Lista de Poemas
Quando tu fores
Eu penso a dor que há de ser quanto tu fores
Quando o momento de partir crescer em mim
E o beijo que nunca foi dado rir-se do seu fim
Enquanto a voz grave do adeus cala as flores
As noites hão de ser constantes madrugadas
Caminhantes notívagas num céu adormecido
Por onde anda o vento frio, triste e esquecido
Murmurando passos quiméricos nas estradas
Ah! Quando em teus olhos a cor do céu fugir
Quando o mar em densas brumas me encobrir
E o meu olhar imerso em dor não mais te ver
Que o vento arraste as cinzas nuas da saudade
Para que o meu coração esqueça de te esquecer
E para que este amor faça-se em mim eternidade
Quando o momento de partir crescer em mim
E o beijo que nunca foi dado rir-se do seu fim
Enquanto a voz grave do adeus cala as flores
As noites hão de ser constantes madrugadas
Caminhantes notívagas num céu adormecido
Por onde anda o vento frio, triste e esquecido
Murmurando passos quiméricos nas estradas
Ah! Quando em teus olhos a cor do céu fugir
Quando o mar em densas brumas me encobrir
E o meu olhar imerso em dor não mais te ver
Que o vento arraste as cinzas nuas da saudade
Para que o meu coração esqueça de te esquecer
E para que este amor faça-se em mim eternidade
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Trago nas mãos estas águas
Trago nas mãos estas águas
que apanhei naquela fonte
onde deixei lembranças,
onde o passado persegue
o tempo que escorre das âmbulas
Lá ficaram os meus sonhos,
as horas que te amei
Ficaram saudades e ausências,
Ficou a voz da noite
entre estrelas e miragens
refletidas nestas águas
Nestas águas ficaram a palavra,
o poema insondável,
a lenta madrugada
e as derradeiras sombras e luzes
por onde perpassa a aurora
Trago nas mãos estas águas
e este medo persecutório
que me segue insone
desde a primeira hora
quando o sol se desespera
e reflete-se nas grades das
indecifráveis masmorras,
dos imponderáveis momentos
A luz do sol incedeia e vagueia
num dia que nunca tem fim
e que divide-se desde a origem
dos tempos subitamente abertos
pelo mar dobrado e pelas sonoras
ondas batendo guturalmente
nos rochedos
Trago nas mãos estas águas
e a noite prosaica,
e seus labirintos esbatidos
pela compacta penumbra
que flutua levada pelos ventos
murmurantes do outono
Trago nas mãos estas águas
e no olhar, acendendo-se,
uma nódoa de indiferença
que sopra enfunada como
a vela da soberba
Trago nas mãos estas águas
e nos lábios estas palavras
com as quais busco encantar-me,
com as quais fio meus dias
de extrínseca urdidura
Palavras...
Que são as palavras sem o
correpondente ato?
Que triste sina morrer-se
assim, lentamente, como
os olhos que avistam a
tênue manhã desdourando-se
entre o horizonte e o mar?
Trago nas mãos estas águas
como brasas ardendo nas
merencórias manhãs,
círios perenes acesos no
escuro das ânforas onde
escondi meu mundo incerto
e os sonhos feitos destas águas
que trago nas minhas mãos
que apanhei naquela fonte
onde deixei lembranças,
onde o passado persegue
o tempo que escorre das âmbulas
Lá ficaram os meus sonhos,
as horas que te amei
Ficaram saudades e ausências,
Ficou a voz da noite
entre estrelas e miragens
refletidas nestas águas
Nestas águas ficaram a palavra,
o poema insondável,
a lenta madrugada
e as derradeiras sombras e luzes
por onde perpassa a aurora
Trago nas mãos estas águas
e este medo persecutório
que me segue insone
desde a primeira hora
quando o sol se desespera
e reflete-se nas grades das
indecifráveis masmorras,
dos imponderáveis momentos
A luz do sol incedeia e vagueia
num dia que nunca tem fim
e que divide-se desde a origem
dos tempos subitamente abertos
pelo mar dobrado e pelas sonoras
ondas batendo guturalmente
nos rochedos
Trago nas mãos estas águas
e a noite prosaica,
e seus labirintos esbatidos
pela compacta penumbra
que flutua levada pelos ventos
murmurantes do outono
Trago nas mãos estas águas
e no olhar, acendendo-se,
uma nódoa de indiferença
que sopra enfunada como
a vela da soberba
Trago nas mãos estas águas
e nos lábios estas palavras
com as quais busco encantar-me,
com as quais fio meus dias
de extrínseca urdidura
Palavras...
Que são as palavras sem o
correpondente ato?
Que triste sina morrer-se
assim, lentamente, como
os olhos que avistam a
tênue manhã desdourando-se
entre o horizonte e o mar?
Trago nas mãos estas águas
como brasas ardendo nas
merencórias manhãs,
círios perenes acesos no
escuro das ânforas onde
escondi meu mundo incerto
e os sonhos feitos destas águas
que trago nas minhas mãos
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Seis sílabas
O sonho aflora e é estas lembranças solitárias,
chuva caindo sobre os versos,
sobre um rio imperecível,
sobre esta névoa furtiva que encanta os meus sentidos
como se o ar pudesse ser arte e círio e arder até o fim
Ninguém ouviu o ar arder na noite âmbar
Nada há nas luzes densas que devoram a noite
Nada há no vento onde se esconde o silêncio
Não há nada senão o teu nome no meu sonho
Teu nome que vivia em murmúrios nos meus lábios,
na minha saliva e na minha sede de ti
Virão inúmeras primaveras e verões antes
do impresssentido crepúsculo
e da tristeza das palavras
No amanhecer,
junto com o dia lasso e nu,
enquanto o nada sibilava no frio do quarto,
vindas de ti seis sílabas cospiam o cuspe
do descaso aceso pela indiferença
As palavras feriram,
pungentes
Podias tudo, menos ser a palavra dita sob a dança da mágoa
A tristeza consumia aquele final de primavera
que ainda sendo flores, já era solidão
frágil sépala inclinada a se esboroar
Quando será dia novamente se neste momento
a noite tocou-me a pele tornando-me escuridão?
Os segundos riscam as horas
com cacos de solidão
Uma a uma em uma outra noite será primavera
e o estrídulo silêncio falará das cintilações das manhãs
e de girassóis tão antigos quanto os versos que te fiz,
todos tão úmidos de sussurros
a molhar minúsculos silêncios
e os teus olhos de papel
Escuta, a tarde que ardia entre nós
e as nossas solidões mitigadas pela luz cinza
e calcinada que entrava pela janela
deixando o gosto amargo de um novembro
que caminhou irresoluto
para a precária e última eternidade
O sabor da chuva ficou no silêncio pisado
pelas palavras ressequidas,
pelas vituperações
que engoliram a ternura
e os dias iguais tornaram-se rotineiros
não fosse a imponderável poesia e os versos
e estas palavras que para além dos ventos
encontram sentido e companhia
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A chuva chora
A chuva chora e fia a tristeza
que escorre diáfana pela janela,
sem razão
Nina a minha vigília e a minha dor
e as minhas mãos cheias de inquietude
Molha o meu medo e a minha angústia,
molha o momento suspenso da tarde se desfazendo
O vento desliza na janela como lágrimas
de uns olhos imensamente meigos e belos,
uns olhos prometidos ao silêncio,
ao desconhecido
Pela janela olho o céu cingido ao cinza
do dia que envelheceu
A chuva,
transluzente,
chora,
escorre,
nina,
molha...
E, por fim, a vida, enredada nos passos molhados do dia,
entoa silêncios enquanto a chuva ressoa
na transparência do grito eternamente inaudível,
na transparência palpitante da chama do círio
aceso desde as origens dos tempos
Dentro da chuva a sombra se projeta no ar
e um vago sentir tristonho se dissipa no infinito
da névoa que esconde os passos serenos da noite que se
prenuncia ao peso e ao farfalhar do crepúsculo
A chuva cai como fogo e semente ardente
a encher de melancolia o instante vindo da infância
e de um tempo onde só havia
este sabor de barro
e a vida se desenrolando
nas janelas roídas pelas chuvas,
absorta e oscilante num mar de horas
cinzas como o céu do dia,
inefável como a chuva que chora nas janelas floridas
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Os pássaros cantam
Os pássaros cantam ao longe...
Como em todas as manhãs
os pássaros cantam...
ao longe,
nas nuas manhãs cinzentas
despertando a luz úmida
que sorve a fonte escura
do horizonte engolfado
em sombras emudecidas
A manhã pendura gotas
de orvalho e névoa
nas pétalas e nas folhas
das flores tocadas pela
brisa leve e sagrada
Da minha janela ouço
a vertigem do mundo
A vida freme melódica
de longos trinados
superpostos pelos
rumores do dia
coercivamente nublado
Da janela vejo as casas
que se amontoam nos morros
Casas verdes, amarelas, azuis
e seus telhados vermelhos e sozinhos
Em volta pedra e capim e árvores
dão cores ao dia sonolento
e abrigo aos pássaros que cantam ao longe
Crianças brincam na manhã
plena de eternidades
dissolvidas nos ventos
que se deitam no ziguezaguear
das pipas que colorem o ar
Tudo é fremente solidão e êxtase
neste domingo que é sonho
e metáfora das horas que restam
de uma vida inteira
Por entre as réstias de um sol
roído pela sombra
os pássaros cantam o verão
Como em todas as manhãs
os pássaros cantam...
ao longe,
nas nuas manhãs cinzentas
despertando a luz úmida
que sorve a fonte escura
do horizonte engolfado
em sombras emudecidas
A manhã pendura gotas
de orvalho e névoa
nas pétalas e nas folhas
das flores tocadas pela
brisa leve e sagrada
Da minha janela ouço
a vertigem do mundo
A vida freme melódica
de longos trinados
superpostos pelos
rumores do dia
coercivamente nublado
Da janela vejo as casas
que se amontoam nos morros
Casas verdes, amarelas, azuis
e seus telhados vermelhos e sozinhos
Em volta pedra e capim e árvores
dão cores ao dia sonolento
e abrigo aos pássaros que cantam ao longe
Crianças brincam na manhã
plena de eternidades
dissolvidas nos ventos
que se deitam no ziguezaguear
das pipas que colorem o ar
Tudo é fremente solidão e êxtase
neste domingo que é sonho
e metáfora das horas que restam
de uma vida inteira
Por entre as réstias de um sol
roído pela sombra
os pássaros cantam o verão
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Monólogos
Pelos milhares de anos do mundo
nascem os sóis e caem as tardes
e florescem as flores e se desvela
a lua e estrelas e os primeiros versos
quando alguém chorou e os olhos
beberam da primeira madrugada
Mananciais do Tempo sibilino
num jogo de luz e sombra
noites e dias
sim e não
Yin e yang
As noites trazem o mar da minha infância
e o incessante começo dos teus olhos negros
trazem tuas pequenas mãos para as minhas
Trazem verdades e mentiras,
Sombras abstraídas?
Palavras extintas?
Paradigmas?
Retórica vã?
Metáforas?
Como saber a resposta se, pensando em ti,
todos os caminhos são plausíveis, como um rio
que segue o seu curso por pura solidão?
Comove-me o caminho de volta pra casa,
escorre no meu rosto uma lágrima que o
vento há de secar
O vento talhou o espelho e ele já não reflete
os horizontes estáticos
nem a lágrima que cintila
O tempo está morto e cai gota-a-gota das
mãos trêmulas do viajante cativo da
ilusão de ser e do engano da permanência
A vida inteira é um instante sobreposto
a outro instante, a outro instante e mais outro...
Ad infinitum
A vida pulsa e se expande
Enquanto eu sorvo o pulsar dos meus dias
e me embriago com a solidão que me
acompanha como uma pele estanque,
rastilho das horas aceso na alma,
fazendo das noites um tempo acorrentado
aos ventos inauditos que sopram do mar
para a ilha quando o outono chega
trazendo lembranças e inquietações
É preciso recuperar os dias primordiais
É preciso vivenciar a vertigem de se estar só
Enquanto escrevo ouço os pássaros cantando
Meu coração se enternece com o canto dos
pássaros
Todo dia o mesmo inédito recital que vem
ressonante no silêncio hierático e fluido de
algum lugar no mundo encantado das aves,
de algum pedaço de céu onde a vida se
abastece de poesia
O canto dos pássaros é a vida insinuada
entre o horizonte e as nuvens baixas deste
dia nublado, deste dia onde a amplidão
toca o chão com as suas vestes de brumas
O firmamento verga neste reino de cinza
e sombra, de pó e alheamento
Meus sonhos, sejam lá quais forem os ângulos
pelos quais eu os veja, evocam a Beleza
e procuram o poeta latente que me desse de
beber e saciasse minha fome e transformasse
minha ânsia de estesia na Beleza que procuro
Busco palavras entre as folhas que o outono
derruba
Nas noites escorrendo sonhos e inquietações
Na primeira história, no primeiro livro, nas
minhas mãos de criança
Atrás das longas sombras inquebrantáveis
no istmo das palavras buriladas na argila
e nas lágrimas das paredes da casa da infância
Eu nada sei dos séculos que por mim esperam
Eu nada sei dos séculos pelos quais passei
Eu nada sei dos agoras e seus espelhos opacos
Há milhoes de anos a vida se manifesta em sua
triste ira complacente e sempre nova e sempre
inaudita ferocidade pungente
Eu nada sei da poesia e da estesia da poesia
e da estesia da vida
Nada sei deste instante precário e perempto
onde as palavras dissolvem-se antes de
chegarem ao texto
E no lugar destas palavras fica um arguto silêncio
ficam personas e máscaras nas faces temerosas
fica o tempo ignoto, faminto da mesma Beleza
e da mesma estesia onde me busco
Os pássaros calaram-se
Cai uma chuvinha miúda enquanto o céu vai
descendo ao encontro das copas das árvores
A tarde está cinza e os pássaros calaram-se
A vida escoa lentamente
numa ociosidade silenciosa
Não há brisa, mas está no ar esta inocência
e este pressentimento que tornam a vida e
seus mistérios insofismáveis
Olho para o livro aberto e não lido
Olho para a minha vida aberta e não vivida
Em qual página da minha vida eu parei?
Eu quero a rua de terra e os meus pés de lata
Eu quero de volta o sonho e a inocência que
perdi sem perceber
Quero a primeira luz do mundo
Eu quero a primeira flor,
o primeiro amor,
o primeiro beijo
Quero o teu colo, Pingo
e teus olhos de noites consteladas
e teus beijos como os de Eva no paraíso
Olho para o céu e suas anáguas cinzas
gotejando o sussurro da chuva miudinha...
Olho para o livro aberto sobre a bancada...
Tropeço no silêncio da tarde e no silêncio
do canto nimbado dos pássaros
A vida é menor do que a arte
A arte é eterna
A vida é provisória...
e cabe interinha no trilar dos pássaros
Nada sei!!!
Eu nada sei!!!
Não me esqueci de nada.
Eu simplesmente não sei.
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Manhã de domingo
Manhã de domingo
Dia nublado
A vida acorda sem o instante amarelo e menino do sol
Na rua soa a monotonia dos ruídos dos carros
a encobrir a vida e ignorar a barulhenta certeza
da sandice que o homem acalenta
O homo sapiens sapiens fere a cidade suprimindo o silêncio
e encobrindo a Voz imanente à Alma
E a cidade geme e explode e grita...
Um alarme dispara
para proclamar em voz alta a insensatez humana
Indiferentes à insanidade pássaros cantam
Nas árvores os pássaros aliam-se aos anjos, e cantam,
por que é de ser pássaro cantar
Em algum lugar um bem-te-vi
lança, súbito no ar, o seu mantra:
bem-te-viiii
Outros pássaros se manifestam,
cada um no seu idioma,
encobertos pelo ruído dos carros
São tristezas a vida nesta incessante
dicotomia,
nesta afronta plangente
onde a vida caminha para o ignaro fim
Em algum lugar da cidade nasce uma flor,
em um jardim?
Uma flor irremovível,
que alguém espera
Nasce a flor
e com ela nasce mais um verso
e quando a chuva cair o verso se fará poesia,
independente da ignomínia daqueles para quem
o amor e a poesia têm outra existência,
outro devir que não o de ser amor e poesia
Mas, a flor desabrocha,
por que é do sentido da vida da flor desabrochar
Flor de orvalho e eflúvios de estrelas
mais um acalanto de ternura dos poetas,
mais um milagre em busca do equilíbrio
Nasce a flor e o som da flor nascendo
confunde-se com o som do Universo
expandindo-se e contraindo-se
Há na vida e na morte expansão e contração
Nascer é fazer um pacto silente com a morte
e a cada instante a impermanência entoa, nua,
o cântico cego do tempo a passar indolente
após o giro da ampulheta,
após a intimidade do amor
Após o exílio silencioso da minha face na
candura do teu colo
e dos versos trêmulos
que leio de olhos fechados, com as pontas dos dedos
na manhã nublada de domingo
onde borboletas voejam aprendendo as flores
para apagar as noites crispadas pelo teu nome nos ventos
Os pássaros cantam sonora e comoventemente
compondo a claridade do verão
com a qual o Amor entrará pela minha janela
e o sol se fará
atado ao instante absorto dos meus olhos
(*É a poesia ficando repentinamente como a lembrança
da primeira noite em todas as outras noites...)
*Lêdo Ivo in Poesia Completa - 1940 - 2004
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Os dias parecem tão iguais
Os dias, esses pássaros amarelos,
parecem tão iguais
Parecem indiferentes ao bem e ao mal
os dias que nascem solitários
do outro lado do círio aceso da aurora
e da vida que se debruça à janela
Um vento leve leva as palavras,
sonolentas,
sem nehum destino
É cedo para que se diga
que a vida não vale nada
É cedo para se bater à Porta da Verdade
É tarde para se apagar o antigo nome,
o antigo e inelutável sonho
Os finais de tarde apagam-se em azuis
e dourados,
tendendo a vermelho,
mas nem por isso descuida-se do gesto
que, lentamente, trará a noite imensa
sob a sombra de uma folha,
sob o aroma dos lírios
A noite estilhaça o vítreo
incandescente das estrelas
e o céu, suspenso por cordões de marionete,
transborda de pontinhos úmidos de azul
e de eternidades
Pululam estrelinhas na noite
enquanto o poema espera
pelo sensível momento da flor,
da rosa que se desvela em arabescos
prateados pela ternura da lua
É cedo para dizer que a vida é um breve
e irremediável sonho inútil
que põe esta lágrima nos meus olhos,
deambulando pelas velhas ruas tímidas
e inauditamente tristes
É cedo para pedir à sina (esquiva) que
leve esta tristeza que me permeia
como o perfume de sândalo e de saudades
É cedo para tentar entender a fábula
contida no vento e no orvalho
que amanhece nas folhas e nas pétalas das flores
Viestes ver a manhâ que apascenta
as brancas nuvens tecidas em mármore?
Viestes ver a manhã amarela
e os campos onde sonham os girassóis?
À noite eram outros os sonhos,
densos e sincopados
Na noite retinta assomam os olhos
medievos
esquecidos no passado
A estrela cadente resvala pelo espaço
incendiando
o céu em seus rumores de brasas
calcinando o instante,
marchetando os sonhos
Faço o meu pedido, contundente como
o barro da infância,
inaudito como o murmúrio das noites
e o silêncio dos caminhos intangíveis
Só a estrela me ouve...
Ao meu pedido
e ao som
dolente da flauta que vinha
com as noites incertas e silentes
Só a estrela...
Em palavras de criança tudo pode ser pedido enquanto a estrela cai
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Uma fábula de ano novo
Ano novo
Novo?
Perguntou a dona formiguinha
ostentando entre as pinças
um folha bem verdinha
Ano novo... murmurou alguém
lembrando de anos passados
os olhos úmidos de ausência
a vida uma nau sem porto
e ano após ano os mesmos quereres de novo
Novo?
Perguntou novamente a formiguinha
que ainda seguia firme com sua folha verdinha
Os dias são tão frágeis
A vida um sonho efêmero
uma sucessão de instantes aleatórios
Incriados ventos escutai os
nomes escritos na areia por onde caminham
as ondas de passagem pela praia
e retornam inabordáveis ao velho mar
que em sendo velho parece ser sempre novo
Novo?
Perguntou mais uma vez a faceira formiguinha que tendo
percorrido todo o trajeto desde o jardim até
o formigueiro, depositou o seu troféu clorofílico
e pôs-se a pensar no que viria a ser "novo"...
A formiguinha pensava, pensava...
A vida dela era uma rotina: sair do formigueiro cedinho,
dirigir-se a algum jardim e, lá chegando, cortar e transportar
folhinhas (para ela eram folhonas) para o formigueiro
Não procurava pelo novo
assim como não lhe interessava as falsas primaveras
A terra escura por onde caminhava
não lhe parecia nova
Nem tampouco a gota d'água que lhe impedia o caminho
A chuva que caia e que doia como um soco?
Dona formiguinha não etendia o que havia de "novo"
nas pedras sujas de terra que encontrava pelo caminho
A bem da verdade continuava a não entender o que era
o tal do "!novo"
A tarde já ia caindo em vermelhos e laranjas
e o mar espelhava a mistura de ocaso e noite
que já começava a desenhar-se em sombras sutís
O sol já banhara-se nos ventos e se preparava para dormir
A formiguinha olhou para o sol e pensou:
amanhã ele estará no mesmo lugar e todas as demais
coisas do céu e da terra também estarão
em seus mesmos lugares
(---)
Vou-me embora, disse a formiguinha...
estou cansada
e recolheu-se ao conforto do seu formigueiro
A formiguinha adormeceu,
mas dormiu pensando no "novo"
E pensou tanto que sonhou...
sonhou com novas ilhas
sonhou com céus constelados
com a ventania, e teve medo
com a solidão e chorou tristemente
sonhou com o frio do inverno
e a beleza da primavera
e as anáguas azuis do céu
e sonhou com novas paisagens
e antigos desertos onde a vida foge
e as miragens que criam simulacros da vida que fugiu
Sonhou com louvas-Deus
de mãozinhas postas como quem faz uma prece
sonhou com borboletas que pousavam
nas flores da beira do rio
e que eram tão coloridas quanto queria
o sono da formiguinha
sonhou com a chuva caindo e ela se abrigando
sob as pedras sujas do caminho
A formiguinha sonhou... sonhou...
De manhã quando ela acordou
a formiguinha sentou na beirada da cama,
esfregou os olhos,
balançou os pezinhos no ar, feliz
o coração batendo irriquieto
e começou a lembrar dos sonhos
e quanto de emoção havia nas lágrimas
ou no riso que podem trazer os dias
e entendeu que, a bem da verdade,
o "novo" não estava nas coisas, mas, sim,
na alma e nos sentidos de quem vê as coisas
Sentia que não podia existir o novo para a alma velha,
para a mente velha
vestida de antigamente
Sentia que não poderia mais beber da sede
sem transbordar o cálice
Pela janela via o dia esplendendo lá fora
O sol estava em seu lugar no mundo
O riso e a lágrima também estavam em seus lugares
A natureza estava toda em seu lugar no mundo,
porém tudo sabia-se novo
No caminho entre o formigueiro e o jardim
várias florezinhas brotaram durante a noite
e também estavam em seus lugares no mundo
entre o pensamento e o ser
Os pássaros cantavam longamente, alegremente pela ilha
e a liberdade atravessava os céus
Aflorava a reinvenção da vida, o inédito
e ficava uma certa nostalgia
esperando a reinvenção dos olhos
e da atitude perante o novo
E a formiguinha dançou ao descobrir o que era o "novo"
Estremeceu ao observar como, apesar de toda uma ordem
pré-definida, o Universo tão vasto, como, ainda assim,
o mundo poderia ser do jeito que ela quisesse
Naquela manhã a formiguinha vestiu-se de toda a sua pureza
e foi cortar suas folhinhas, porém ia atenta a si para que
o passado e a falta de visão dele decorrente
não lhe limitassem e a impedissem
de ver o novo que há em todas as coisas,
e em todos os dias cheios de fins e começos
e que são novos na essência
e que cada ser possui a sua cosmogonia e o seu devir
Novo?
Perguntou a dona formiguinha
ostentando entre as pinças
um folha bem verdinha
Ano novo... murmurou alguém
lembrando de anos passados
os olhos úmidos de ausência
a vida uma nau sem porto
e ano após ano os mesmos quereres de novo
Novo?
Perguntou novamente a formiguinha
que ainda seguia firme com sua folha verdinha
Os dias são tão frágeis
A vida um sonho efêmero
uma sucessão de instantes aleatórios
Incriados ventos escutai os
nomes escritos na areia por onde caminham
as ondas de passagem pela praia
e retornam inabordáveis ao velho mar
que em sendo velho parece ser sempre novo
Novo?
Perguntou mais uma vez a faceira formiguinha que tendo
percorrido todo o trajeto desde o jardim até
o formigueiro, depositou o seu troféu clorofílico
e pôs-se a pensar no que viria a ser "novo"...
A formiguinha pensava, pensava...
A vida dela era uma rotina: sair do formigueiro cedinho,
dirigir-se a algum jardim e, lá chegando, cortar e transportar
folhinhas (para ela eram folhonas) para o formigueiro
Não procurava pelo novo
assim como não lhe interessava as falsas primaveras
A terra escura por onde caminhava
não lhe parecia nova
Nem tampouco a gota d'água que lhe impedia o caminho
A chuva que caia e que doia como um soco?
Dona formiguinha não etendia o que havia de "novo"
nas pedras sujas de terra que encontrava pelo caminho
A bem da verdade continuava a não entender o que era
o tal do "!novo"
A tarde já ia caindo em vermelhos e laranjas
e o mar espelhava a mistura de ocaso e noite
que já começava a desenhar-se em sombras sutís
O sol já banhara-se nos ventos e se preparava para dormir
A formiguinha olhou para o sol e pensou:
amanhã ele estará no mesmo lugar e todas as demais
coisas do céu e da terra também estarão
em seus mesmos lugares
(---)
Vou-me embora, disse a formiguinha...
estou cansada
e recolheu-se ao conforto do seu formigueiro
A formiguinha adormeceu,
mas dormiu pensando no "novo"
E pensou tanto que sonhou...
sonhou com novas ilhas
sonhou com céus constelados
com a ventania, e teve medo
com a solidão e chorou tristemente
sonhou com o frio do inverno
e a beleza da primavera
e as anáguas azuis do céu
e sonhou com novas paisagens
e antigos desertos onde a vida foge
e as miragens que criam simulacros da vida que fugiu
Sonhou com louvas-Deus
de mãozinhas postas como quem faz uma prece
sonhou com borboletas que pousavam
nas flores da beira do rio
e que eram tão coloridas quanto queria
o sono da formiguinha
sonhou com a chuva caindo e ela se abrigando
sob as pedras sujas do caminho
A formiguinha sonhou... sonhou...
De manhã quando ela acordou
a formiguinha sentou na beirada da cama,
esfregou os olhos,
balançou os pezinhos no ar, feliz
o coração batendo irriquieto
e começou a lembrar dos sonhos
e quanto de emoção havia nas lágrimas
ou no riso que podem trazer os dias
e entendeu que, a bem da verdade,
o "novo" não estava nas coisas, mas, sim,
na alma e nos sentidos de quem vê as coisas
Sentia que não podia existir o novo para a alma velha,
para a mente velha
vestida de antigamente
Sentia que não poderia mais beber da sede
sem transbordar o cálice
Pela janela via o dia esplendendo lá fora
O sol estava em seu lugar no mundo
O riso e a lágrima também estavam em seus lugares
A natureza estava toda em seu lugar no mundo,
porém tudo sabia-se novo
No caminho entre o formigueiro e o jardim
várias florezinhas brotaram durante a noite
e também estavam em seus lugares no mundo
entre o pensamento e o ser
Os pássaros cantavam longamente, alegremente pela ilha
e a liberdade atravessava os céus
Aflorava a reinvenção da vida, o inédito
e ficava uma certa nostalgia
esperando a reinvenção dos olhos
e da atitude perante o novo
E a formiguinha dançou ao descobrir o que era o "novo"
Estremeceu ao observar como, apesar de toda uma ordem
pré-definida, o Universo tão vasto, como, ainda assim,
o mundo poderia ser do jeito que ela quisesse
Naquela manhã a formiguinha vestiu-se de toda a sua pureza
e foi cortar suas folhinhas, porém ia atenta a si para que
o passado e a falta de visão dele decorrente
não lhe limitassem e a impedissem
de ver o novo que há em todas as coisas,
e em todos os dias cheios de fins e começos
e que são novos na essência
e que cada ser possui a sua cosmogonia e o seu devir
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Canteiros
Minha casa não tinha jardim,
mas tinha um canteiro de flores,
colado ao muro,
onde a chuva que caia do telhado no quintal
respingava nas plantas o gosto imanente das águas
No canteiro havia
rosas rubras feito um soneto a um amor antigo
cravos brancos e as rimas rugosas
das suas pétalas
pequeninos pés de maria-sem-vergonha
multicores, pintadas pela luz macia das estações
margaridas de um amarelo pra vida inteira,
antúrios e suas flores fálicas
Tinha outras flores que ficaram pelo tempo
Outros tempos que ficaram neste rosto
que busca o passado do outro lado do espelho
nas lembranças, visitantes noturnas,
que me dizem coisas da infância
Nesta mão trêmula de agora,
Nestes olhos que quando olham olham o mar
e as praias ao crepúsculo tecendo cores túrgidas de sol e sal
e os passos na areia fofa que vão ficando como um sinete
do silêncio que me leva ao mar
e o ser fechado para a poesia
que tateando na escuridão ignota
faz das palavras
pássaros sem asas
Do canteiro e sua floração saiu a primeira flor
para a primeira namorada,
Enquanto entregava a flor,
a meninada na rua,
devagar, soprava
diáfanas bolas de sabão,
translucidas,
que o vento levava
até onde os anjos brincavam
com as crianças,
soprando-as,
com suas bocas sonhadoras
no ar azul da tarde bordada de sol,
perpassada de sonhos e de faz de conta,
onde brilhavam pequeninas gotas de chuva,
ornando a verde folha,
escorrendo pela pétala
reordenando, suavemente, a beleza da natureza
Nas noites sem lua a negra cortina escondia o canteiro
Noite sem estrelas,
só mantos de nuvens
onde a meninada construía os seus sonhos
e os seus medos e o medo do medo alheio,
noites imensas na escuridão,
longe da primavera
soprando a brisa vinda de um mar intangível
ondulando os lírios brancos
e as rosas em suas longas hastes
dentro de uma noite antiga a despedir-se
É preciso lançar os barcos aos mares
como as folhas que caem na correnteza dos rios,
e são levadas pela pureza dos anjos
É preciso o escuro da noite,
sem lua,
sem estrelas,
para ouvir as antigas vozes,
a primeira lágrima
de um antigo amor,
de uma nova saudade
É essencial cultivar os canteiros
e as palavras
que podem ser flores,
mares,
amores,
poesia,
pequenos gestos de amor
dentro de um amor imensurável
o azul e a sombra do azul,
o sonho que
dorme náufrago e anônimo na minha existência
É essencial cultivar os canteiros
e o inaudito murmúrio dos ventos.
o belo,
o encanto,
o indescritível
É essencial resgatar
a inefável alegria da infância
As manhãs, sejam azuis ou cinzas ou douradas,
caminham sem tempo que as tolham,
sem ruídos de agoras
trazem o canteiro da infância
e as flores vicejam
por entre as emoções que irrompem
somente no absoluto da poesia
inexprimível
como os ventos imponderáveis
No canteiro do meu quintal há flores no outono,
do outro lado do nevoeiro
por detrás de qualquer domingo
no qual se ouve ao longe uma flauta que toca
para nossos sonhos imaturos
sedentos de estesia
como o amor sedento de amor
omo o poeta sedento de um verso
meigo e suave
como o beijo de um colibri
como o sorriso de um palhaço
como o amanhecer que floresce nos quintais
das infâncias imperecíveis
e onde começa a infinda poesia
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