Lista de Poemas
𝑻𝒆𝒎𝒑𝒐 𝒔𝒐𝒎𝒃𝒓𝒊𝒐
Céu nublado,
Sol acabrunhado,
E eu com uma dor almática,
Pelo pesadume apossado...
Numa Pátria insorridente,
Inibida de vivenciar beatitude,
Melancólica, anelando o advento de um presente...
Presente risonho, condicionado por horripilantes bichos...
Nela o sol já não sorri,
Os dias são incolores,
As flores murcharam,
E a brisa já não tem sabor...
Já não tem cheiro,
Além de horror,
Tempo atordoado,
Enfim, uma prisão moderna-mor...
Prisão, com barras de medo,
Guardada por bichos, cujo poder sobrepujou a moral,
Alucinadamente plêiade,
Acervo desumano e irracional...
No deserto, percorrendo veredas áridas,
Sem esperança, além de Deus e seus filhos...
Num cárcere escuro, sem o lumiar da esperança,
Um pouco silencioso e sombrio...
Só um pouco de tumulto,
Resmungo que emana de seus filhos,
Com os nervos à flor da pele,
Jorrando lágrimas, de estômagos vazios.
Luanda, Setembro de 2022
O desenho que se confunde com a realidade
Nosso mundo é um desenho,
Que nós mesmos pintamos.
Os materiais são naturais,
Mas o desenho, nós inventamos.
Portanto, não vemos Deus,
Apenas porque não O desenhamos.
Não demos espaço para Ele,
Não O incluímos nesse desenho meramente humano
Luanda, Agosto de 2022
Um presente para ingratos
Acordar a cada alvorecer
É um presente imensurável que nos tem sido dado!
Uns, gratos, agradecem a Deus, outros à natureza,
Outros, ingratos, nem sequer fazem caso!
Oh, quão magnífica é a vida!
O maior de todos os enigmas!
Não é um acaso a ilusão de eternidade,
Pois cada segundo é eterno, a vida é, em cada instante, infinita!
De onde nos vem esse presente?
Grande parte não quer saber!
Alguns até agradecem,
Mas logo seguem indiferentes a quem os deu!
Voltam-se a Ele apenas quando precisam,
Principalmente aquando do fim da estadia!
É nesse momento que se percebe o quão magnífica é a vida,
Que seu prazer vai além do horizonte sexual, e que as coisas materiais são mesquinhas!
Quando se está a um triz de não mais contemplar o esplendor do Sol,
O canto dos pássaros, a brisa do mar, as estrelas após o pôr do sol,
O sorriso — principalmente o das crianças —, as danças ao som do tambor,
Os abraços e os carinhos de quem amamos e de quem sempre nos amou!
Luanda, Julho de 2022
Que esperança temos nós?
Livres, rebeldes e com sobejas preocupações,
Assim somos nós,
Cujas vidas são um sopro,
Ainda assim, transbordamos ambições.
Meros hominídeos bípedes,
Inusitadamente com egos colossais,
Indiferentes ao além,
Perdidos numa criação temporal.
Livres e rebeldes,
Com corações maus e egos exorbitantes,
Como, deveras, seremos submissos
E, de fato, viveremos a santidade?
Inundados de preocupações terrenas,
Como buscaremos o Reino em primeiro lugar?
Como passar mais tempo com Deus?
Dessarte, não há tempo sequer para n'Ele pensar!
Ah, como poderá a nossa alma ser salva?
Não enxergo nada além da graça e misericórdia,
De um amor incondicional
E de uma força avassaladora!
Luanda, Julho de 2022
𝑽𝒆𝒏𝒕𝒐𝒔
Dor? Toda dor passa,
Depois vira história, baza.
A tempestade se vai
E vem a bonança.
Nem a juventude é eterna,
Embora se gostaria.
Depois, a velhice chega,
E com ela, a sabedoria.
Beleza? Depois passa,
Depois vira lembrança.
O fogo se apaga,
E resta apenas fumaça.
A vida é como um rio—
Nela, tudo passa,
Como fluem as águas nos rios.
São como ventos,
São só ventos!
Luanda, Julho de 2022
Nunca mais me vi
Ao alvorecer, na manhã plácida,
Oro a Deus e começo a me preparar
Para mais uma jornada laboral.
Enquanto isto há uma sobeja preocupação em me atrasar
Posto no trabalho, solene,
Enquanto há n tarefas a me esperar,
As quais me causam estresse. Enquanto as executo,
Ouço sons clássicos, como me é peculiar,
[E leio para, além de aprender, me desanuviar]
No fim do dia, aquando do ocaso,
Faminto e jubilante, no meu aposento fico a pensar,
Na fila, à espera do táxi, apoquentado,
Mui ansioso para em casa chegar
Chegando em casa, a passos lacônicos,
Com os olhos fincados no céu, para a lua deslumbrante apreciar.
Dessarte lutando para uma aquiescência entre o espírito e o corpo,
Pois, enquanto o estômago pede alimento, o espirito quer procrastinar
Novo alvorar, porém a mesma rotina,
Exceto ao sábado, o dia reservado para mim,
Porém, devido a fadiga, o sono rouba-me grande parte do dia,
E o restante se esvai nos afazeres, sem que nada sobre para mim.
Nova jornada laboral, porém mesmos desafios a encarar,
Num instante dei por mim; "nunca mais me vi!?";
"Nunca mais encontrei-me comigo mesmo!?"
Urgente! Preciso me encontrar!
África, Angola - Luanda, 2022.
Não é meia lua
Nem na imensidão do universo
Cabe essa solidão!
Momentos alegres?
São meras estrelas na vasta escuridão!
Mais profunda que os oceanos é,
Que até a Lua tem compaixão!
Não é meia Lua,
É a Lua tentando completar meu coração!
África, Angola - Luanda, 2022
#PENSAMENTOS_SOLTOS
No mercado, o que reina é o lucro, e não o amor; o importante é produzir, e não amar; o que une as pessoas é o dinheiro, e não o amor. Daí, o que está acontecendo ser um grande mal: nossa sociedade está se tornando um mercado.
O teu silêncio me mata
As tempestades do pecado arruínam minha alma,
Bagunçam meu espírito,
Destroem minha paz.
Aba, de dor minha alma clama!
Como rios secos estão meus olhos, de tanto chorar!
Minha voz se esgota de tanto gritar!
Como zebra entre leões, rendendo-me estou,
Pois se foram minhas forças de tanto lutar!
Ah, se ao menos sentisse TUA confortável presença,
Se ao menos ouvisse TUA doce voz,
Minha alma se fortaleceria,
E, em paz, enfrentaria os furacões!
Pai, choro e não TE sinto,
Clamo e não respondes,
Minhas mãos levanto, mas não as seguras.
Pai, por que TE escondes?
Cometi algum pecado que não podes perdoar?
Será a imundície do pecado?
Como serei limpo, se não me lavares?
Pai, perdoa minha pequena fé e não me deixes afogar!
Perdoa meus pecados, eu TE peço,
E mostra-me onde estou a falhar.
Purifica-me com o sangue santo de Cristo,
E dá-me força para continuar a lutar!
Lutar e triunfar,
Para TEU louvar e glorificar!
Aba, manifesta-TE agora,
Pois o TEU silêncio está a me matar!
África, Angola – Luanda, 2022
Desumanização
É um estado doentio de falta de amor,
Cujo remédio é tão somente o próprio amor!
O amor é para a alma o que é para as plantas o sol
— Não falo do amor preto e branco, e sim do Amor a Cor!
O amor requer tempo, mas temos muitos afazeres;
Requer paciência, mas a vida é curta e há muitas coisas a obter;
Tudo suporta, pois também envolve dor, mas adotamos o Sola Beatitudo;
Somos autossuficientes, mas o amor exige a ausência de orgulho!
Como num recipiente, assim acontece no coração,
Em relação ao amor e à ambição:
— Mais expulsamos o amor,
Quanto mais depositamos ambição!
Por isso, o mundo humano está cinzento e sombrio,
Seu céu está nublado!
Suas nuvens são formadas pelo vapor da alma humana,
A alma humana está evaporando!
A alta temperatura causada pelo capitalismo selvagem
É o que está causando!
É triste, mas é a realidade:
— O ser humano está se desumanizando!
África, Angola - Luanda, 2022
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Tens uns poemas de arrepiar mano
Olá, irmão! Obrigadão, tuliodias!
Olá irmão!
Kanienga L. Samuel (José) é um pensador e poeta que escreve com o coração ferido e os olhos bem abertos. Entre a filosofia, a crítica social e a poesia, suas palavras nascem do espanto diante da dor humana e da esperança teimosa de que ainda podemos ser mais do que produtividade e aparência.
Crente de que a poesia é um sussurro de eternidade no barulho do mundo, seus versos abordam temas como a solidão, a pressão social, a fé, o fracasso e o brilho — esse novo imperativo silencioso que aprisiona gerações.
Nascido em Angola, escreve para não sufocar e para acender, com outros, uma pequena chama no meio da escuridão.
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