Lista de Poemas
Arrependimento
Me sufoca,
esse arrependimento
que se espalha por minha
garganta;
eu trago a fumaça
e jogo vinho barato
para não senti-lo, mas
é inevitável.
Eu joguei contra
a parede todos os retratos
dela mas sua imagem
se tornou tatuagem em
minha mente.
Não há como apagar.
Os homens não
amam, elas dizem,
mal sabem que
todos nós levamos
em nossos ferrados e
mutilados corações,
uma ferida aberta que
nunca cicatriza,
e toda vez que uma
nova paixão explode
em nós, tememos
que o final seja o mesmo.
Outra vez
outra vez e
uma vez mais.
É arrependimento
essa voz que berra
em minha cabeça
quando em vão
tento fechar os olhos para
dormir.
É arrependimento
o que me observa enquanto
subo os degraus às escuras em
direção ao meu quarto
incompleto,
quarto que já foi feliz
um dia.
Outro quarto agora
há de irradiar felicidade
em outra casa, quem
sabe, outra cidade.
O que eu deixei ir
agora faz feliz alguém
que diferente de mim,
realmente mereça.
Eu me esforço
para manter meu
sorriso mais cínico:
"Eu estou bem."
Eu detive a faca e
o queijo , mas ainda
senti a fome,
eu quis mais,
e agora,
está tudo perdido.
As plantas estão morrendo
em meu jardim, pois
eu matei quem davam-lhes a
vida...
e a mim também.
Tolo coração
Permito que
este estúpido coração
continue se aventurando
nessas loucas paixões
relâmpago que nunca
duram.
Esse tolo não aprende.
Permito que ame
desenfreadamente e
exageradamente,
seja por longos anos
ou passageiros dias que
se dissolvem como o açúcar
na água.
Permito, embora
eu saiba da dor que
uma hora ou outra
põe abaixo a porta e
sem pedir permissão
se instala.
Como poderia ser
real se não fosse assim?
Como se uma bomba estivesse prestes
a explodir no peito,
como se estivesse
saltando de paraquedas
e ele não abrisse
ou quando se
escapa por pouco
do afogamento e
respira como se
não houvesse mais ar.
Permito que ele
se arrisque sem
pudor,
sem medo
sem jogos
sem se esconder,
eu o deixo exposto
como um alvo para
flechas e
todas as vezes que
o atingiram, ele
sangrou e ainda
sangrará,
mas nunca deixará
de pulsar e
nem um milhão
de tambores
serão capazes de
silencia-lo.
Somente assim é real
As relações humanas
O que é o amor
senão a
autoflagelação?
É como o atrito da lixa
sobre a pele que,
passado um longo período,
abre uma dolorosa
ferida que se cura
lenta e
melancolicamente.
As relações humanas
são dolorosas;
é uma busca por
conforto,
abrigo,
paz e carinho
no outro que nunca
leva a lugar nenhum,
pois constantemente
nos deparamos apenas
com as ruínas do que
constumava
ser um
coração,
então são as nossas feridas
somadas às feridas
do outro,
nossas feridas
contra as feridas do outro,
dando início a uma
longa batalha
onde uma das partes
sai mais machucada
e arrasada do que entrara.
Já me cortei
me queimei,
tive meu peito
alvejado por falsos
amores e falsas
amizades,
ja machuquei quem
dizia me amar,
já feri e fui ferido
e não há uma forma
segura,
não há uma
faixa delimitando uma
distância
até onde em uma
possoa você pode chegar,
pois não há entrelinhas,
não há formulário
manuais nem
nada do tipo que explique
uma pessoa,
você escolhe
o quanto de você
vai permitir
ser queimado nessas
inevitáveis aproximações
que temos que fazer
no decorrer da vida e
resta apenas torcer para
ser forte o bastante
para ser resistente o bastante
a ponto de suportar
as feridas que
cedo ou tarde virão.
Rejeição
É esse peso sobre
o peito, insuportável
e doloroso
como a pressão no
fundo do mar.
É o que me mata
mentalmente e me
torna menos que as
cinzas em um cinzeiro
que transborda,
o que me faz
socar o espelho
por não suportar
minha cara de idiota.
Colide em mim
a vontade de gritar e
a vontade de permanecer
dentro do silêncio
inalterado da rejeição.
Eu estou cada vez
mais desesperado,
e a insanidade bate à
minha porta todos os dias,
permito que entre e
atravessamos juntos
madrugadas que parecem
não ter fim.
Sob o efeito da paranóia
eu trilho esse caminho
sem volta,
fumando sem parar,
tentanto não enlouquecer
completamente.
Ouço o triste blues
que soa pelo rádio
e então não estou
sozinho afinal:
somos milhares,
milhares de almas e
corações dilacerados
pela covardia de pessoas
que não sabem o que é
amar.
Vivo essa tragédia
que nunca
parece chagar
ao fim, mas eu,
cedo ou tarde chegarei...
se já não cheguei.
O filme que só as paredes assistiram
Você mastiga a pele dos meus lábios
e cuspe fora com descaso-
enquanto sua língua desce
por minha garganta
eu só penso em como os dias
passaram rápido desde a última vez que
você me disse" estou indo embora"
porém, aqui estamos novamente
em meu quarto, nos comendo vivos
na escuridão ao som de David Bowie-
eu entro nesse seu jogo de fingir que não
me importo mas acabo perdendo, como sempre, pois
você joga como ninguém e é isso
que tudo significa para você, afinal:
um jogo,onde só você pode ganhar, onde
você e mais ninguém dita as regras-
eu sigo as doces e iluminadas
curvas do seu corpo e minha boca
toca a sua vagina com a voracidade
de quem encontra água após dias perdido no deserto,
e você suspira alto, escandalosa, como
uma bomba explodindo-
não é estranho que com tantas idas e vindas
a gente sempre acabe assim, em uma foda?
-eu cometo o velho erro e tento
falar sobre nós, mas a sua regra
é essa: não falar sobre amor
e isso, para o meu coração de poeta,
é como um tiro no céu da boca,
mas eu insisto e continuo
jogando apesar dos ferimentos
que esse jogo me causa, e então você
grita"vou gozar!" e caímos
para o lado, exaustos-
eu fico ali,te vendo ascender
um cigarro,expelindo a fumaça
e tudo o que eu queria saber
é o que se passa em sua cabeça,
enquanto na minha,
o filme é o mesmo,
mas a regra é não falar.
Historieta
Há nesta cidade camas
onde jamais tornarei
a me deitar.
Há nesta cidade
moças de lábios avermelhados
que jamais tornarei a beijar.
Há nesta cidade
faces encharcadas
que minhas mãos nunca mais
irão enxugar.
Vozes que irão
sussurrar segredos
aos ouvidos de um
outro alguém.
Peles que irão
se arrepiar ao
toque de outras
mãos.
Minha imagem
se torna um borrão
insignificante
na mente dessas moças
que hoje sorriem,
e é um riso verdadeiro,
puro,
e feliz-
sem o peso em
seus calcanhares.
Há nesta cidade
alguém que caminha fitando
o chão,
de semblante triste,
pensando em moças
que um dia foram
tudo em sua vida-
e que hoje são a razão
deste poema,
de todos que vieram.
Que virão.
Depressão
onde estarei
amanhã;
daqui a uma semana
um mês
um ano.
O tempo que
mutável sendo,
nos muda
dia após dia e
deixamos de ser
pouco a pouco o que
éramos-
nunca mais seremos
os mesmos.
Olho para
o rosto refletido
no espelho e o
reflexo é outro,
desconhecido e estranho.
Distante
distante.
E eu que já fui
tão esperançoso
e cheio de energia,
hoje me vejo preso
na inércia do meu
quarto sexta-feira
à noite,
e a única
coisa que se move
é a fumaça do cigarro
queimando esquecido
no cinzeiro.
E lá fora há uma
multidão que urge
como leões e todos
estão desesperados
para viver a vida ao
máximo.
Eu me pergunto
o que houve comigo
nesses últimos anos,
para onde foi a minha
sede por vida?
Mas de alguma
forma eu sinto ter
vencido toda essa
agonizante,
louca e inútil
depressão.
Eu não a sinto
mais,
ela é agora
apenas algo que vejo
passando de relance
pelo canto dos olhos,
como um vulto sem forma.
Algo que só existe
se eu parar
para olhar.
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