Lista de Poemas

Tempo fantasma

Tenho a impressão que dois momentos já passaram e eu não vi
Foram dois momentos que voaram e que eu senti

Tenho a sensação de sentimentos já passados, que não voltarão
A existir a emoção cá de dentro, do coração.

Tenho a impressão que já não vejo e vou continuar sem ver
Tantas emoções que já não tenho e me vão ajudar a sofrer

Tenho a sensação de alguns momentos que voaram e que já não vou viver
É esta a razão dos sentimentos que não tenho e tento esquecer.


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Há Um Olhar Encantado

O teu olhar não mente
Que escondes segredos que estás já a cantar

E olhas simplesmente
Para nós, quais tencionas encantar

Olhos nos olhos já sabes que encontrarás

Meus olhos verdes teus amigos
Com que podes sempre contar

E tens mais olhos, e barriga
E mais sentidos sem sentido p’ra abraçar

E tu devoras e nem ligas: tens asas e voarás

A voz é tudo e tu és mundo
Que sem crer vais conquistar

Mas a amizade que em ti nutro
Mais nada quer do que o teu vibrante olhar.
Fútil: qué quisto quer dizer?

Percebi... Tantas coisas que eu queria nunca ver;
Percebi... Tudo. Ou nada? Vá-se lá saber;
Percebi... Ou não? Diz-me se acerto
Este aperto no meu peito
É ou... É o meu coração
Que sem guelras não consegue... E não aceito;

Que ele viva sem o sangue que lhe des-te
Porque é que o fizes-te?
Se não querias...
Hoje vivo porque entendo que não sou;
Que de nós o tempo, esse, já voou
E conheço já tuas doces fantasias;

E que não entendo... Nem percebo mesmo nada;
Uma coisa só já aprendi:
O tempo é uma questão
De saber ou não como o passar
E eu não passo sem esta lição
De novo repensar,
Matutar as letras que disso não passam;


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É Meu Mal

Um relâmpago tinha-me dito
Que te encontraria um dia
Que faria?
Não sabia.
Só viver não mais escondido.

Esse amor - é só paixão?
Nem sei a verdade toda
Na tua boca
Andava louca
Com o que me dissera o trovão.

Nem o tempo, nem as lágrimas de cristal
Que da minha face desceram
Escorreram
E esconderam
Tudo o que sinto - és meu mal?


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👁️ 578

Ví(-te)cio

Vi-te sentada
À beira da praia
Na areia molhada
À beira do mar
Da praia salgada;

Vi-te molhada
Sentada na areia
Do mar salgado
À beira da praia
Sozinha a contar;

Vi-te na areia
À beira da água
Sozinha na praia
A secar a mágoa
Molhada do mar;

Vi-te sozinha
Sentada na praia
A contar baixinho
Estrelas da areia
Molhadas por ti;


Vi-te depois
Com estrelas salgadas
Tiradas da água
Contadas, molhadas
Choradas, por fim.


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Um Sonho Não Sonhado

Numa duna me deixei adormecer
Com esperança de conseguir sonhar
Deixei de ver, deixei de conhecer
Deixei-me voar, deixei-me escapar

Numa duna me deixei sonhar
E sonhei que nunca consegui adormecer
Perdi-me no ar, perdi-me no mar
Fugi para conhecer, fugi para te ver

Um sonho acabou
Um sonho escapado
Um sonho voou
Um sonho tirado

Do ar
Ao mar
Do vento
Ao relento


O sonho nem começou
Eu nem adormeci
Quem me imaginou
Deveras esqueci

Um sonho do ar
Um sonho do mar
Um sonho do vento
Um sonho ao relento

Acabou o sonho
Voou com o vento
Do ar escapado
E do mar foi tirado

Acabou o sonho
Voou com o vento.


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A arder lentamente

Eu não sinto
Quando sinto
O que sinto cá dentro

Eu não minto
Quando assento
O que sinto, que é denso

É no vinco
Que piso
No meu pensamento

É distinto
Meu riso
Que cá dentro não tento

Será meu vício
Num fundo preso
Que acende a malícia


Foi no solstício
Da vela acesa
Que acabou a delícia

Meu vício aceso
No fundo findou
Solstício preso
No fundo mudou

É meu trauma que não terminou
Minha alma que nunca voou
Numa vénia ainda se prostrou
E a vela escura, tão linda, acabou.


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👁️ 487

Valsa à Gina

E Gina, que gira e torna a girar
Nas voltas que o mundo ainda tem p’ra dar

E tomba, que volta e torna a cair
Nos teus braços rolo e rolo a sorrir

E fundo mergulho e nado sem ar
Nas águas profundas, fundas do meu mar

E nado, nas voltas, giras sem sentir
Que gira é a Gina do amor a fugir.


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Fuga

Cabras estúpidas, longe estão
Vacas parvas a mugir
O homem velho é cabrão
Da mulher que torna a vir

De longe, p’ra onde?
Não digas, está longe
O dia donde
Virão elas... Foge.

Para longe, foge
Outra vez dos parvos
Foge, foge.

Pretos vão os corvos
Não te deixes apanhar
Virão muitos, tantos, tantos
-acudam-me santos


Fujo p’ra outro lugar
Outro céu talvez
Outro azul, quem sabe?
Lá em cima vejo
Cá em baixo, bate
O sol que vem do alto
O sol que vem de cima
De cima a ave solta
Um grito que não volta
A acordar a menina

Dorme
Descalça,
Corre
Na dança,
Vive,
Diz-me
E descansa.


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Poema Escrito Num Líquido

E enquanto eu não puder
Eu vou escrever
Enquanto houver céu
E luz

Enquanto os olhos alcançam
No céu
Brisas de cor
E mel

Não pode haver
Também
O ar que não respiro
Mais

Não vou ouvir
Ninguém
Ao longe quando grito
Eu sei

E enquanto houver
No céu
O não que eu escrevo
Fico.



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O Sonho do Pássaro Esquecido

A delícia a que eu quero resistir
E que dos teus lábios quero devorar
Arrancar
Arranhar
Vou esperar que te vás vestir

Senão vão achar-me louco neste chão
A roer as tripas do pássaro que voou
O meu peito trincou
Arrancou
Também este meu vermelho coração

É vermelho, está corado, é tímido
E nem sei o que lhe deu
Mas não apareceu
Esqueceu
E nós simplesmente tínhamos acordado.

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