Escritas

Lista de Poemas

Quando tu fores

Eu penso a dor que há de ser quanto tu fores
Quando o momento de partir crescer em mim
E o beijo que nunca foi dado rir-se do seu fim
Enquanto a voz grave do adeus cala as flores

As noites hão de ser constantes madrugadas
Caminhantes notívagas num céu adormecido
Por onde anda o vento frio, triste e esquecido
Murmurando passos quiméricos nas estradas

Ah! Quando em teus olhos a cor do céu fugir
Quando o mar em densas brumas me encobrir
E o meu olhar imerso em dor não mais te ver

Que o vento arraste as cinzas nuas da saudade
Para que o meu coração esqueça de te esquecer
E para que este amor faça-se em mim eternidade
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Trago nas mãos estas águas

Trago nas mãos estas águas

que apanhei naquela fonte

onde deixei lembranças,

onde o passado persegue

o tempo que escorre das âmbulas

Lá ficaram os meus sonhos,

as horas que te amei

Ficaram saudades e ausências,

Ficou a voz da noite

entre estrelas e miragens

refletidas nestas águas

Nestas águas ficaram a palavra,

o poema insondável,

a lenta madrugada

e as derradeiras sombras e luzes

por onde perpassa a aurora



Trago nas mãos estas águas

e este medo persecutório

que me segue insone

desde a primeira hora

quando o sol se desespera

e reflete-se nas grades das

indecifráveis masmorras,

dos imponderáveis momentos

A luz do sol incedeia e vagueia

num dia que nunca tem fim

e que divide-se desde a origem

dos tempos subitamente abertos

pelo mar dobrado e pelas sonoras

ondas batendo guturalmente

nos rochedos



Trago nas mãos estas águas

e a noite prosaica,

e seus labirintos esbatidos

pela compacta penumbra

que flutua levada pelos ventos

murmurantes do outono



Trago nas mãos estas águas

e no olhar, acendendo-se,

uma nódoa de indiferença

que sopra enfunada como

a vela da soberba



Trago nas mãos estas águas

e nos lábios estas palavras

com as quais busco encantar-me,

com as quais fio meus dias

de extrínseca urdidura

Palavras...

Que são as palavras sem o

correpondente ato?

Que triste sina morrer-se

assim, lentamente, como

os olhos que avistam a

tênue manhã desdourando-se

entre o horizonte e o mar?



Trago nas mãos estas águas

como brasas ardendo nas

merencórias manhãs,

círios perenes acesos no

escuro das ânforas onde

escondi meu mundo incerto

e os sonhos feitos destas águas

que trago nas minhas mãos
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Seis sílabas



O sonho aflora e é estas lembranças solitárias,

chuva caindo sobre os versos,

sobre um rio imperecível,

sobre esta névoa furtiva que encanta os meus sentidos

como se o ar pudesse ser arte e círio e arder até o fim

Ninguém ouviu o ar arder na noite âmbar

Nada há nas luzes densas que devoram a noite

Nada há no vento onde se esconde o silêncio

Não há nada senão o teu nome no meu sonho

Teu nome que vivia em murmúrios nos meus lábios,

na minha saliva e na minha sede de ti

Virão inúmeras primaveras e verões antes

do impresssentido crepúsculo

e da tristeza das palavras



No amanhecer,

junto com o dia lasso e nu,

enquanto o nada sibilava no frio do quarto,

vindas de ti seis sílabas cospiam o cuspe

do descaso aceso pela indiferença

As palavras feriram,

pungentes

Podias tudo, menos ser a palavra dita sob a dança da mágoa

A tristeza consumia aquele final de primavera

que ainda sendo flores, já era solidão

frágil sépala inclinada a se esboroar

Quando será dia novamente se neste momento

a noite tocou-me a pele tornando-me escuridão?

Os segundos riscam as horas

com cacos de solidão



Uma a uma em uma outra noite será primavera

e o estrídulo silêncio falará das cintilações das manhãs

e de girassóis tão antigos quanto os versos que te fiz,

todos tão úmidos de sussurros

a molhar minúsculos silêncios

e os teus olhos de papel

Escuta, a tarde que ardia entre nós

e as nossas solidões mitigadas pela luz cinza

e calcinada que entrava pela janela

deixando o gosto amargo de um novembro

que caminhou irresoluto

para a precária e última eternidade

O sabor da chuva ficou no silêncio pisado

pelas palavras ressequidas,

pelas vituperações

que engoliram a ternura

e os dias iguais tornaram-se rotineiros

não fosse a imponderável poesia e os versos

e estas palavras que para além dos ventos

encontram sentido e companhia
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A chuva chora



A chuva chora e fia a tristeza

que escorre diáfana pela janela,

sem razão

Nina a minha vigília e a minha dor

e as minhas mãos cheias de inquietude

Molha o meu medo e a minha angústia,

molha o momento suspenso da tarde se desfazendo

O vento desliza na janela como lágrimas

de uns olhos imensamente meigos e belos,

uns olhos prometidos ao silêncio,

ao desconhecido

Pela janela olho o céu cingido ao cinza

do dia que envelheceu

A chuva,

transluzente,

chora,

escorre,

nina,

molha...

E, por fim, a vida, enredada nos passos molhados do dia,

entoa silêncios enquanto a chuva ressoa

na transparência do grito eternamente inaudível,

na transparência palpitante da chama do círio

aceso desde as origens dos tempos

Dentro da chuva a sombra se projeta no ar

e um vago sentir tristonho se dissipa no infinito

da névoa que esconde os passos serenos da noite que se

prenuncia ao peso e ao farfalhar do crepúsculo

A chuva cai como fogo e semente ardente

a encher de melancolia o instante vindo da infância

e de um tempo onde só havia

este sabor de barro

e a vida se desenrolando

nas janelas roídas pelas chuvas,

absorta e oscilante num mar de horas

cinzas como o céu do dia,

inefável como a chuva que chora nas janelas floridas
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Os pássaros cantam

Os pássaros cantam ao longe...

Como em todas as manhãs

os pássaros cantam...

ao longe,

nas nuas manhãs cinzentas

despertando a luz úmida

que sorve a fonte escura

do horizonte engolfado

em sombras emudecidas

A manhã pendura gotas

de orvalho e névoa

nas pétalas e nas folhas

das flores tocadas pela

brisa leve e sagrada

Da minha janela ouço

a vertigem do mundo

A vida freme melódica

de longos trinados

superpostos pelos

rumores do dia

coercivamente nublado

Da janela vejo as casas

que se amontoam nos morros

Casas verdes, amarelas, azuis

e seus telhados vermelhos e sozinhos

Em volta pedra e capim e árvores

dão cores ao dia sonolento

e abrigo aos pássaros que cantam ao longe

Crianças brincam na manhã

plena de eternidades

dissolvidas nos ventos

que se deitam no ziguezaguear

das pipas que colorem o ar



Tudo é fremente solidão e êxtase

neste domingo que é sonho

e metáfora das horas que restam

de uma vida inteira



Por entre as réstias de um sol

roído pela sombra

os pássaros cantam o verão
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Monólogos



Pelos milhares de anos do mundo

nascem os sóis e caem as tardes

e florescem as flores e se desvela

a lua e estrelas e os primeiros versos

quando alguém chorou e os olhos

beberam da primeira madrugada

Mananciais do Tempo sibilino

num jogo de luz e sombra

noites e dias

sim e não

Yin e yang



As noites trazem o mar da minha infância

e o incessante começo dos teus olhos negros

trazem tuas pequenas mãos para as minhas

Trazem verdades e mentiras,

Sombras abstraídas?

Palavras extintas?

Paradigmas?

Retórica vã?

Metáforas?

Como saber a resposta se, pensando em ti,

todos os caminhos são plausíveis, como um rio

que segue o seu curso por pura solidão?



Comove-me o caminho de volta pra casa,

escorre no meu rosto uma lágrima que o

vento há de secar

O vento talhou o espelho e ele já não reflete

os horizontes estáticos

nem a lágrima que cintila

O tempo está morto e cai gota-a-gota das

mãos trêmulas do viajante cativo da

ilusão de ser e do engano da permanência



A vida inteira é um instante sobreposto

a outro instante, a outro instante e mais outro...

Ad infinitum

A vida pulsa e se expande

Enquanto eu sorvo o pulsar dos meus dias

e me embriago com a solidão que me

acompanha como uma pele estanque,

rastilho das horas aceso na alma,

fazendo das noites um tempo acorrentado

aos ventos inauditos que sopram do mar

para a ilha quando o outono chega

trazendo lembranças e inquietações

É preciso recuperar os dias primordiais

É preciso vivenciar a vertigem de se estar só



Enquanto escrevo ouço os pássaros cantando

Meu coração se enternece com o canto dos

pássaros

Todo dia o mesmo inédito recital que vem

ressonante no silêncio hierático e fluido de

algum lugar no mundo encantado das aves,

de algum pedaço de céu onde a vida se

abastece de poesia

O canto dos pássaros é a vida insinuada

entre o horizonte e as nuvens baixas deste

dia nublado, deste dia onde a amplidão

toca o chão com as suas vestes de brumas

O firmamento verga neste reino de cinza

e sombra, de pó e alheamento



Meus sonhos, sejam lá quais forem os ângulos

pelos quais eu os veja, evocam a Beleza

e procuram o poeta latente que me desse de

beber e saciasse minha fome e transformasse

minha ânsia de estesia na Beleza que procuro



Busco palavras entre as folhas que o outono

derruba

Nas noites escorrendo sonhos e inquietações

Na primeira história, no primeiro livro, nas

minhas mãos de criança

Atrás das longas sombras inquebrantáveis

no istmo das palavras buriladas na argila

e nas lágrimas das paredes da casa da infância



Eu nada sei dos séculos que por mim esperam

Eu nada sei dos séculos pelos quais passei

Eu nada sei dos agoras e seus espelhos opacos

Há milhoes de anos a vida se manifesta em sua

triste ira complacente e sempre nova e sempre

inaudita ferocidade pungente



Eu nada sei da poesia e da estesia da poesia

e da estesia da vida

Nada sei deste instante precário e perempto

onde as palavras dissolvem-se antes de

chegarem ao texto

E no lugar destas palavras fica um arguto silêncio

ficam personas e máscaras nas faces temerosas

fica o tempo ignoto, faminto da mesma Beleza

e da mesma estesia onde me busco



Os pássaros calaram-se

Cai uma chuvinha miúda enquanto o céu vai

descendo ao encontro das copas das árvores

A tarde está cinza e os pássaros calaram-se

A vida escoa lentamente

numa ociosidade silenciosa

Não há brisa, mas está no ar esta inocência

e este pressentimento que tornam a vida e

seus mistérios insofismáveis



Olho para o livro aberto e não lido

Olho para a minha vida aberta e não vivida

Em qual página da minha vida eu parei?

Eu quero a rua de terra e os meus pés de lata

Eu quero de volta o sonho e a inocência que

perdi sem perceber

Quero a primeira luz do mundo

Eu quero a primeira flor,

o primeiro amor,

o primeiro beijo

Quero o teu colo, Pingo

e teus olhos de noites consteladas

e teus beijos como os de Eva no paraíso



Olho para o céu e suas anáguas cinzas

gotejando o sussurro da chuva miudinha...

Olho para o livro aberto sobre a bancada...

Tropeço no silêncio da tarde e no silêncio

do canto nimbado dos pássaros



A vida é menor do que a arte

A arte é eterna

A vida é provisória...

e cabe interinha no trilar dos pássaros



Nada sei!!!

Eu nada sei!!!

Não me esqueci de nada.

Eu simplesmente não sei.
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Manhã de domingo



Manhã de domingo

Dia nublado

A vida acorda sem o instante amarelo e menino do sol

Na rua soa a monotonia dos ruídos dos carros

a encobrir a vida e ignorar a barulhenta certeza

da sandice que o homem acalenta

O homo sapiens sapiens fere a cidade suprimindo o silêncio

e encobrindo a Voz imanente à Alma

E a cidade geme e explode e grita...

Um alarme dispara

para proclamar em voz alta a insensatez humana

Indiferentes à insanidade pássaros cantam

Nas árvores os pássaros aliam-se aos anjos, e cantam,

por que é de ser pássaro cantar

Em algum lugar um bem-te-vi

lança, súbito no ar, o seu mantra:

bem-te-viiii

Outros pássaros se manifestam,

cada um no seu idioma,

encobertos pelo ruído dos carros

São tristezas a vida nesta incessante

dicotomia,

nesta afronta plangente

onde a vida caminha para o ignaro fim

Em algum lugar da cidade nasce uma flor,

em um jardim?

Uma flor irremovível,

que alguém espera

Nasce a flor

e com ela nasce mais um verso

e quando a chuva cair o verso se fará poesia,

independente da ignomínia daqueles para quem

o amor e a poesia têm outra existência,

outro devir que não o de ser amor e poesia

Mas, a flor desabrocha,

por que é do sentido da vida da flor desabrochar

Flor de orvalho e eflúvios de estrelas

mais um acalanto de ternura dos poetas,

mais um milagre em busca do equilíbrio

Nasce a flor e o som da flor nascendo

confunde-se com o som do Universo

expandindo-se e contraindo-se

Há na vida e na morte expansão e contração

Nascer é fazer um pacto silente com a morte

e a cada instante a impermanência entoa, nua,

o cântico cego do tempo a passar indolente

após o giro da ampulheta,

após a intimidade do amor

Após o exílio silencioso da minha face na

candura do teu colo

e dos versos trêmulos

que leio de olhos fechados, com as pontas dos dedos

na manhã nublada de domingo

onde borboletas voejam aprendendo as flores

para apagar as noites crispadas pelo teu nome nos ventos

Os pássaros cantam sonora e comoventemente

compondo a claridade do verão

com a qual o Amor entrará pela minha janela

e o sol se fará

atado ao instante absorto dos meus olhos





(*É a poesia ficando repentinamente como a lembrança

da primeira noite em todas as outras noites...)



*Lêdo Ivo in Poesia Completa - 1940 - 2004

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Os dias parecem tão iguais



Os dias, esses pássaros amarelos,

parecem tão iguais

Parecem indiferentes ao bem e ao mal

os dias que nascem solitários

do outro lado do círio aceso da aurora

e da vida que se debruça à janela

Um vento leve leva as palavras,

sonolentas,

sem nehum destino

É cedo para que se diga

que a vida não vale nada

É cedo para se bater à Porta da Verdade

É tarde para se apagar o antigo nome,

o antigo e inelutável sonho



Os finais de tarde apagam-se em azuis

e dourados,

tendendo a vermelho,

mas nem por isso descuida-se do gesto

que, lentamente, trará a noite imensa

sob a sombra de uma folha,

sob o aroma dos lírios

A noite estilhaça o vítreo

incandescente das estrelas

e o céu, suspenso por cordões de marionete,

transborda de pontinhos úmidos de azul

e de eternidades

Pululam estrelinhas na noite

enquanto o poema espera

pelo sensível momento da flor,

da rosa que se desvela em arabescos

prateados pela ternura da lua



É cedo para dizer que a vida é um breve

e irremediável sonho inútil

que põe esta lágrima nos meus olhos,

deambulando pelas velhas ruas tímidas

e inauditamente tristes

É cedo para pedir à sina (esquiva) que

leve esta tristeza que me permeia

como o perfume de sândalo e de saudades

É cedo para tentar entender a fábula

contida no vento e no orvalho

que amanhece nas folhas e nas pétalas das flores



Viestes ver a manhâ que apascenta

as brancas nuvens tecidas em mármore?

Viestes ver a manhã amarela

e os campos onde sonham os girassóis?

À noite eram outros os sonhos,

densos e sincopados

Na noite retinta assomam os olhos

medievos

esquecidos no passado

A estrela cadente resvala pelo espaço

incendiando

o céu em seus rumores de brasas

calcinando o instante,

marchetando os sonhos

Faço o meu pedido, contundente como

o barro da infância,

inaudito como o murmúrio das noites

e o silêncio dos caminhos intangíveis

Só a estrela me ouve...

Ao meu pedido

e ao som

dolente da flauta que vinha

com as noites incertas e silentes



Só a estrela...



Em palavras de criança tudo pode ser pedido enquanto a estrela cai

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Uma fábula de ano novo

Ano novo

Novo?

Perguntou a dona formiguinha

ostentando entre as pinças

um folha bem verdinha

Ano novo... murmurou alguém

lembrando de anos passados

os olhos úmidos de ausência

a vida uma nau sem porto

e ano após ano os mesmos quereres de novo

Novo?

Perguntou novamente a formiguinha

que ainda seguia firme com sua folha verdinha

Os dias são tão frágeis

A vida um sonho efêmero

uma sucessão de instantes aleatórios

Incriados ventos escutai os

nomes escritos na areia por onde caminham

as ondas de passagem pela praia

e retornam inabordáveis ao velho mar

que em sendo velho parece ser sempre novo

Novo?

Perguntou mais uma vez a faceira formiguinha que tendo

percorrido todo o trajeto desde o jardim até

o formigueiro, depositou o seu troféu clorofílico

e pôs-se a pensar no que viria a ser "novo"...

A formiguinha pensava, pensava...

A vida dela era uma rotina: sair do formigueiro cedinho,

dirigir-se a algum jardim e, lá chegando, cortar e transportar

folhinhas (para ela eram folhonas) para o formigueiro

Não procurava pelo novo

assim como não lhe interessava as falsas primaveras

A terra escura por onde caminhava

não lhe parecia nova

Nem tampouco a gota d'água que lhe impedia o caminho

A chuva que caia e que doia como um soco?

Dona formiguinha não etendia o que havia de "novo"

nas pedras sujas de terra que encontrava pelo caminho

A bem da verdade continuava a não entender o que era

o tal do "!novo"

A tarde já ia caindo em vermelhos e laranjas

e o mar espelhava a mistura de ocaso e noite

que já começava a desenhar-se em sombras sutís

O sol já banhara-se nos ventos e se preparava para dormir

A formiguinha olhou para o sol e pensou:

amanhã ele estará no mesmo lugar e todas as demais

coisas do céu e da terra também estarão

em seus mesmos lugares

(---)

Vou-me embora, disse a formiguinha...

estou cansada

e recolheu-se ao conforto do seu formigueiro

A formiguinha adormeceu,

mas dormiu pensando no "novo"

E pensou tanto que sonhou...

sonhou com novas ilhas

sonhou com céus constelados

com a ventania, e teve medo

com a solidão e chorou tristemente

sonhou com o frio do inverno

e a beleza da primavera

e as anáguas azuis do céu

e sonhou com novas paisagens

e antigos desertos onde a vida foge

e as miragens que criam simulacros da vida que fugiu

Sonhou com louvas-Deus

de mãozinhas postas como quem faz uma prece

sonhou com borboletas que pousavam

nas flores da beira do rio

e que eram tão coloridas quanto queria

o sono da formiguinha

sonhou com a chuva caindo e ela se abrigando

sob as pedras sujas do caminho

A formiguinha sonhou... sonhou...

De manhã quando ela acordou

a formiguinha sentou na beirada da cama,

esfregou os olhos,

balançou os pezinhos no ar, feliz

o coração batendo irriquieto

e começou a lembrar dos sonhos

e quanto de emoção havia nas lágrimas

ou no riso que podem trazer os dias

e entendeu que, a bem da verdade,

o "novo" não estava nas coisas, mas, sim,

na alma e nos sentidos de quem vê as coisas

Sentia que não podia existir o novo para a alma velha,

para a mente velha

vestida de antigamente

Sentia que não poderia mais beber da sede

sem transbordar o cálice

Pela janela via o dia esplendendo lá fora

O sol estava em seu lugar no mundo

O riso e a lágrima também estavam em seus lugares

A natureza estava toda em seu lugar no mundo,

porém tudo sabia-se novo

No caminho entre o formigueiro e o jardim

várias florezinhas brotaram durante a noite

e também estavam em seus lugares no mundo

entre o pensamento e o ser

Os pássaros cantavam longamente, alegremente pela ilha

e a liberdade atravessava os céus

Aflorava a reinvenção da vida, o inédito

e ficava uma certa nostalgia

esperando a reinvenção dos olhos

e da atitude perante o novo

E a formiguinha dançou ao descobrir o que era o "novo"

Estremeceu ao observar como, apesar de toda uma ordem

pré-definida, o Universo tão vasto, como, ainda assim,

o mundo poderia ser do jeito que ela quisesse

Naquela manhã a formiguinha vestiu-se de toda a sua pureza

e foi cortar suas folhinhas, porém ia atenta a si para que

o passado e a falta de visão dele decorrente

não lhe limitassem e a impedissem

de ver o novo que há em todas as coisas,

e em todos os dias cheios de fins e começos

e que são novos na essência

e que cada ser possui a sua cosmogonia e o seu devir

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Canteiros



Minha casa não tinha jardim,

mas tinha um canteiro de flores,

colado ao muro,

onde a chuva que caia do telhado no quintal

respingava nas plantas o gosto imanente das águas

No canteiro havia

rosas rubras feito um soneto a um amor antigo

cravos brancos e as rimas rugosas

das suas pétalas

pequeninos pés de maria-sem-vergonha

multicores, pintadas pela luz macia das estações

margaridas de um amarelo pra vida inteira,

antúrios e suas flores fálicas

Tinha outras flores que ficaram pelo tempo

Outros tempos que ficaram neste rosto

que busca o passado do outro lado do espelho

nas lembranças, visitantes noturnas,

que me dizem coisas da infância

Nesta mão trêmula de agora,

Nestes olhos que quando olham olham o mar

e as praias ao crepúsculo tecendo cores túrgidas de sol e sal

e os passos na areia fofa que vão ficando como um sinete

do silêncio que me leva ao mar

e o ser fechado para a poesia

que tateando na escuridão ignota

faz das palavras

pássaros sem asas



Do canteiro e sua floração saiu a primeira flor

para a primeira namorada,

Enquanto entregava a flor,

a meninada na rua,

devagar, soprava

diáfanas bolas de sabão,

translucidas,

que o vento levava

até onde os anjos brincavam

com as crianças,

soprando-as,

com suas bocas sonhadoras

no ar azul da tarde bordada de sol,

perpassada de sonhos e de faz de conta,

onde brilhavam pequeninas gotas de chuva,

ornando a verde folha,

escorrendo pela pétala

reordenando, suavemente, a beleza da natureza



Nas noites sem lua a negra cortina escondia o canteiro

Noite sem estrelas,

só mantos de nuvens

onde a meninada construía os seus sonhos

e os seus medos e o medo do medo alheio,

noites imensas na escuridão,

longe da primavera

soprando a brisa vinda de um mar intangível

ondulando os lírios brancos

e as rosas em suas longas hastes

dentro de uma noite antiga a despedir-se



É preciso lançar os barcos aos mares

como as folhas que caem na correnteza dos rios,

e são levadas pela pureza dos anjos

É preciso o escuro da noite,

sem lua,

sem estrelas,

para ouvir as antigas vozes,

a primeira lágrima

de um antigo amor,

de uma nova saudade



É essencial cultivar os canteiros

e as palavras

que podem ser flores,

mares,

amores,

poesia,

pequenos gestos de amor

dentro de um amor imensurável

o azul e a sombra do azul,

o sonho que

dorme náufrago e anônimo na minha existência



É essencial cultivar os canteiros

e o inaudito murmúrio dos ventos.

o belo,

o encanto,

o indescritível

É essencial resgatar

a inefável alegria da infância



As manhãs, sejam azuis ou cinzas ou douradas,

caminham sem tempo que as tolham,

sem ruídos de agoras

trazem o canteiro da infância

e as flores vicejam

por entre as emoções que irrompem

somente no absoluto da poesia

inexprimível

como os ventos imponderáveis



No canteiro do meu quintal há flores no outono,

do outro lado do nevoeiro

por detrás de qualquer domingo

no qual se ouve ao longe uma flauta que toca

para nossos sonhos imaturos

sedentos de estesia

como o amor sedento de amor

omo o poeta sedento de um verso

meigo e suave

como o beijo de um colibri

como o sorriso de um palhaço

como o amanhecer que floresce nos quintais

das infâncias imperecíveis

e onde começa a infinda poesia
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