Escritas

O ENTERRO

leonelpedrosogoncalves
O ENTERRO



Quatro homens juntos 

Do mesmo tamanho

Em silêncio levemente oscilando

Da direita pelo portão vão entrando 

Exibindo o carrego 

Em lenta dança 

Cabeça inclinada para fora

Pé direito o primeiro que avança

Grande caixa de mogno brilhante 

Que parece pesada 

Sustêm

A direito no ombro apoiada

Uma mão segurando na base

O outro braço esticado tentando abraçá-la por cima

Todos de preto

Pretos fatos sapatos meias pretas gravatas

As camisas em branco gritante

Um rapaz dezassete dezoito aproxima-se

Sai um deles entra ele

Frente esquerda

Marejados os olhos azuis 

Brilhando vermelhos 

A aflição é flagrante

Na orelha o ouro da argola reluz na manhã

Como a noite ainda distante 

São negros os jeans e a t-shirt

Mão direita por cima mão esquerda por baixo agarrado com força

Vai dali em diante 

Até onde a sua gente se agrupa

A caixa é pousada junto à cova aberta no chão

Com todos os rostos virados para lá em silêncio e terror

Véus chapéus e óculos de sol

Preto a única cor

Giram todos o olhar para o belo rapaz quando chega

Abraços carícias palmadas nas costas

De uma mulher um sussurro

Bom menino sem rancor nem vingança

Pai é pai afinal

Do rapaz nem sequer um murmúrio


No grupo em que estou

O caixão já chegou

Esperando a vinda do padre junto à campa jazia

Atrás do monte de terra escavada 

Uma mulher veio do grupo e sobre ele se lançou 

Tentando abraçá-lo em aparente insana agonia  

E gritando minha querida menina

Uma voz a meu lado suspirou

É desgosto de mãe

Mãe é mãe afinal


Em vida porém 

Torturou a filha sem dó

Abandonada semanas a fio

Era só um bebé 

Gatinhava quando foi escorraçada por ela  

Que depois lhe escrevia muitas cartas à máquina

Histórias macabras de violência e terror  

Só medo desdém e repulsa oferecia

Sem remorso nem compaixão

Muito menos amor

Obrigava-a a visitas penosas que nunca queria

Juntando fel e veneno

Às feridas abertas e à dor

Que agora a matou


Mas está morta e inerte no esquife

Afastar o abraço que a agarra não pode

E mãe é mãe pai é pai

Diz o povo

São palavras que não se dizem em vão


No mesmo momento

Os dois caixões dão entrada nas covas

Ouvem-se corvos grasnar quando a terra lhes toca

Num país em que os corvos são raros

Fumam uns fungam outros

Um bebé solta um grito à distância

E o dia de repente enoitece

Os estorninhos em bando 

Tomam conta do espaço infinito 

Embrulhando o azul nos folhos do seu negro véu

Alargando-se a hoste e estreitando de novo

Abrindo-se em mirífica flor 

De seguida transforma-se em seta 

Dirigida ao além

Perseguindo um enorme falcão predador 

Que expulsa do céu

E ao longe uma voz mal se ouve

Este enterro não o esquece ninguém