Escritas

Lista de Poemas

Também



Também deste poema se morre

letra após letra

o som inteiro e intenso da palavra

que cria rios e desertos e miragens

grises como o meio da noite

onde o poema descreve arabescos

e o agora dissolve os segundos

na farsa do tempo que é morte



Também destas horas se fartam

o incandescente amargor coleante

da areia escorrendo amarela

como um rio ruminante

entre o passado soturno

e o futuro incognoscível

que nos mantêm de joelhos

há 512 anos



Também nas madrugadas se chora

o choro longo ou breve

como chora o rio fora do seu leito

um choro que se pensa infindo

que se chora até se adormecer

no engano

e na absorta cachaça do sono

onde dormem os olhos incompreendidos

da infância

que nem você conseguiu consolar

trazendo a flor ébria e a cinza neblina

que se esvaneceu deixando

a primeira palavra do poema

sem resposta



Também se vive a contemplar o mundo

constrangido

náufrago

anacoreta

a estacar diante das reticências da vida

a mergulhar no espesso lamento da dor

das guerras profetizadas nos gabinetes

incesto e morte

e o desespero natimorto da platéia

diante da face do medo

diante do cansaço da espera exilada

e da ausência de perguntas

enredadas na vontade empoeirada

de quem, sequer, vê o muro



Também de fome se vive

de sonâmbulas bocas esquecidas

esperando o pão nosso de cada dia

ardendo em febres

e esperanças forretas

Pai,

perdoai a nossa inércia

assim como nós perdoamos

a quem nos tem debicado

não deixeis cair o parco pão

no chão conspurcado

pela nossa apatia

e pela nossa "candura"

livrai-nos dos néscios

e da submissão



Amém
👁️ 605

Sentir



Há momentos em que sentir

é como a ausência do postigo

por onde poderia, se houvesse,

infiltrar-se a voz melíflua do poema

É como a carência das manhãs transcedentes

e o constante perfume do orvalho no ar

É como a garrafa lançada ao mar viajando

sob estrelas que por sua vez viajam o éter

trazendo mensagens (poemas?) do inicio das eras

É como a solidão que se instala transbordando

tudo que eu ainda não disse/não fiz

É como o som das insidiosas máquinas de guerra

que ca(n)tam as velhas canções

e reverberam a cantilena de velhos discursos

É como o choro silencioso,

sem gesto,

sem destino,

sem começo

e sem fim

É como um labirinto

infinito

onde a esperança repousa ingente

É como a inelutável noite

que envolve e acorda vendavais

e a chuva cai

parando o tempo,

revirando passados

reverberando ao som do vento nas telhas

E, afinal, que querem as lembranças?

Querem um convívio forçado

estes sentimentos que tombam e vibram

Não sei conviver

Há sempre razões definitivas,

certezas indubitáveis

e a noite que cessa

em todas as janelas

onde a parca luz amarelada

agoniza junto com a minha emoção

Onde as iamagens se evolam

e o tempo é um truque de um mágico

que transforma a eternidade

nestes fugidios instantes

Às vezes instantes longos,

páginas em branco,

às vezes cheios de emoção,

umedecidos de suspiros

que o tempo folheia impunimente

A poeisa estremece o singular

mistério da noite

e dá ao meu sentimento

este invisível caminho

e esta inefável possiblidade

de anotar e rabiscar

até perder a razão

e colher das flores as cores

e o perfume inocente

de um verso que chora

ou que ri comigo

de uma realidade que só existe nele,

no verso

Eu o olho e o ouço como

um menino me olha e me ouve...

como se me conhecesse

há muito tempo...

Um tempo em que só havia poesia

no acaso inseguro das manhãs,

na tarde que me visita

e me espera nos jardins

onde flores de papel sorvem

as palavras que dizem da brisa

crispando as águas do rio,

bebendo as pequenas ondas

que desaparecem na areia

Houve um tempo em que tudo era poesia,

madrigais, odes, elegias

Versos inconsúteis

escritos à cinzas

nas páginas da distância

e dos momentos onde sentir

é como o escorrer da chuva

no silêncio dissoluto do espinho

da rosa que não há

e o perfume da rosa, esbatido pelo vento,

ondula em teus cabelos onde dorme a noite

O vento argumenta sua quase tristeza,

arremete, debalde, as naus contra os portos,

acorda meus velhos sonhos sonolentos

e empresta-lhes a face de uma lua cheia

de um dezembro que ainda não veio

Há momentos em que sentir

é só como estes sentimentos cativos

e estes caminhos cobertos por folhas secas

caídas com o vento e com as chuvas

nas madrugadas onde me esqueci

e me esquecendo

o tempo, possesso,

me resgata deste teatro

e da contumaz mentira

que transforma o meu hoje

em um ontem irrefreável

acumulando-se aurora após aurora

ansiando por ser poesia e liberdade

Estes momentos em que sentir

é como o menino jogando as cinco pedrinhas

na praça deserta

antes de decidir morrer

Quando eu me for qual flor brotará?

Branca, vermelha, amarela, lilás, azul...?

Que importa?

As flores brotarão e levarão

o pânico da minha noite

e atearão fogo à minha suposta "poesia"

incorrigível e alquebrada

sentindo o que não sente

virando o mundo às avessas

antes que a aurora envolva e encubra

a voz do poeta

e este, então, adormeça
👁️ 601

A rosa amarela do dia

A rosa amarela do dia

desliza na manhã

de um mundo velho,

vago,

sequioso

O amor não é poesia

no velho mundo abstraído

O amor é folha de

outono,

adeus,

passos de nuvens

rumo aos teus olhos

negros

O céu, roçando o mar,

tece arco-íris

na poeira úmida

das cores condensadas

na miragem das praias

à deriva

Os ventos balançam

as folhas laceradas

por este inverno

de horas melancólicas

A um canto

há um grito

que ao meu canto

desvirtua num fragor

plangente



Vi a rosa amarela do dia

deslizando na manhã

por entre os morros

dispersos ao longo

da vida que desliza

sob conceitos e

palavras sem nome

Tudo caminhando

lentamente

Perpassando a manhã

o som de um sino dobra,

circunspecto,

embebendo os olhos

e apascentando corações



Um sol, recriado no lago,

arde em chispas

ao murmúrio das águas

A brisa azul esvoaça

o amarelo do dia

Cores a desdobrarem-se

na onda turva e reflexa

no som cambiante,

nas sombras difusas

que acordam encharcadas

da tua ausência

do meu exílio

e ébrias de

[solidão]
👁️ 662

Poesia não achei

Queria te mandar uma poesia, mas não achei nenhuma que se parecesse com você.

Nenhuma tinha estes olhos ternos, céus em dias claros, mares ao crepúsculo da manhã.

Nenhuma tinha estes cabelos de fios cor do trigo ondulando à luz do sol.

Nenhuma tinha a candura das tuas mãos, o perfil delgado dos teus dedos, a fome do toque.

Em nenhuma poesia encontrei o teu abraço que me enlaçava ternamente como gota azul do oceano.

Nenhuma tinha o convite do teu colo.

Nenhuma tinha a maciez da tua pele, rosa branca, lírio em flor.

Nenhuma tinha este sangue rubro no qual teus lábios se expressam.

Nenhuma trouxe o silêncio do contorno dos teus lábios em sussurro.

Nenhuma sabia sorrir como você sorria pra mim.

Nenhuma falava as palavras que me dizias e com as quais ainda faço os caminhos dos meus sonhos.

Nenhuma soava como soa tua voz quando dizes "felicidade".

Nenhuma trazia as letras do teu nome onde amanhecem os meus dias.

Nenhuma tinha a fragrância nua do teu corpo úmido de desejo.

Nenhuma tinha o arfar dos teus níveos seios durante o amor... corolas aveludadas,

círculos de chamas.

Nenhuma tinha versos que se despissem como despe-se o teu corpo.

Nenhuma era saudade como são os beijos teus.

Nenhuma tinha esta agonia de liberdade que a tua alma tem.

Nenhuma sabia da dor que você socorre.

Nenhuma tinha o ritmo dos teus passos quando caminhas na areia da praia.

Nenhuma poesia, nenhuma...

não achei nenhuma poesia que pudesse te dar nesta noite.

Só achei estas palavras que o vento, em meio ao canto de um pássaro, sussurrou ao

meu ouvido.

E estas palavras são tudo que tenho para te ofertar esta noite...

Poesia... não achei.
👁️ 1 093

Espero


Espero as palavras que não chegam.

Espero o passado que caminha, irresoluto, cada vez para mais longe.

Espero a Alma infrangível que não vem e que encobre a voz tergiversável do que sinto.

Espero o silêncio cego que vem dizendo, murmurante, velhas histórias, enredados medos.

Aguardo, no tilintar dos pequeninos passos do tempo, o instante em que o amor repousasse as suas lágrimas tenras nos olhos inquietos da saudade.

Aguardo, atento aos sons que o ar evoca, o dissipar desta angústia que me perpassa lenta e longamente.

Espero a vida e seus caminhos sós e seus sonhos sincréticos a desvelarem a ternura dispersa no tempo.

Enquanto espero olho o momento que estremece.

Soa ao longe o pulsar constante e arrítmico da vida.

Ecoa nos meus lábios contritos o segredo nostálgico do teu nome.

Chove...

A chuva cai sarapintando de gotas fosforescentes a face dócil da noite.

Flores ondulam levemente ao remanso que a chuva inventa.

Espero...

Espero as palavras que não vazam.

As palavras que não irrompem.

As palavras cálidas e ternas que se esconderiam em algum lugar de ti.

Espero as palavras intrínsecas que diriam: "vem!!! ...eu também te amo".
👁️ 1 042

Tempo

Ah! este Tempo etéreo e hierático a me impor lembranças e propor destinos.

Este Tempo agonia que me alheia a voz quando estou sozinho.

Um Tempo de palavras roucas... loucas... a dizer-me coisas com as quais eu não atino.

O Tempo afoito, nau sem vela e sem razão, que conduz, por entre nevoeiros, o meu coração.

Intuo este Tempo, máscara da mentira, que julgo passar por mim quando sou eu quem passa por ele.

Soa, ao longe, este Tempo de renúncia e de exílio em cujo pórtico ouve-se o diáfano prelúdio da tua ausência

Freme este Tempo de silêncio que engenha sombras no canto que embala a minha própria dor.

Cerram-se os olhos do Tempo que nas noites choram a minha solidão.

Fito este Tempo que em cada manhã me sugere, imarcescível, uma nova possibilidade para ser feliz.

Ah! o Tempo... este instante precário e denso, cativo e límpido, onde a alma flamejante engendra o engano de existir.
👁️ 973

Teus passos

na noite onde o silêncio
é o postigo antigo de um sentimento
ouço teus passos a andarem em mim
ficam, em mim, as marcas dos teus pés
como se areia eu fosse
ficam as gotas salgadas a escorrer
como se mar houvesse
entranho-me numa concha
como se ondas ouvisse
ficam na noite teus olhos de estrelas
a derramar as fragrâncias de uma primavera
a soluçar os medos da noite inditosa
a arder a lembrança do que um dia foi Amor
ficam os nãos versejados e a morrer
da morte mais intensa que em fumos se desfaz
morrem os não quando eles já não nos servem mais
a voz ouvida ao longo do vento sibilando
por entre as frestas de um passado envelhecido
entontece a flor que brota no seio da solidão
o vento vagando na noite é uma réplica do que foi meu coração
quando a noite espargia o silêncio nas várias faces do vento
e guardava a minha Alma na renuncia rútila dos astros
guardava, na pálpebra do sonho, o que de mim ainda sou...
...e o que eu ainda sou é crepúsculo de barco a deriva
a vagar pelas ilhas inescrutáveis dos meus sentimentos
a deslizar sigiloso na transparência dos ventos errantes
desvelando a aragem silente do que de mim restou
👁️ 1 004

Hoje

Hoje já não queimam as
noites em seus fogos
cor de sangue. O fogo
fez-se mar intenso,
vaga sem fim.

Hoje a madrugada é precipício
a acolher rios de sonhos
que se precipitam como
chuvas molhando a lágrima
entornada, a lágrima amarga e perdida

Hoje não te tenho mais,
não sinto mais meus lábios a viver
nos teus. Não beijo teus olhos,
não sinto teu corpo, só há o teu
perfume entre os meus braços

Hoje já não digo amor
O amor ficou cingido
ao passado nos silêncios
que ficaram junto a ti,
ao teu lado.

Hoje o silêncio tonitruante
das palavras não ditas
é o grão de pólen que
perpassa as pétalas das dores
a germinar no infindo adeus

Hoje, sonhos desfeitos,
vida sem gosto,
minha alma galga colinas
buscando em outros trejeitos
As linhas meigas do teu meigo rosto

J L Silva
👁️ 1 004

Versos insones

Um tempo infindo trouxe você pra mim
Um tempo sem hora, sem dia, sem mês
Um tempo onde só havia o soar
Longo do vento na noite imensurável
Dizendo ao meu coração teus sonhos
Lançando fora os véus que o encobriam
E onde o amor se perdera em fugas
Esquecendo a ternura do beijo alvo da alma
Disse a ti as palavras que em mim morriam
Disse do meu medo e da minha dor
Falei da noite que me esconde
A noite onde o meu ser se dissolve
Em rotas de um labirinto inescrutável
Pousastes a mão sobre os meus lábios
Para que o silencio deles não partisse
Para que o gesto pudesse se expressar
E na palavra contida nos teus gestos
Ouvi o bem dizer da ilusão do alento
Onde tuas mãos bebendo do meu corpo
Sussurravam os versos insones que te fiz
Na esteira das luzes que apagaram a madrugada


👁️ 1 064

Pra onde vou?

Pra onde vou se agora a vida me trouxe você
E nossos momentos são sonhos que em mim se realizam?
Pra onde vou se te esperar tornou-se a inteira poesia
E os meus beijos aninham-se no teu corpo
Como os versos aninham-se nos poemas?
Pra onde vou se agora tua mão tocou a minha
E os teus dedos, trançados aos meus, disseram tanto amor?
Pra onde vou se agora o dia acorda e dorme em você
E nas minhas noites o perfume do teu corpo embebe o ar da minha imaginação?
Pra onde vou agora que os meus lábios tocaram os teus
E a sede molha a lembrança dos nossos dias e das nossas noites?
Pra onde vou se a tua ausência é tudo que tenho depois do nosso amor
E na minha pele o teu gosto fica como o desejo ainda latente?
Pra onde vou se agora quando apago a luz é o seu toque que sinto na penumbra que me encobre?
Pra onde vou se agora quando o silêncio dormita é a tua voz que ouço?
Pra onde vou se agora meus caminhos, tão distantes, esqueceram os próprios passos?
Pra onde vou se agora tudo que sinto é você
Tudo que sonho é você
Tudo que quero é você
Tudo que amo é você
E tudo que tenho é saudade?
👁️ 1 033

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments