Escritas

O natural é mais fácil...

João Edesio (Jhon)
O natural é mais fácil...

            Não gosto de andar descalço, uma porque meus pés doem outra porque os pés ficam sujos. Gosto de andar de sandália bem confortados, daquelas que nossos pés ficam confortados, sem apertar e não muito larga ao ponto andar arrastando o calcanhar ao andar.
            Mas quando se está no sertão a sandália só tem uma função, não deixar que os “cabeça de toro” entre em seus pés, porém existem alguns ousados que atravessam a chinela e cutuca seu calcanhar, parecendo que fincou uma agulha em sua alma de tanta dor.
            No sertão onde fiquei por algum tempo, e também já narrei em outro conto, logo não repetirei aqui, o vento é constante e abundante. E estes não são agressivos, agem com gentileza, ecoando um cântico sem harmonia durante o dia e como uma serenata durante a noite fazendo você dormir tranquilo, embrulhado em uma coberta que mais transparece medo do que de frio.
            Usar sandália nesse contexto, como já disse ante, só tem uma função, também já disse antes, a outra, fica a desejar. Os pés ficam sujos de poeira carregada de pó e também do próprio vento que ao andar tira o pó do chão dando-o vida e movimento. Nisso os pés ficam sempre envoltos com uma camada fina de pó vermelho que impregna como se fosse um tipo de maquiagem barata, que para sair, precisa de muita água e sabão.
             A chinela segue o ritmo dos pés, ficam vermelhas, como foi o caso da minha, que era branca (inocente). Não adiantava lavar todos os dias, pois todos os dias estariam do mesmo jeito, lavando ou não lavando. Mas resolvia todos os dias lavar antes do banho. Mas como vocês sabem terra vermelha não sai fácil, além do mais se for recorrente o contágio.
            Tudo na vida tem seu tempo certo, chegara meu tempo de voltar para minha realidade fantasia. Logo voltei para casa.
            Assim como qualquer família que se programa para uma viagem, você não faz compras para deixar estocada sem usar. Então ao chegar em casa, a dispensa estava vazia, minha casa mais parecia uma igreja, só tinha água disponível. Então como um bom senhor do lar, fui ao mercado fazer algumas compras. Aproveitei o tempo que tinha e resolvi não ir de carro, mas aproveitar o ar e também fazer exercício.
            Depois de ter feito as compras e voltado para casa, resolvi lavar minha sandália usada no sertão e na ida para o mercado. Não sei se vocês fazem isso, lavar o solado da sandália, acho que fica legal e com uma cara de nova. Mas quando olho para correia, lembro que não é nova, pois tem um prego atravessado onde havia um suporte para não deixar que a correia soltasse.
            Então comecei lavando por cima, as correias, as laterais e por fim, o solado. Nesse instante percebi algo muito estranho, havia dois tipos de sujeira, a do sertão e a da cidade. Comecei a perceber uma distinção bem clara quando comecei a passa água e sabão no solado. Duas sujeitas, uma vermelha a outra preta. Por ser de cor mais forte, a cor do sertão ficou abaixo da sujeira da cidade.
            Comecei a esfregar, esfregar, esfrega o solado para ver se aquela sujeira preta saísse do solado, mas apenas a vermelha começou a sair e preta continuou resistente às esfregaduras com uma escova de lavar roupa. Resolvi apelar para alguns produtos que me ajudaria nesse processo, peguei água sanitária e um sabão em pó e deixei um pouco de molho, após esfreguei novamente então a sujeira se foi.
            Parece que quando as coisas são naturais são fáceis o lidar com elas, pois o que é natural sai com naturalidade, já aquelas que têm uma intervenção da mente humana, não sai com naturalidade, pois houver uma intervenção no processo de criação, logo para ser retirada, apenas com elementos criados pelo homem.  O natural fica inoperante diante do elaborado pela mente humana, ou até sufocado.
            Lidar com o natural é mais fácil...