão. Poesia é, como disse o grande poeta Octávio Paz, salvação e nós dois seremos salvos por ela, assim como todo aquele que faça da beleza o único pão para sua alma. Tenho igual honra em te-lo como leitor. Um forte e cordial abraço.
Perfil
Nome completo: Manoel Serrão da Silveira Lacerda. Idade e naturalidade: Nasceu em São Luís [Atenas Brasileira] capital do Estado do Maranhão, na Santa Casa de Misericórdia, em 19 de abril de 1960. Filiação: Filho de Agamenon Lucas de Lacerda e de Oglady da Silveira Lacerda. Neto paterno de Manuel Lucas de Lacerda e Maria Antônia Lucas de Lacerda; neto materno de Hidalgo Martins da Silveira e Maria José Serra da Silveira. Ascendência geral de espanhóis e portugueses judeus. Profissão: Advogado e Professor de Direito, formado pela Faculdade de Direito do Recife - UFPE, curso criado pela Carta Lei de 11.08.1827 - publicada em 21.08.1827 - Chancelaria Mor do Império do Brasil, que no passado acolheu dois presidentes: Epitácio Pessoa, em 1886 e Nilo Peçanha, em 1887. Acolheu outros nomes, os quais enriqueceram a nossa cultura como: Rui Barbosa. Castro Alves. Augusto dos Anjos. Ariano Suassuna. Miguel Arraes. Francisco Julião. Barão do Rio Branco. Barão de Lucena. Joaquim Nabuco. Fagundes Varela. Raul Pompéia. Tobias Barreto. Graça Aranha. Álvaro Lins. José Lins do Rego. Pontes de Miranda. João Pessoa. Clóvis Bevillaqua. Silvio Romero. Adolfo Cisnes. Assis Chateaubriand. Agamenon Magalhães. Luís Câmara Cascudo. Aurélio Buarque de Holanda, e tantos mais. Dimensionar a origem do berço poético do autor, assim como a dimensão e a importância do Maranhão para a cultura nacional, peço vênia para transcrever um pequeno trecho da obra do imortal membro da Academia Maranhense de Letras o professor Jomar Moraes, intitulada - Apontamentos de Literatura Maranhense - edições sioge - nota bene: "Sem receio de qualquer exagero chauvinista diríamos que a presença do Maranhão na literatura nacional se caracteriza, principalmente, pelo vanguardismo que sempre colocou nossos homens de letras à frente dos debates das novas ideias e da renovação de padrões estéticos. Do negrismo de Trajano Galvão ao neoconcretismo de Ferreira Gullar; do ideário estético e nacionalista de Gonçalves Dias às antecipações modernistas de Sousândrade; da lucidez analítica de João Francisco Lisboa ao ensaísmo da Franklin de Oliveira e Oswaldinho Marques; dos estudos folclóricos de Celso Magalhães ao romance naturalista de Aluísio de Azevedo; dos estudos de Nina Rodrigues à renovação estética pregada e apoiada por Graça Aranha, tudo revela e comprova a clara vocação de pioneirismo e liderança que assinala uma das mais características e importantes facetas da nossa participação na cultural nacional". E ainda, de Coelho Neto, Teófilo Dias, Vespasiano Ramos, Raimundo Teixeira Mendes, César Marques e muitos outros de uma constelação que brilha desde meados do século XIX. Dois dos quais – Gonçalves Dias e Teófilo Dias – são patronos de cadeiras na Casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras, à Akademia dos Párias, dentre eles: Fernando Abreu, Paulo Melo Sousa, Garrone, Paulinho Nó Cego, Marcello Chalvinski, Zé Maria Medeiros, Celso Borges. Podemos citar: Arthur Azevedo; Catulo da Paixão Cearense; Bacelar Vianna; Bandeira Tribuzi; Padre Antônio Vieira [Sermão aos Peixes]; Odorico Mendes; Sotero dos Reis; João Francisco Lisboa; Gentil H. de Almeida Braga; Custódio A. P. Serrão [Frei]; Trajano Galvão; Josué Montello; Nauro Machado; José Sarney; José Chagas; José Maria Nascimento; Laura Amélia Damous; Luís Augusto Cassas; Alex Brasil, Antônio Miranda, Carlos Cunha, Dagmar Desterro, Joãozinho Ribeiro, Lago Burnett, Odylo Costa, Roberto Kenard, Salgado Maranhão, Vespasiano Ramos, Joaquim Haickel, João Batista Gomes do Lago; Mhario Lincoln; Lenita de Sá, João Paulo Leda, Evilásio Júnior, Antônia Veloso, Luiza Cantanhede, Zélia Maria Bacelar Viana, além de muitos tantos outros.
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