Lista de Poemas
Ausência
Na tarde que não se cala
No beijo que não te esquece
No abraço que ainda aquece
Na noite que te esperou
Na cama onde agora dorme o frio
Na tua ausência doída
Num quarto vago e vazio
A saudade deita seu corpo
Junto ao teu corpo macio
Luas antigas
Espero o mar silente preencher o escuro da noite das luas mais antigas, ancestrais
Que em silêncios arrasta-me para o porto dos barcos rumo ao infinito, nada mais
Pelos caminhos de fogo e águas, razão e loucura, abismos inatos do meu céu
Onde as aragens sorvem em goles os meus pensamentos como a um fel
Onde as miragens viram teus olhos irem embora rumo ao oceano
Nos caminhos por onde andam as mágoas, anda o engano
Anda o ventre túrgido das saudades, uma velha amiga
Espero, no mar silente, a noite da lua mais antiga
No achar e me perder sem fim, sem nada ter
Na saudade que ficou retinta em meu ser
E que como um manto em mim cingido
Me agasalha como um traje puído
Como uma velha roupa rota
Como uma palavra solta
Que não serve mais
Espero a noite das luas mais antigas, ancestrais
Para que estes sentimentos opacos e banais
Onde caminham o fim dos meus passos
Possam calar os meus cansaços
Debicar os meus momentos
Confranger os ventos
Ver nascer a flor
Nascer o dia
Nascendo
O dia
...
Me
Encontrar
Amor
Afeto
Que Deus pusesse a paz entre os teus dedos
E o teu riso franco e doce de menina
Fosse maior e mais forte que teus medos
Queria que a lua acesa que à noite ilumina
Brincasse de esconder com teus segredos
E os teus sonhos, minha doce pequenina,
Brotassem belos como as flores nos rochedos
Queria que o dia fosse espiar na tua janela
Com seus olhinhos de candura, cor de anil
E ao te ver, menina, tão meiga e tão bela
Visse que és mais uma flor que se abriu
E encantado com o amor nos risos teus
Te recitasse em poesias aos pés de Deus
Noite
Ó, noite,
que levas do dia para o mar?
Levo a luz que calcina,
as cores das flores,
das folhagens,
as cores que esplendem
no horizonte nos finais
das tardes sobre os lagos
levo a tocaia da tua saudade
e o lume dos teus sonhos
levo as tuas horas cativas
e o grito ao qual te inclinas
Ó, noite, de promessas e de
silêncios
de ausências e de contemplação
repousa teus olhos negros
no sono dos meus olhos crassos
e canta a cantiga de acalanto
que o vento murmura
ao passar pelos rochedos
onde entre as frestas brotavam
flores que a tua mão encobria
e onde ouve-se o augúrio do
gorjeio da ave noturna,
segredos, seres encantados
acalantos que a chuva traz
Agora que atravessas o mundo
carregando em teus cabelos
as cores do dia e os instantes
com os quais vivo a ilusão
de um tempo fragmentado
e com o qual transcrevo o
passado no presente,
criando o engano de um futuro
Agora, acende os espelhos onde
a vida se reflete cortando a
escuridão rumo às latentes
luzes que tecem as auroras
Ó, noite, teu fascínio se
imiscui aos crepúsculos dos
fins de tarde, sombra cinza,
amalgamando-se às cores
do dia e a elas se sobrepondo
estendendo o manto negro
para que as estrelas iluminem
as lembranças por onde me
procuro no absoluto tão cheio
de presságios e afetos,
vem e traz contigo
os hieróglifos indeléveis
da poesia, o mel de uns versos
colhidos à noite singular e terna
e que pulsam no instante milenar
onde a idéia une-se à forma
onde o murmúrio dos anjos
confortam os náufragos da noite
quando em seus braços dormem
os teus olhos de infância
e o nosso primeiro amor
O menino que te ama
Seus olhos se fecharam docemente
e o escuro, levíssimo, pairou sobre as ruas,
os pensamentos e as vidas
Lá fora,
eu vi agora,
há somente estrelas pintalgadas de azul,
nuvens fofinhas passando bem devagar
e uma lua guiando as estradas de terra
nos caminhos que vão dar no mar
O mar é longe, menina
O mar é onde?
O mar é onde o nácar translúcido dos meus sonhos
empresta à vida estas deléveis perquirições
feito pássaros azuis que voam no dia escasso,
num sol poente que rouba o vermelho do teu vestido
e satura o horizonte e exaure o verso
que depois de ti foi só saudades
Da tua ausência fiz o meu redor
e o tempo que não se extingue
como o mar batendo nos rochedos
molhados pelo sal,
úmidos de serenos e enganos que as ondas trazem
o tempo compõe o menino que te adora e não te esquece
Faz muito tempo que o mar bate nos rochedos,
às vezes com estrondo,
às vezes como doce carícia,
vontade de amar sob a nudez de uma lua branca
Esta lua especiosa que se espalha no mar,
diáfana,
imóvel,
aguardando a lesta manhã
aguardando os lábios e a mão do poeta,
o consolo das suas palavras
e a pequena flor em sua lapela
A noite fechou os olhos
Já não quero noites,
nem luas,
nem mares,
nem flores,
nem chuvas,
nem amores
Quero qualquer coisa que traga no tempo certo
a inquietação dos circos da minha infância
e a recordação primeva do amor que foi criança
e como criança amou sem pensar em amar,
sem pensar em nada que não fosse
o acalanto singelo do teu corpo
beijou sem saber beijar,
sonhou deitado em teu colo
ouvindo o silêncio... longe
tão longe...
Impossível atinar com o que o silência dizia
Eu só compreendia você
e o lindo esboço de mulher que você era
deitando os teus segredos nas nossas tardes
Teus olhos negros como um rútilo arco-íris
de todas as cores
Negros como a noite que fecha os olhos
e tudo em volta se enovela em escuridão
No interior da noite escura e rutilante
um menino querubim escreve teu nome
em todo o tempo perdido,
em toda palavra não dita
em todo o silêncio que nada diz
e que, no entanto, não deixa que fujamos
para as cidades hipotéticas do atlas geográfico,
a grande fuga...
que me sustinha em seu vulto,
mas que nunca aconteceu
pois que o mundo existia só em você,
na sua presença sem razão maior
a não ser o nosso afeto
na sua ausência sem razão maior
a não ser o tempo que passou sem responder
ao amor que era para sempre
e que terminou num dia plangente como o de hoje
onde uma chuvinha fininha cai
enquanto o tempo envelhece alheio a nossa vontade
Lá fora o céu toca o chão e se confudem
as copas verde das árvores
com o cinza úmido e os caminhos insuspeitos dos anjos
A noite fechou os olhos
Dormem as árvores,
dormem os anjos e suas verdades
Enchem o quarto e velam minha noite
os versos que falam de ti,
os gestos a me lembrarem de ti
A vida girou a roda e tudo agora
é este invísivel cansaço,
pois que sendo o amor um arabesco
talhado na alma como desfazer o elo
que está na ilusão que fica para além,
para além do amor
em algum reino profundo
onde habita,
numa ilha,
o menino que te ama
Correnteza
O ardente e molhado gosto do nosso beijo
O gesto intenso e macio do nosso toque
Há nossos corpos lúbricos, tão quentes,
Há o desejo fremente fito na tua boca
Existe o querer dos meus olhos no
Sim azul dos teus olhos sequiosos
E no ar, roçando a nossa pele nua,
Há uma volúpia, um sutil calafrio,
Que nos molha a pele em gozos
E escorre pelos nossos corpos
Como a eterna e intensa
Correnteza lasciva
De um rio
Queria ser teu amor
Ainda que por um dia
Cantar, rir-se da alegria
Sentindo o teu coração
Sussurrando junto ao meu peito
A nossa doce canção
Ah! Meu amor, como eu queria
Trançar minhas pernas nas tuas
Beijar tuas costas nuas
E com os dedos, sutis
Ir acariciando a tua pele
Com meus sonhos pueris
Beijar-te o ventre e o colo
Fazendo o tempo parar
Te acolher em meus braços
Te dar beijinhos, abraços
Quando o cansaço chegar
Quando o cansaço surgir
Me aninho em teu corpo quente
E entre beijinhos frementes
Me deito em ti pra dormir.
O tempo não passa
neste rítmo miudinho
com que a vida anda
neste espaço que defino
como meu
e que se evola na neblina
densa que acorda as
desmesuradas manhãs
e seus sigilos violados
pela vida que pulsa
estrepitosamente
vasculhando na memória
momentos elididos pela
distância
Cá dentro urdo os fios
dos meus sonhos
canto o meu canto
ressumando a paisagem
e os pequenos botões de rosa
que as gotas de orvalho
matizam reverberando os tons
que dormem na névoa
imóvel da aurora
dissimulada
nas arestas do dia
quando a luz se esbate
desfazendo-se na
imagem refletida no mar
A brisa sutil vinca a areia
esparrama o dia
encanece as sombras
de um futuro
e de vespertinas horas
esboroadas
O tempo não passa
Ao longo da caminhada
fica o talvez
na poeira ígnea
a arder nos caminhos
e no mormaço
que dissolve no ar vacilante
a vida e as coisas
tremeluzindo a monocromia
das sombras de uma primavera
distante
O tempo não passa
e é cada vez mais longe
o imponderável futuro
cada vez mais incerto
o incognocível presente
cada vez mais
perdido no cicio das brumas
o passado
O ar agoniza imerso
na tarde esbatida
pelas réstias de luz
e pela melancolia que
escorre pela luz baça da tarde
O tempo não passa
além da iminência do silêncio
cativo das imarcescíveis horas
transmudando o
palpável horizonte
escoando na brisa trôpega
perpassando a ilha
desvelando morros e encostas
desenhando segredos superpostos
na junção de sombra e luz
suspensos no ar
entre a primavera e o verão
O tempo esmaece e esquece
teus traços
e tudo aquilo que ficou nos versos
de uma poesia tão breve
nas estrofes que as noites diziam
Hoje, ao invés do afeto,
há silêncios e calafrios
e este tempo sardônico
impalpável
que não passa...
não passa...
não passa
Carinhos
Quando a noite vestir-se de carinhos
Desnudar-nos em beijos de amantes
Guiar-me ávido pelos teus caminhos
Hei de sorver teu corpo em desalinho
Na madrugada nua e clara da aurora
Beijar tua flor lentamente, gostosinho
Bebendo o teu gosto ébrio que aflora
Na minha boca tu bebes o teu sabor
No beijo que eu te trago ternamente
Nossos corpos ainda falam de amor
Enquanto o dia nos espia docemente
Distância
Se a distância é só saudade
Se há entre nós tantos céus
E tantos rios e tantos mares
Se a saudade de quem falo
é a mesma em todos os lugares
é a mesma que espera ali adiante
Fazendo do longe o mais distante
Apertando o passo pelo mundo afora
Encobrindo as noites com um véu escuro
Fazendo do hoje um tempo antigo
E do passado um tempo que não vai embora
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