Lista de Poemas

Simples

Todo o engano
é uma solidão
um salto involuntário

Mais simples seria
Se desprender
Soltar as amarras

Enquanto o homem
sonha em ser tolo
O tolo
nada preza

Triste ironia
Voltar as ruas um dia
E ver que nada é velho
Ou mesmo novo

Que o encanto
E a senha de um amor
Sem vencedor
Sem engano
Apenas solidão
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Teu nome na parede

Escrevi teu nome
na parede do banheiro,
desenhei teu rosto
no azulejo.
É um desejo que tenho,
um fetiche antigo.
Portanto,
não ache estranho
o comentário,
ou mesmo o fato
de rabiscar, em lugares inusitados,
quem eu admiro.
Pousei teu corpo sobre a mesa —
era lindo,
ainda quente.
Soltei teus cabelos,
cortei parte da orelha.
E só então me despi.
Sei que parece estranho,
mas é um hábito sinistro:
mutilar em pedaços
quem eu assisto,
ou — acho — que amo.

Um amor no porão
2022

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Rascunhos

Nada muda para além da vida;
o tempo,
as lutas,
ensejos.

Nada muda sem um desejo;
uma farpa
ou mesmo marca
em deletério.

O que fazem os velhos, já
esquecidos em silêncio,
as pessoas abandonadas na
miséria?
O que sentem, ou buscam, infelizes?
Há rascunhos demais por se ignorar.

Na frívola memória de um tolo,
o mundo é simples,
existe e pronto.
Frouxa realidade,
há os que sempre lucram,
vencem em vaidade,
sem dividir na avareza.
Mais-valia que o seja,
ainda perduram os senhores do engenho,
os donos da guerra e da paz,
e, em meio à sarça,
que insurge por livramento.

A morte, ao largo do tempo,
anjo sem asas e face esquiva,
visitou o templo e trouxe ofertas
ao seu gosto,
e tributos devidos.
Olharam em vão suas vestes,
seus pecados esquecidos,
e, no gélido contar de passos,
seus desvios perdoados.
Há quem se pergunte como duvidar,
se um destino crivo tem de certo a surreição.

O mal não cumpre calçada,
caminhada inerte,
ao contrário, condena os esvalidos.
A cidadela que acoberta os fatos,
suas mazelas, misérias e violência.

Diante do fardo,
se oprime,
transforma em cerca a
distinção,
obtém a graça por imposição.

Nada mais velho
e ancestral que a imutável
escravidão do ser,
que a exploração encíclica.
Ao lado do fruto podre,
a verdade se contamina,
e segue sendo história,
culta matéria de ódio elitista.
Ao nobre, cabe a forca;
ao gentio, a moenda.
Os grilhões infindos,
já passam da noite,
os açoites, as trovas,
as armas ou escarros.
O povo sofre, pois há lei,
e o foi maior que está,
sofreu deveras,
pois estava escrito.
E permanece em cada
fala arrastada,
em cada bala perdida,
em cada filha estourada,
em toda fome e exploração.

Não há senão interesse,
esse que saboreia vitória,
encarcera vidas,
e contamina almas.
O discurso é o mesmo,
frio e violento.
O levante está a postos,
e observa, garboso,
as amarras permissivas
lançadas sobre a massa.

Ao lado de tudo,
e atento,
vislumbrar é um tormento sísmico.
Nada muda porque é além da vida,
e mantra estendido para não vingar.
E, sorrateiro, o tempo brinca.

A cidade dividida
2025.

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Para vida toda

I - Visões em si

Não é sobre mim
sobre nós 
ou você 
o tempo
a voz
sobre nada
sobre tudo
sobre algo
ou coisa alguma
Não é sobre o passado 
o presente
o futuro 
obscuro
ou desagravo
Não é sobre a dor
o amor
as palavras
difíceis 
ou vazias 
de entendimento 
Não é sobre a miséria
sobre a maleza
sobre fome
ou outras
injustiças 
Não é sobre a noite
sobre o açoite
sobre o amanhã
ou o infinito
espairecer 
Não é sobre a certeza
Sobre a semente
sobre o agora
ou o que possa
acontecer.
A vida toda
a noite inteira
alvorecer

II - Passado que limita

"_ Acácio sentou-se a mesa,
algo ao qual não era convivo,
ao seu lado alguns tantos esquecidos
perdidos entre a vida e a sorte
..."
Miseráveis que sem lugar,
nem o tempo,
nem a vontade,
ou verdade,
ou boa comiseração 
ocupam os pátios,
passeios, calçadas e ruas,
barracos e viadutos,
e a ilusão 
e iluminam inertes 
a ignorância,
e insensibilidade,
e a culpa comum,
hoje,
ontem,
e sempre,
passado
e presente,
e nenhum 
futuro

III - Ódio às coisas belas

Aprendemos que não deve-se odiar,
que não se pode ignorar a dor,
e  ocultar-se o horror,
não esqueça a miséria humana,
nem a violência que os incendeia,
seja direto,
vil,
cético,
e quando tanto ardil
puxar a tona a morte,
A razão fez o norte
o objeto indiscreto,
secretam os sentidos,
as coisa belas,
as notas falsas,
imundas,
e todas as sortes 
de idéias vazias e inúteis .
Secretam os velhos.
em frio o altar .

IV- Postulantes ao amor

Runas esquecidas,
afoitos e exatos
sentimentos,
desvios e interesses dúbios
consomem o desejo,
e prazeres.
Envolta em sonhos,
a imuta acorda,
trança as horas
e assim continua
são oriundos,
crianças ocultas
observam
as agruras do amor,
e defeitos,
e artimanhas,
e afagos
Postulantes 
elegíveis 
proféticos
Cada vida
forja um caminho,
um deserto
e suas dores

V - Para além

Viver é verbo
lira atrofiada
sem nexo
Olhe para suas mãos
e perceba
as marcas sumiram
os poros ocultos
a fardas inexoráveis
Ao que se tem saber,
e longe o prazer lívido
para sempre
para além.


Um amor no porão
2022

👁️ 282

Linha augusta

Não há beleza
na tristeza 
ou segredo
que a valha.
A dor que finita,
simplifica
tudo 
ou quase tudo
ou a quase todos
sincera
mão que espera 
a falsa ilusão 
o lodo insepto
margeia a linha augusta 
Fiel ou funestra
assim começa
a linha mestra 
a dor de outro
a dor de ontem
tontura invisível
e sugesta
amor irracional
a portas de um madrigal
doente 
e morto
e sangra
e sofre
infeliz.

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Ofertório

O amor é um desprendimento involuntário
&
Afeito
as interpretações mundanas.

Quem conhece seus desejos mais obscenos?

E quão sórdido levanta-se em ofertório o seu gozo?

Verbo latino
dicotomia rítmica,
complexa ironia, policialesca,
de putas e varões imbecis.

Sua lira é a liberdade
Com o arroto das mentes torpes

Mal gosto e,silêncio
seu contexto básico é a vida
que insisti arrefecer em discrição.
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Comentários (3)

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Meu caro lagaz - estas flores desenhadas em teu corpo... chama mesmo muita atenção... é do lado de seu coração? se for é muito sugestivo. tenha um bom dia. Ademir - realmente tesu poros se abrem para o mundo da poesia. Saúde para ti e tua familia.

Meu caro Poeta Lagaz... como sempre uma obra prima, de primeira grandeza . estás a dizer a pura verdade em versos humanos . Maldito quem escreve um poema e contorna sua própia. alma. na minha humilde opinião não merece o corpo que tem e nem o sangue que lhe traz a vida do criador. Ademir. Parabéns.

lagazaz
2020-11-17

Fico agradecido por duas palavras.