ADMIRAÇÃO
Admiração
Prof. Me. João Edesio de Oliveira Junior
A vida é muito engraçada, quando não se presta atenção, observando tudo de cima, perdemos a percepção das coisas debaixo. A corrida do dia a dia não nos deixa olhar o que de mais belo tem na vida, que é a própria vida. Passamos a vida inteira dizendo que queremos ganhar a vida, mas a perdemos na busca de tentar ganha-la.
Ganhar a vida é perder aquilo que não é vida, aquilo que não coopera com a vida, aquilo que atrapalha a vida. O fútil ganhou lugar do útil e quando encontramos o útil o tornamos utilitário ao ponto de tornar fútil. O fútil tão fútil que se torna útil ao ponto de virar útil, tornando-o utilitário o tornamos mais fútil como útil.
Aprendi isso em meio a uma pandemia onde todos precisaram desacelerar suas vidas, deixando o fútil e apenas buscando o útil. A palavra “desacelerar” ganhou outras características morfológicas, o prefixo “des” de negação virou prefixo de vida como: descansar que por consequência atingiu outras palavras que expressam vida como: comunhão, solidariedade, empatia, harmonia, vida.
No “des” encontramos com pessoas que não enxergávamos mais, apenas víamos, mas sem percebê-las. Os invisíveis em nossos relacionamentos tornaram-se visíveis e tangíveis. A poluição que ofuscava nossos relacionamentos sumiu e agora estamos nus um em frente ao outro. Agora é contemplação... Mas há um problema, perdemos a capacidade dos pré-socráticos de contemplar a vida a partir do ócio. Perdemos o neg-ócio e ficamos apenas com o ócio que desaprendemos a contemplá-lo. Negar o ócio nos faz sentir satisfeitos, completos, realizados, soberbos, arrogantes... Nossa sociedade só é o que é por conta do neg-ócio, olhamos o outro como negócio e não com o ócio. Pois a máxima do contemporâneo é “tempo é dinheiro” se dinheiro se faz com negócio logo o ócio é prejuízo, e por conclusão, a esposa ou marido é/são prejuízo(s), os filhos são prejuízos, nossos idosos são prejuízos, nossos pais são prejuízos, Deus é prejuízo, lazer é prejuízo, pois todos necessitam de nosso ócio.
Todos estamos levando “prejuízo”, nossas contas bancárias estão com alguns zeros a mais, ou só existe zero, nossa “máquina de felicidade” fecharam-se as portas, o contentamento com a vida estão de portas baixas. O que restou-nos foi ficar em casa. Ficar
em casa – expressão que ganhou força no meio discursivo ao ponto de tornar não um luxo para aqueles que ficam, mas cuidado e saúde com a própria vida. Mas como ficar em casa se a tínhamos como espaço para buscar força e nunca para deixar força?
Mas como somos os seres mais inteligentes de toda criação, adaptamos novamente àquilo que perdemos por conta do negócio. Estamos aprendendo a olhar uns para os outros dentro de casa, estamos vendo que existe um lar e não apenas uma casa. Estamos encontrando a felicidade de ficarmos em casa com aqueles que nos dão prejuízo e percebendo que prejuízo é ficar fora de casa. Prejuízo é ver a vida passar e não notar uma ruga a mais que apareceu no rosto da esposa ou do esposo, notar um fio a mais de cabelo branco que apareceu, notar que seu filho já aprendeu a andar, que seu filho está com sua primeira espinha no rosto, notar que seus pais a cada dia tem o mesmo olhar quando ainda você era criança, notar que uma boa conversa com a pessoa que você ama vale mais que um dia de trabalho, notar que a casa amanhece uma bagunça e que você é o mágico que a deixará limpa.
Desconfio que depois desses meses de oportunidade que tivemos de voltarmos para casa, alguns estão pedindo para que o tempo nos dê mais tempo para vermos a vida passar, mas passar passando, passando, passando, tendo a participação nessa vida.
Português
English
Español