Lista de Poemas

HOMEM DO SERTÃO OU SERTÃO DO HOMEM

HOMEM DO SERTÃO OU SERTÃO DO HOMEM


Por Prof. Me. João Edesio de Oliveira Junior.
 
            No lugar onde o vento nasce e dissemina para todo Brasil, aonde a produção da riqueza baiana vem dos elementos natural, vento, estou eu aqui no meio. Olho para um lado vejo apenas uma vegetação seca e aparentemente sem vida, olho para outro lado, vejo meninos correndo no meio da rua do vilarejo que mais parece com um rosário com vinte e oito casas, porém com apenas dezesseis família morando.
            Para qualquer pessoa da cidade grande ao olhar esse vilarejo, pensa que ele é igual a uma vegetação nordestina, e de fato o é. Suas ruas cheias de cabeça-de-touro, que obriga usar não uma sandália da moda, mas uma resistente usada no sertão, poeira que dá o charme quando o vento que vem do norte se encontra com o que vem do sul bem no meio desse rosário, formando assim um grande redemoinho, tormento das mulheres, mas alegria para as crianças.
            O sol, companheiro inseparável do sertanejo, vasculha cada parte dessa terra parecendo que está à procura de um tesouro escondido, algo que está abaixo da terra ao ponto de abrir fendas sobre o solo a procura dessa preciosidade. Tão egoísta que não deixa chuva penetrar no solo para gerar a vida necessária para o povo. Chuva que quando aparece, os moradores fazem sala e se alegram com a sua chegada, outros a tenta imitar, deixando cair águas pelos olhos. Mas nessa luta, o sol sempre ganha maior tempo entre seus habitantes, tentando sugar até a própria vida do sertanejo, roubando-lhe dia a dia um pouco mais de sua cor, suor o e ânimo.  Nessa luta entre os companheiros não sei quem é o mais resistente se o sol ou o sertanejo.
            Na luta entre gigantes, vence quem for mais resistente e quem tem raiz fincada de maneira mais profunda. O sol como conhecemos, é covarde e traiçoeiro, não aguenta um dia de luta com o sertanejo, ao ponto de se esconder por medo desse homem. Tenta aparecer antes de o sertanejo acordar, mas se engana, pois esse homem já está em pé com o facão na mão e botinas nos pés para encará-lo. Mas precisamos concordar, ele tem resiliência, todos os dias tem hora marcada para se encontrar com seu guerreiro. Já o homem bruto do sertão, acorda antes do sol nascer para se preparar para a luta. Assim que acorda, coloca sua calça surrada pelo uso diário, a camisa, com a as marcas da luta contra o sol, a botina descangotada pelo uso incessante nos caminhos de ida e volta de pastar as cabras. Coloca um prato de cuscuz na mesa, frita dois ovos, não ovos brancos de granja, mas das galinhas que vivem soltas em seu quintal, coloca uma golada de café quente, uma manteiga ao lado, feita ali mesmo com a nata que saiu do leite que toma diariamente da única vaca que resiste com ele nessa luta.
            Após todo preparativo para a luta diária, tanto do sol quanto do sertanejo, eles se encontram no meio da caatinga para travar essa luta. Luta que não duram apenas dias, meses e anos, mas décadas. O sol tenta expulsar o homem desse lugar com interesse desconhecido, mas o homem desconfia que nessa terra tenha algo de muito bom para o sol ser tão intenso. E o sol é ardiloso  tira tudo do homem, a água e por consequência a boa produção. Quando se pensa que o sertanejo perdeu a lavoura de milha por não ter chuva, ele retira as espigas murchas e seus grãos para dar a galinha e a palha para servir de ração para os animais. A cada dia há a vitória do sertanejo, pois o sol depois de um dia de luta, se esconde para recuperar força. Porém o sertanejo fica ali até ele desaparecer no horizonte, vendo seu rasto pelo chão. Mas de tanto lutar o sertanejo não desiste de sua terra, algo que parece feitiço. Não tem como tirar o sertanejo do sertão, pois o sertão é ele. Mas o sol luta, luta até chegar o dia em que ao nascer não encontra na caatinga o seu guerreiro diário, então sai a procura-lo e o acha num caixão feito de mandacaru, pronto para sair do ringue de luta. Logo o sol pensa que venceu a batalha, “menos um na terra do sertão”, mas no fim do dia, ele se revolta, pois o sertanejo perdeu a vida, mas não sairá de sua terra, agora sua luta transformou em descanso, agora ele viverá embrulhado pela terra que tanto ama.
            E é com esse tipo de gente que me envolvi nesse período de isolamento social, homem bruto, não no sentido de violência, mas de resistência. Homem dos avessos que não tem medo da vida, homem cabra-macho que não tem frescura nem vontade moderna, pois a vida lhe ensinou o que é mais importante para a sobrevivência. Homem que é tão forte que cria sua própria língua para se comunicarem. Língua que é forjada na percepção da realidade local, sem se importar com o resto dos falantes da língua materna, que o desamparou. Língua padrão inexistente, pois esse percebe que o próprio homem não segue um padrão, mas é todo torto e dos avessos. Por isso cria sua própria maneira de falar não apenas com os homens, mas também com os animais através de grunhidos parecidos com as dos pássaros nativos. São tão nativos que querem assemelhar com a fauna e flora de seu habitat natural.
            Passo a partir de agora, caro leitor, a narrar nossa busca pela cabra. Seria desonesto de minha parte narrar direto nossas expedições antes de mostrar quem eram meus companheiros de busca. Agora creio que você compreenderá melhor essa narrativa.
            Algo me impede de narrar à busca, acho que falta falar um pouco mais do homem do sertão, mas minha vontade é grande em querer expor logo minha experiência nessa busca. Vamos fazer um trato, no meio da narrativa, posso parar e falar um pouco do sertanejo, mas depois retomarei a narrativa. Tá certo?
            Não quero usar os nomes dos sertanejos que me levaram nessa busca pela cabra, eles são pessoas muito discretas e quero também agir assim para com eles, mas para que você não se perca nos diálogos, lhes darei um nome bem característico de sua própria região.
Agora sim, a primeira busca.
 
 

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O natural é mais fácil...

O natural é mais fácil...

            Não gosto de andar descalço, uma porque meus pés doem outra porque os pés ficam sujos. Gosto de andar de sandália bem confortados, daquelas que nossos pés ficam confortados, sem apertar e não muito larga ao ponto andar arrastando o calcanhar ao andar.
            Mas quando se está no sertão a sandália só tem uma função, não deixar que os “cabeça de toro” entre em seus pés, porém existem alguns ousados que atravessam a chinela e cutuca seu calcanhar, parecendo que fincou uma agulha em sua alma de tanta dor.
            No sertão onde fiquei por algum tempo, e também já narrei em outro conto, logo não repetirei aqui, o vento é constante e abundante. E estes não são agressivos, agem com gentileza, ecoando um cântico sem harmonia durante o dia e como uma serenata durante a noite fazendo você dormir tranquilo, embrulhado em uma coberta que mais transparece medo do que de frio.
            Usar sandália nesse contexto, como já disse ante, só tem uma função, também já disse antes, a outra, fica a desejar. Os pés ficam sujos de poeira carregada de pó e também do próprio vento que ao andar tira o pó do chão dando-o vida e movimento. Nisso os pés ficam sempre envoltos com uma camada fina de pó vermelho que impregna como se fosse um tipo de maquiagem barata, que para sair, precisa de muita água e sabão.
             A chinela segue o ritmo dos pés, ficam vermelhas, como foi o caso da minha, que era branca (inocente). Não adiantava lavar todos os dias, pois todos os dias estariam do mesmo jeito, lavando ou não lavando. Mas resolvia todos os dias lavar antes do banho. Mas como vocês sabem terra vermelha não sai fácil, além do mais se for recorrente o contágio.
            Tudo na vida tem seu tempo certo, chegara meu tempo de voltar para minha realidade fantasia. Logo voltei para casa.
            Assim como qualquer família que se programa para uma viagem, você não faz compras para deixar estocada sem usar. Então ao chegar em casa, a dispensa estava vazia, minha casa mais parecia uma igreja, só tinha água disponível. Então como um bom senhor do lar, fui ao mercado fazer algumas compras. Aproveitei o tempo que tinha e resolvi não ir de carro, mas aproveitar o ar e também fazer exercício.
            Depois de ter feito as compras e voltado para casa, resolvi lavar minha sandália usada no sertão e na ida para o mercado. Não sei se vocês fazem isso, lavar o solado da sandália, acho que fica legal e com uma cara de nova. Mas quando olho para correia, lembro que não é nova, pois tem um prego atravessado onde havia um suporte para não deixar que a correia soltasse.
            Então comecei lavando por cima, as correias, as laterais e por fim, o solado. Nesse instante percebi algo muito estranho, havia dois tipos de sujeira, a do sertão e a da cidade. Comecei a perceber uma distinção bem clara quando comecei a passa água e sabão no solado. Duas sujeitas, uma vermelha a outra preta. Por ser de cor mais forte, a cor do sertão ficou abaixo da sujeira da cidade.
            Comecei a esfregar, esfregar, esfrega o solado para ver se aquela sujeira preta saísse do solado, mas apenas a vermelha começou a sair e preta continuou resistente às esfregaduras com uma escova de lavar roupa. Resolvi apelar para alguns produtos que me ajudaria nesse processo, peguei água sanitária e um sabão em pó e deixei um pouco de molho, após esfreguei novamente então a sujeira se foi.
            Parece que quando as coisas são naturais são fáceis o lidar com elas, pois o que é natural sai com naturalidade, já aquelas que têm uma intervenção da mente humana, não sai com naturalidade, pois houver uma intervenção no processo de criação, logo para ser retirada, apenas com elementos criados pelo homem.  O natural fica inoperante diante do elaborado pela mente humana, ou até sufocado.
            Lidar com o natural é mais fácil...
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FAVELA

FAVELA

 
Favela, palavra substantivo simples que rima com Ela,
Pronome que substitui um nome, que gera e vela...
Vela por causa da situação
Por conta de uma des-organização.

Sua origem remete a vida
Simples e constante
Um fluxo embaralhada
Sinuosas e vibrante.

Da origem a simples geradora
Para uma vida simples e transformadora.
Favela do sertão
Favela do povão.

Acostumado com o sol do sertão                                                                                                  
Assemelha-se ao que os que têm apenas o não.
Sua resistência vem do resistir,
Assim como aqueles que nascem por aqui.

Em suas folhas há o elemento defensor,
Quando a favela se une tem o poder transformador.

Favela, Favela, favela,

Planta geradora
Povo sofredor

Favela, favela, favela

Planta resistente
Povo resiliente

Favela, favela, favela
Planta povo
Povo planta.

Do substantivo simples ao pronome pessoal
Pessoal, pessoal, pessoal, pessoal, pessoal
Intenso e tão fraternal!

 

                                                      

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PRIMEIRA TENTATIVA

PRIMEIRA TENTATIVA

Quando ainda o sol não tocava o horizonte naquela terra árida e desértica, onde os dias pareciam todos iguais por não haver um movimento das grandes metrópoles, estava eu ali sendo despertado pela voz rouca e firme “levanta que já estou saindo”. Havia me esquecido do compromisso feito no dia anterior diante de algumas testemunhas que ao me ver na cama depois das cinco iriam me ridicularizar por não ter cumprido o combinado. Então dei um salto um pouco tonto e pensando, falei demais, mas resoluto no compromisso.
Levantei, escovei os dentes, olhei para o espelho e de supetão veio um pensamento: - será que darei conta dessa empreitada? Dei um sorriso maroto para mim mesmo refletido no espelho como se desse ânimo aquele que estava do outro lado e pensei: - Lógico, sou esperto e inteligente, isso não será nada.
Ao sentar-me à mesa para tomar o café da manhã, peguei o pão e a manteiga, esta produzida ali mesmo, e quando foi cortar o pão caseio um sorriso como de repreensão dizendo: - se fosse você não comeria apenas o pão. Nessas palavras tinham apenas uma sugestão, mas um conselho de quem já esta experiente em busca de cabrito no mato. Fiquei assustado com essa fala porque o sol já estava nos esperando ali na porta para sugar toda nossa energia.
Então segui o conselho, peguei o pão, passei manteiga, coloquei um prato sobre a mesa junto com um garfo e me rendi ao desejum do sertanejo. Coloquei duas colheres de cuscuz que ainda saia uma fumaça que aumentava o desejo de come-lo. Sobre o cuscuz, coloquei uma película de requeijão artesanal, produzido ali mesmo, que derreteu sobre a massa quente de cuscuz formando aquela liga que ao levar à boca fazia uma teia entre a boca e o prato. Ao lado do prato, uma xícara de café meio amargo que harmonizava com aquela refeição.
Já meu companheiro de busca não cedeu ao requeijão, mas junto com o cuscuz colocou uma buchada de bode que em minhas narinas não tinha um cheiro bom, mas a boca cheia e a satisfação daquele homem dava para perceber que era a melhor refeição do mundo.
Depois de nos fartarmos fomos nos preparar para essa busca. Corri no quarto, coloquei minha bermuda de passeio na cidade, uma camiseta bem leve para não sentir muito calor, passei protetor solar para evitar que minha pele sofresse com o sol, calcei meu tênis Nike que me trazia um conforto para a busca. Ao sair do quarto todo preparado dei de cara com meu companheiro que estava de chapéu, calça jeans surrada pelo tanto uso, bota com solado de pneu nos pés, camisa com manga longa amarrada no punho. Olhamos um para o outro e percebi que havia uma inadequação de look entre nós. Não sabia se ele estava exagerando ou eu que estava sendo inocente em desconsiderar o que iríamos fazer naquela manhã.
Sem arrodeia, como todo homem da terra, me disse: - Tira essa roupa. Você não irá aguentar meia hora assim. Se já estava assustado, nesse momento fiquei sem chão. Ele de imediato foi ao guarda-roupa e pegou uma de suas roupas e me disse: -Vista isso.
Voltei para o quarto e me troquei. Coloquei uma calça surrada, uma camisa longa amarrada no punho, um chapéu de couro e nos pés um tênis velho com uma palmilha de couro para aguentar o caminho que faríamos. Estávamos como cano de garrucha, iguaizinhos.
Preparados na vestimenta, pagamos uma corda, um pouco de milho colocado num saco e uma garrafa com água e saímos pela porta da frente da casa. Mas antes de sair, passei a mão num prego que estava fixado na parede pegando a chave do carro para cumprir meu compromisso. Ao me ver ir em direção ao carro meu companheiro disse: - onde você vai? Então disse: -Vou pegar o carro para irmos! Ele sorriu e disse: - Não tem como chegar lá com carro, precisamos ir a pé. Esse “lá” na fala do meu companheiro era onde a cabra se encontrava esse “lá” é um rochedo onde ela se escondia, esse “lá” era cinco quilômetros.
Olhando firme para ele pensei: - me ferrei. Voltei e deixei a chave no mesmo lugar que havia encontrado, só que agora com o semblante diferente do anterior. Nisso o sol, como que um sorriso, olhava para mim e dissesse: - Agora serei seu companheiro!
 
 
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Milho...

Milho...

            Pé por pé, essa é a lógica da vida.
            Viver no sertão talvez seja uma experiência um pouco desconfortante em ralação à cidade grande. Moro na região metropolitana de Salvador onde não se diferencia em nada das grandes metrópoles. A vida parece que não cabe dentro do tempo ao ponto de sempre dizermos que “não temos tempo para nada”. E de fato, a vida na cidade é muito cara, logo precisamos nos dispor o tempo todo para o trabalho. Todo “bico” é bem vindo, toda tarefa a recebemos, independente de dia ou hora.
            Nesse burburinho, passa despercebido que andamos colocando pé por pé no chão, inclinado um pouco para frente fazendo com que nos locomovamos. Tudo isso cai no esquecimento quando é colocado em nós um desejo de possuir algo.
            Parece que o tempo que mais admiramos é o presente, o futuro não existir, logo não posso esperar para possuir o objeto do desejo ou necessidade criado. Passamos o cartão e saímos satisfeito. Primeiro comemos depois plantamos.
            Passar alguns dias desconfortados nos ensina coisas preciosas.
Dia após dia, participei de um processo retrogrado sobre a ordem das coisas. Fui colocado para regrar uma roça de milho em pleno sertão baiano, onde as chuvas são esporádicas (quando tem). A pergunta que ficou em minha cabeça foi: O que uma pessoa tem na cabeça em plantar uma roça de milho em pleno sertão onde não chove? Essa resposta vocês a terão no decorrer do conto.
Para quem não sabe, milho é um tipo de planta que necessita de muita chuva. Coisa que nesse lugar não tem. Então como que essa roça sobrevive? Com ação retrógrada. Molhar pé por pé todos os dias com um balde ou um regrador. Essa é a lógica, talvez incomum para os “metropolitanos”.
Todos os dias, duas vezes ao dia, era me dada à tarefa de trabalhar por algo que eu nem sabia se iria desfrutar. Seria bem mais simples ir à cidade e comprar “uma mão de milho” e fazer a pamonha, cozinhar, refogar enfim usa-lo para tudo. Mas não, todos os dias, duas vezes ao dia, pegava o regrador e molhava pé por pé. 
Depois de alguns regradores indo e voltando do recipiente onde acumulava a água salobra que não servia para o consumo humano, a não ser para lavar a casa e outras atividades do lar. Não sei calcular a distancia percorrida diariamente entre um pé e outro de milho com esse galão de água que dificultava mais ainda a caminhada. Mas não importava os pés deveria ser regrados, pé por pé.
Acostumado em passar o cartão para a realização do desejo, me vi em uma má situação, pois na entrada da lavoura não havia uma máquina de cartão, nem uma pessoa para que pagasse para fazer o serviço. Então, todos os dias, duas vezes, uma pela manhã outra pela tarde, os milhos deveria ser molhados, pé por pé.
Depois de alguns dias de atividade intensa, comecei a perceber que os pés de milho estavam se desenvolvendo, algumas espigas meio tímidas, começaram a mostrar seus cabelos, lançando assim um charme na plantação e uma esperança num coração aflito por até então não ver nenhum resultado do esforço dado naquela plantação.
Comecei a perceber que no tempo certo, fazendo o certo, sendo constante e persistente veria o fruto do trabalho das minhas mãos. Comecei a entender a lógica natural da vida, a perceber que assim como andamos, colocando pé por pé assim também, aguando pé por pé chegaria ao resultado esperado.
Talvez agora eu começasse a aprender o porquê que o sertanejo é tão feliz em sua terra, seca, árida, vermelha. É que ele entende que na vida não existe cartão para comprar a satisfação, que na vida, as coisas só dão certo quando obedecemos ao processo natural do desenvolvimento. Atropelar esse processo só nos trará dor de cabeça e perca de tempo. Pois na vida a lógica é, pé por pé.
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PREÂMBULO

PREAMBULO

Por. Prof. Me. João Edesio de Oliveira Junior.

 

            Os textos que se seguem fazem parte de uma narrativa em três momentos, o primeiro narra uma história da busca por uma cabra que há seis meses estava desgarrada do rebanho. A segunda é a continuação da primeira busca, porque a primeira não foi bem sucedida, não por falta de competência dos aventureiros, mas por falta de sorte, já na terceira busca, segue o mesmo ritmos, pois ainda não havíamos achado a cabra. Nessa última busca, você terá que lê-la para saber.

            Talvez você esteja sorrindo por em duas tentativas não darmos conta de achar a cabra. Mas você já andou em busca de uma cabra que tomou rumo de sua própria vida? Acho que sua resposta é não, a minha também é não, nunca andei atrás de uma cabra, mas me colocaram nessa empreitada de buscar uma cabra que, ao menos sei o que seja uma cabra. Você leitor acho que deu outra risada... Faço-lhe uma pergunta. Você já viu uma cabra? Você sabe diferenciar uma cabra de um bode? Uma cabra de ovelha? Ao menos você sabe o que é uma marram? Aposto que nem ouviu a palavra burrega?

            Assim como você, caro leitor, também não sei diferenciar nada de nada, mas fui nessa empreitada porque me desafiaram. Na caminhada em busca da cabra, meus assessores de assuntos de cabra me explicaram o que é o que. Passo agora a tentar diferenciar cada animal desses, caso eu der conta e caso você caro leitor, tiver o mínimo de conhecimento sobre criação do sertão nordestino.

            Então vamos tentar entender.

Cabra[1] da raça pardal pina: cor cinza com chifres bem grandes, leiteira, o ubri[2] cumprido e pontiagudo.

Ovelha da raça Santa Inês[3]: As mais comuns são as que possuem lã, também de pelo de gato, não possui chifre.

Bode: É o pai do chiqueiro[4].

Marram: Filhote da cabra antes de pari, ou seja, uma mocinha.

Marram: filhote de ovelha antes de pari, ou seja, uma mocinha.

Burrega: Filhote de ovelha.

            Assim como eu, você caro leitor, deve estar se perguntando qual é a diferença entre as duas marrans.  Agora preciso explicar as fases da cabra e da ovelha.

Quando nasce a cabra nasce ela é reconhecida como cabrita, na meia idade, ou seja, mocinha, ela é reconhecida como marram. Já na fase adulta é reconhecida como cabra.

Já a ovelha quando nasce é reconhecida por burrega, na meia idade, ou seja, mocinha, ela é reconhecida como marram. Já na fase adulta é reconhecida como ovelha.

Acho que agora estamos começando a entender um pouco da cultura de criação do sertão nordestino. Mas nossa narrativa não será um tratado acerca de cabra, bode ou ovelha, mas da nossa saga atrás da cabra perdida.

Aviso a você, caro leitor, que essa narrativa não seguirá a norma culta da nossa língua, pois quero tentar ser fiel àqueles que me deu a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a cultura nordestina, meus assessores de assuntos de cabra. Pessoas que com grau baixo de estudo, mas que me mostrou um conhecimento popular do sertão tão rico que cadeira universitária nenhuma seria capaz de me dar.

Nas próximas linhas que se seguem vocês serão guiados por mim numa busca, não por uma cabra, mas por uma honra.  


Rodapé
[1]  Da raça Mocha (sem chifre), Também tem da raça xuita.
[2] Peito da cabra.
[3] Essa é uma raça de ovelha.
[4] É o reprodutor, marido da cabra.
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É BURRO...

É Burro...


Por Prof. Me. João Edesio de Oliveira Junior.
 
Confiar em um sertanejo é algo que podemos fazer de olhos fechados, mas existem alguns que são gaiatos. Falo isso porque convivi com alguns homens brutos que quando quer dizer não, nunca diz sim. Suas falas são sem rodeios, bem direta semelhante ao seu ambiente, caatinga. Creio que existe uma relação bem estreita do meio na formação do homem sertanejo. Sua robustez é bem arrojada, sua força bem distinta, semelhante ao umbuzeiro que aguenta o tempo de seca, secando-se para preservar sua vida, porem quando chega o período de frutificar, floresce como se tivesse nascido naquele momento.
Nunca se espera de um sertanejo uma gaiatice para alguém que não conhece, o máximo que ouvimos é um grunhido interjetivo como forma de cumprimento, ou apenas o balançar o chapéu olhando firme dentro dos olhos do estranho para ver ser este merece sua atenção. Depois de alguns tempos de convivência, assim como o umbuzeiro o sertanejo mostra sua vida florescente.
Certa feita ao fazer uma caminhada matinal como meus meninos para verem as cabras e as vacas que ficavam num pasto fora um pouco da vila, fui pego de surpresa por um sertanejo.
Ao voltar para casa por conta do sol está um pouco forte e as crianças já apresentavam um cansaço, colocando a língua para fora feito um cachorro depois de uma corrida atrás de um bicicleteiro.
Avistamos uma carroça encostada junto com o animal piado, os meninos que não domina ainda a arte da interação através da língua falada, começaram a balbuciar a palavra “cavalo” que saia como “ava” “ava” “ava”. Eu como pai, conhecedor da língua em formação, das palavras com déficits de fonemas os ajudei completando a palavra “cavalo”. Só que ao falar, o dono da carroça e do animal percebendo meu entusiasmo em ajudar os meninos a completarem a palavra, disse: – é buuurro!!!
Olhei para o homem que esboçava um sorriso que mais parecida de cinismo do que de satisfação por me ajudar a ensinar meus filhos que aquilo que eles viram e nem sabiam pronunciar era um burro e não um cavalo. Retornei com um sorriso meio sem vontade para o homem. Mas aquela fala  ficou em minha cabeça martelando o dia todo, tentando entender o sentido daquela expressão.
É buuurro!!!; É buuurro!!!; É buuurro!!!; É buuurro!!!; É buuurro!!!;
Você, caro leitor, entendeu o que o sertanejo quis dizer? Essa expressão, caro leitor, você poderia me ajudar a entender? O que você acha que aquele sertanejo queria dizer com essa expressão?
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ADMIRAÇÃO

Admiração

Prof. Me. João Edesio de Oliveira Junior

A vida é muito engraçada, quando não se presta atenção, observando tudo de cima, perdemos a percepção das coisas debaixo. A corrida do dia a dia não nos deixa olhar o que de mais belo tem na vida, que é a própria vida. Passamos a vida inteira dizendo que queremos ganhar a vida, mas a perdemos na busca de tentar ganha-la.
Ganhar a vida é perder aquilo que não é vida, aquilo que não coopera com a vida, aquilo que atrapalha a vida. O fútil ganhou lugar do útil e quando encontramos o útil o tornamos utilitário ao ponto de tornar fútil. O fútil tão fútil que se torna útil ao ponto de virar útil, tornando-o utilitário o tornamos mais fútil como útil.
Aprendi isso em meio a uma pandemia onde todos precisaram desacelerar suas vidas, deixando o fútil e apenas buscando o útil. A palavra “desacelerar” ganhou outras características morfológicas, o prefixo “des” de negação virou prefixo de vida como: descansar que por consequência atingiu outras palavras que expressam vida como: comunhão, solidariedade, empatia, harmonia, vida.
No “des” encontramos com pessoas que não enxergávamos mais, apenas víamos, mas sem percebê-las. Os invisíveis em nossos relacionamentos tornaram-se visíveis e tangíveis. A poluição que ofuscava nossos relacionamentos sumiu e agora estamos nus um em frente ao outro. Agora é contemplação... Mas há um problema, perdemos a capacidade dos pré-socráticos de contemplar a vida a partir do ócio. Perdemos o neg-ócio e ficamos apenas com o ócio que desaprendemos a contemplá-lo. Negar o ócio nos faz sentir satisfeitos, completos, realizados, soberbos, arrogantes... Nossa sociedade só é o que é por conta do neg-ócio, olhamos o outro como negócio e não com o ócio. Pois a máxima do contemporâneo é “tempo é dinheiro” se dinheiro se faz com negócio logo o ócio é prejuízo, e por conclusão, a esposa ou marido é/são prejuízo(s), os filhos são prejuízos, nossos idosos são prejuízos, nossos pais são prejuízos, Deus é prejuízo, lazer é prejuízo, pois todos necessitam de nosso ócio.
Todos estamos levando “prejuízo”, nossas contas bancárias estão com alguns zeros a mais, ou só existe zero, nossa “máquina de felicidade” fecharam-se as portas, o contentamento com a vida estão de portas baixas. O que restou-nos foi ficar em casa. Ficar
em casa – expressão que ganhou força no meio discursivo ao ponto de tornar não um luxo para aqueles que ficam, mas cuidado e saúde com a própria vida. Mas como ficar em casa se a tínhamos como espaço para buscar força e nunca para deixar força?
Mas como somos os seres mais inteligentes de toda criação, adaptamos novamente àquilo que perdemos por conta do negócio. Estamos aprendendo a olhar uns para os outros dentro de casa, estamos vendo que existe um lar e não apenas uma casa. Estamos encontrando a felicidade de ficarmos em casa com aqueles que nos dão prejuízo e percebendo que prejuízo é ficar fora de casa. Prejuízo é ver a vida passar e não notar uma ruga a mais que apareceu no rosto da esposa ou do esposo, notar um fio a mais de cabelo branco que apareceu, notar que seu filho já aprendeu a andar, que seu filho está com sua primeira espinha no rosto, notar que seus pais a cada dia tem o mesmo olhar quando ainda você era criança, notar que uma boa conversa com a pessoa que você ama vale mais que um dia de trabalho, notar que a casa amanhece uma bagunça e que você é o mágico que a deixará limpa.
Desconfio que depois desses meses de oportunidade que tivemos de voltarmos para casa, alguns estão pedindo para que o tempo nos dê mais tempo para vermos a vida passar, mas passar passando, passando, passando, tendo a participação nessa vida.
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Medo...

Medo...

Por. Prof. Me. João Edesio de Oliveira Junior.
 
Escrever parece ser uma tarefa difícil, mas não é. Difícil é ter a percepção sensível da realidade ao ponto de perceber que não é preciso que aconteça um grande evento para que possamos registra-lo. Quando pensamos em grandes acontecimentos, logo vem em nossa mente uma tragédia (não a Grega) ou uma grande realização. Tanto um quanto o outro fica registrado em nossa memória, mas o que não percebemos é o porquê que esses ficam como tatuagem em nossa memória.
Quando acontece uma tragédia conosco o que nos deixam encabulados ao ponto de querer contar para qualquer pessoa, seja do nosso convívio ou não, é a dor, não do acontecimento, mas do sentimento que ficou só no planejamento para virar uma ação. Talvez um abraço que seria dado, mas o tempo, ousado, não deixou, um beijo caliente que seria dado, mas apenas seria, uma palavra de carinho ou afeto que apenas ficou bem elaborada na cabeça, porém sem chegar a boca.  Mas o pior de tudo é pensar que esperávamos um grande evento para que tudo isso fosse realizado e o tínhamos o tempo todo.  E não o aproveitamos.
Agora uma grande realização é algo interessante. Clarice Lispector falou certa vez que “A felicidade é clandestina”, sempre concordei com essa “Mulher”, no sentido talvez pessoal mesmo. A expectativa do antes, o enamorar, o paparicar, penso que nos traz uma satisfação maior do que quando a possui algo ou alguém.
Quando ansiamos por algo que desejamos tanto e o conquistamos, percebemos que a alegria é momentânea e volátil, dura menos que a satisfação do desejo de ter, mas não o ter. Talvez o erro não esteja no ter, mas possuir. Assim como aquele livro que desejamos ler, mas por um período de tempo não temos condições de tê-lo. Então nosso esforço fica voltado para o livro, trabalhamos pensando no livro, comemos pensando no livro, dormimos pensando no livro. Quando o temos, caímos no erro de possui-lo até o ultimo número da página da citação que está no rodapé. Após o que nos resta é coloca-lo na estante e esquecer que ele existe. A alegria foi embora com a última pagina do livro. Ter sem possuir.
Assim também acontece com o primeiro beijo. Este apenas ganha uma posição, mas sua emoção já não existe mais, pois virão os outros que o sufocará e o fará cair no esquecimento.
Quando tudo isso se passa com uma pessoa que é muito desejada, precisamos ter o amor de um amante. Observe que para a palavra amor, usei o artigo definido, pois considero que esse amor é diferente dos outros, e para a palavra amante, usei um artigo indefinido, porque razão? Por que todos os amantes têm ações de amor iguais, logo qualquer um serviria como exemplo.
Caso esperássemos apenas esses eventos para podermos registrar, não existiriam bibliotecas como existem hoje. 
A vida se passa é no entre, na sucessão, na passagem. Os ritos de passagem de fato marcam nossa vida, mas são poucos, logo você teria que fazer muitas coisas por poucos momentos. Sua vida ficaria voltada apenas para algumas coisas que talvez tirasse até as pessoas que amamos do caminho em busca do ritual.
Certo João Guimarães Rosa alertou-nos que a satisfação não está na saída ou na chegada, mas no entre. Estamos numa travessia, se focarmos na saída, não conseguiremos contemplar o presente, caso focarmos na chegada, perderemos o presente. Lógico que Rosa não estava falando de travessias triviais, mas da grande travessia, nascimento e morte, limites da nossa existência. 
Quando aprendermos essas lições, conseguiremos escrever com fluência e eloquência, pois o que estará no papel será o amor pelo instante, à percepção sensível que os segundos estão passando e que precisamos coloca-lo num papel, porque foi mais uma oportunidade que o senhor tempo nos deu mais uns segundos, minutos, horas, dias, anos e décadas.
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Comentários (8)

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lais ARYADNE 7 ANO A
lais ARYADNE 7 ANO A
2021-02-23

EU GOSTEI DO TEXTO ELE FALA MUITO DAS REALIDADES DE ALGUMAS PESSOAS QUE VIVE NO SERTÃO E TABÉM FALA SOBRE AS DIFICULDADES QUE ELES PASSAM NO DIA A DIA

Geovana Souza 7° A
Geovana Souza 7° A
2021-02-22

Gostei bastante do texto, falando sobre a vida do sertanejo e como é difícil morar no sertão por causa da escassez de água e de recursos.

Sthella da Silva 7° A
Sthella da Silva 7° A
2021-02-22

Achei o texto interessante pois conta sobre o cotidiano dos sertanejos e suas dificuldades, eles passam por secas e perdem as colheitas sofrem com a falta de recursos mas por algum motivo continuam vivendo no sertão acho isso muito bonito, amar sua terra mesmo com dificuldades.

Lara Borges 7°A
Lara Borges 7°A
2021-02-22

Gostei do texto, porque fala da realidade de vários homens trabalhadores do sertão nordestino que dedicam suas vidas a agricultura, e não é fácil, por conta da escassez de água e de recursos.

Ysabelle Gabrielle
Ysabelle Gabrielle
2021-02-22

Gostei do texto Fala sobre a vida do sertão que não é fácil sabi quem mora lá. Porém pódemos imaginar ,como e difícil não ter um qualidade de vida melhor.