Escritas

Lista de Poemas

Total de poemas: 8 Página 1 de 1

FELICIDADE

FELICIDADE



Felicidade era grande 

Tão grande era quase gigante

Rubicunda  vasta nutrida 

Sempre presente abundante

Com os grandes olhos castanhos

Sorria um sorriso brilhante

Que abria uma gargalhada impudica solta vibrante

Felicidade ia à praia nadava no mar no Verão 

Andava pela estrada ao vento dirigindo fora de mão 

Espalhava alegria pelo mundo 

Tinha muita para espalhar

Comia e bebia o que queria

E com todos dividia 

Bebida doces e pão 

Felicidade crescia cheia de sofreguidão 

E quando alguém menos grande 

Lhe dizia que era feliz 

Feliz por qualquer razão 

Soltava a sua risada e dizia sem compaixão 

Felicidade sou eu só eu sei o que é ser feliz

E feliz é abuso semântico isso é só satisfação 

Que acaba dentro de pouco quando passar o tesão 

Felicidade estourou no meio duma gargalhada quando comia feijão 

Morreu de repente assustada de ataque de coração

E definhou num instante murcha, triste e mirrada

Magrinha do pé para a mão
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O AMANTE DO MAR

O AMANTE DO MAR

I.

Dormia à noite na praia

Deitado à beira do mar

Na espuma das ondas mansas 

Deixava-se por ele embalar

E quando o mar o chamava

Lambendo-lhe a pele com langor

Metia-se dentro dele 

Fazia amor com o mar

Com o mar seu único amor

II.

Quando ele está à minha frente

Tão perto ao alcance de um passo

Esqueço todo o passado

O presente torna-se baço

E avanço esquecido de mim

Só quero sentir o abraço

O imenso amplexo que leva de mim os sentidos

E faz de mim um instante

Uma micro-partícula no espaço

Despido de dimensões

Nu e insignificante

Que só dentro dele me sinto

Pleno maciço gigante

E flutuando sem norte

Sozinho com ele e os astros

Sou eu o ínfimo corpo 

Enésimo filho da Terra

Que quando se encontra no mar

Livre solto irrestrito 

É infinito sem nada

E é nada no infinito 


III.

Quando eu morrer

Hei de voltar 

Para poder morar no mar

Hei de voltar 

Como cetáceo peixe ou outro ser do mar

Para poder debaixo de água 

Livremente respirar

Quando eu morrer 

Hei de voltar para ser feliz

Como fui quase… e por um triz

A minha sorte não deixou ou eu não quis

Hei de nadar no mar sem fim 

Com o meu amor sempre a meu lado 

Como de Delos os delfins 

Os namorados dos mosaicos 

Talvez então morrer no mar

Mas por amor como Leandro

Sabendo assim que fui feliz

Que fui feliz 

Só saberei mesmo no fim

Quando eu morrer 

E voltarei

Para ser eu do mar o amor

Se ainda houver mar

Quando eu morrer

E o amor ainda existir

Quando eu voltar
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O ENTERRO

O ENTERRO



Quatro homens juntos 

Do mesmo tamanho

Em silêncio levemente oscilando

Da direita pelo portão vão entrando 

Exibindo o carrego 

Em lenta dança 

Cabeça inclinada para fora

Pé direito o primeiro que avança

Grande caixa de mogno brilhante 

Que parece pesada 

Sustêm

A direito no ombro apoiada

Uma mão segurando na base

O outro braço esticado tentando abraçá-la por cima

Todos de preto

Pretos fatos sapatos meias pretas gravatas

As camisas em branco gritante

Um rapaz dezassete dezoito aproxima-se

Sai um deles entra ele

Frente esquerda

Marejados os olhos azuis 

Brilhando vermelhos 

A aflição é flagrante

Na orelha o ouro da argola reluz na manhã

Como a noite ainda distante 

São negros os jeans e a t-shirt

Mão direita por cima mão esquerda por baixo agarrado com força

Vai dali em diante 

Até onde a sua gente se agrupa

A caixa é pousada junto à cova aberta no chão

Com todos os rostos virados para lá em silêncio e terror

Véus chapéus e óculos de sol

Preto a única cor

Giram todos o olhar para o belo rapaz quando chega

Abraços carícias palmadas nas costas

De uma mulher um sussurro

Bom menino sem rancor nem vingança

Pai é pai afinal

Do rapaz nem sequer um murmúrio


No grupo em que estou

O caixão já chegou

Esperando a vinda do padre junto à campa jazia

Atrás do monte de terra escavada 

Uma mulher veio do grupo e sobre ele se lançou 

Tentando abraçá-lo em aparente insana agonia  

E gritando minha querida menina

Uma voz a meu lado suspirou

É desgosto de mãe

Mãe é mãe afinal


Em vida porém 

Torturou a filha sem dó

Abandonada semanas a fio

Era só um bebé 

Gatinhava quando foi escorraçada por ela  

Que depois lhe escrevia muitas cartas à máquina

Histórias macabras de violência e terror  

Só medo desdém e repulsa oferecia

Sem remorso nem compaixão

Muito menos amor

Obrigava-a a visitas penosas que nunca queria

Juntando fel e veneno

Às feridas abertas e à dor

Que agora a matou


Mas está morta e inerte no esquife

Afastar o abraço que a agarra não pode

E mãe é mãe pai é pai

Diz o povo

São palavras que não se dizem em vão


No mesmo momento

Os dois caixões dão entrada nas covas

Ouvem-se corvos grasnar quando a terra lhes toca

Num país em que os corvos são raros

Fumam uns fungam outros

Um bebé solta um grito à distância

E o dia de repente enoitece

Os estorninhos em bando 

Tomam conta do espaço infinito 

Embrulhando o azul nos folhos do seu negro véu

Alargando-se a hoste e estreitando de novo

Abrindo-se em mirífica flor 

De seguida transforma-se em seta 

Dirigida ao além

Perseguindo um enorme falcão predador 

Que expulsa do céu

E ao longe uma voz mal se ouve

Este enterro não o esquece ninguém

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MAR ADENTRO II

MAR ADENTRO II


Flutua nada

Deriva mergulha

Debaixo de água

Sobre a água

Sente tudo num sentimento só

Sem separação sem limite sem barreira

O céu a linha de água

Espúria fronteira com coisa nenhuma

Deixa-te embalar pelas ondas

Salpicando o mar com os suas próprias gotas

Dançando com a suave melodia do som em eterno movimento

Enquanto te reclinas e dissipas no infinito

A imensidão

O absoluto

O nada

Vagueando livre e solto

Coisa nenhuma no vazio do universo

Só tu e a vastidão do mar
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MAR ADENTRO I

MAR ADENTRO I


Mar adentro

Flutuando sobre as costas

Balançado pelo suave marulhar

Que o arrasta oscilando lentamente

Para onde só há água e a imensidão do céu

Embalado por um sonho sem pé e sem limites

Até à Terra do passado onde a vida respira facilmente

Entregou-se sem medo às carícias da baleia azul gigante

Às cócegas de incontáveis cardumes de ínfimos peixes coloridos 

Mergulhou num sentimento azul profundo de prazer intenso tranquilo

E deixou-se ali ficar para que o mar o quisesse levar para um lugar distante

Um ser desconhecido do abismo e não o corpo à deriva de um náufrago perdido

Criatura da Terra renovada cheia de vida rica e variada que respira pujante em liberdade
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VENICE IN YOUR EYE

VENICE IN YOUR EYE

Não só a água

Não só o tijolo e a argamassa

Não só a flecha do arco gótico de inexcedível graça

Nem o bizantino

Nem o mosaico de ouro

Nem a renascença de direita traça

Nem o barroco fausto 

A madrugada e o crepúsculo 

O enlevo da alvorada 

O desvelo do lusco-fusco

O silêncio
E o murmurar dos barcos

A memória toda que no mar flutua vagarosa

Tem cada um o seu mágico feitiço

Mas por si só não bastam

Juntos sim levantam a varinha milagrosa

Que tudo envolve no manto sublime da imortal beleza 

E enche os teus olhos do brilho faiscante da surpresa

E não 

Nenhuma visão me mais seduz

Do que olhar-te

Olhar-te àquela luz
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TEMPO RASO

TEMPO RASO

Estradas empedradas vias ínvias vias largas

Caminhos de tempos idos

Imunda escuridão esplendor brilhante

Gastos pelos pés e rodas dos séquitos dos séculos

Cúpulas e torres templos dos deuses todos procurando os céus

Sacrários e altares no interior escondidos

Colunas muros de mármore e fontes grandes e pequenas

Escorrendo sobre o tempo esculpindo a pedra lentamente

Villas paços parques e jardins de cardeais e senadores

Sedas carmins e veludos tintos de sangue e vinho

Assombrações de papas e imperadores

Sabedoria banalidades mentiras e verdades

Pilhagens estátuas vitórias ostentação de circunstância e pompa

A loba vencedora divinizada estranhamente

Tudo dela

O mundo

O circo

Banhos do povo e praças e teatros

Anfiteatros diários de dor e de labuta

Cloaca máxima sons e cheiros em permuta

Ruas de Roma ruas de glória

À superfície

Por baixo uma outra história

Assoma em todo o lado

Estrato sobre estrato

Tempo arrasado

Abandonado

O futuro do passado
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AMANHÃ TREINO

AMANHÃ TREINO



Amanhã durante o treino

Vou suar as minhas lágrimas até ficarem secas                                      (como pó)                                                                                                                                                              
E amansar a minha dor

Vou engolir cada soluço

Para dar tudo no supino

E o meu peito vai inchar de forma espetacular

O meu bíceps vai ficar a latejar                             (até rasgar a manga da camisa)

Vou andar de bicicleta durante horas sem sair do meu lugar

E vou correr milhas e milhas e ficar                                          (no mesmo ponto)

Vou ensinar o coração a conseguir bater melhor

E vou dar tempo a um amigo ou dois se lá estiverem                            (amanhã)

Vou finalmente dizer aos que me xingam aquilo que devo                          (fazer)

Vou enfiar o dedo na proteína                                                                (e batê-la)

E vou chupá-lo em pleno vestiário                          (em frente a todos os rapazes)

Antes de engolir cada gota até ao fim

Tão saudável e tão bem vou voltar a ter vinte anos               (e o tempo vai parar)

Sem remorso nem lamento

Vou conseguir uma coxa gigantesca         (com peso morto e muito agachamento)

Não as duas escanzeladas que me deixam sempre as calças bem folgadas

E vou voltar a andar na rua de cabeça levantada                                         (amanhã)

E depois morro
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