Lista de Poemas
ANA
Se espalha como um câncer a memória que a muito tento esquecer:
Ela foi-se como uma brisa fria, ignorada pelos insetos em luzes de neon.
Tão pouco se soube sobre ela, como tão pouco se soube quando partiria...
Ela perdeu a vontade de tentar, a vontade d'insistir, a vontade de acordar.
__Acredito que o sono nunca foi tão bem-vindo para um viajante cansado
quanto a morte foi para ela...
Itamar FS
SER FORTE
Ser forte é mais que segurar o próprio corpo,
é ser capaz de abraçar a si mesmo,
mesmo sem sua camisa de força.
Itamar FS
CANSAÇO
Eu amo com todas as minhas forças,
mas eu não tenho força;
Eu sinto com todos os meus sentidos,
mas eu não tenho sentido;
Me salgo com todas as minhas lágrimas,
mas nunca houve um gosto -
É só cansaço, cansaço e cansaço!
Eu grito com todos os meus medos,
mas só eu escuto;
Eu peço com toda minha fé,
mas eu não tenho um deus;
Existo pra ocupar espaço,
porque eu já não vivo -
É só cansaço, cansaço e cansaço!
Mas nada fiz...
Itamar FS
PSICOGRAFIA DE UM EX SOFISTA
Não te alardes com o novo mundo
Tão transcendente, sem o Pseudoprumo
Que t'encontravas n'antropomorfismo.
Pensava eu: durar igual ao dólmen,
tão abstrato no espaço-tempo;
É só afago ao descontentamento
Ou silogismos das prisões do homem?!
Foi só na morte - esta mulher amarga -
Que da matéria receia-se e a apodrece
Em tudo, e dela não se escapa;
Que encontrei a minha forma inata
Na existência do EU, que excede
O próprio céu e inferno que herdara.
Itamar FS

LÁGRIMA
Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.
Outrora à âncora, comprimida e alenta,
demorava-se a brilhar encantadora.
Vai-se à beira do torpor da rubra face,
Maviosa, fenecida e sem alarde,
Salgar-te à memória, à dor do encrave,
Com seus fúnebres contos de saudade.
Embora tu, ausente do infirme eco do engano,
Possas pensar que basta a ti, um simples pano,
Para que o orvalho trivial possas secar; _
Vais abrandar, frigidamente, somente o tanto
que tuas mãos tão decadentes em seu pranto
poderiam tenuemente alcançar.
Itamar FS

O VERME
Roendo minha vida; na broca bruta
De sua fome insaciável, perco a luta,
E ofereço-lhe os olhos - Campeão!
Vencedor de todo homem! Embrião
Que cresce insone, surge abrupta
Como larva, logo nasce, absoluta,
E nunca, nunca morre - Solidão!
Dilacera minhas tripas, morde o fígado,
Faz seu ninho bacanal em meu pulmão,
E orquestras infernais em meu ouvido.
Sorve as artérias, deixa seco o coração;
E quando a noite, saciado, sai do ninho,
O canibal vem defecar em minha mão...
Itamar FS
À SOMBRA
Que luta para escapar das eternas sombras,
Mal sabe, pois, que nessas mesmas sombras
Descansará seu corpo tredo - vil Esciofóbico;
Da agonia do inevitável à podridão das horas...
Ah! A podridão, essa megera perfumada que beija-
Nos as mãos, as mesmas que com afinco arqueja
À salgar as bicharias com o festim das sobras...
Da decomposição fria da vazia alma...
Da cruel impassibilidade da arcária lágrima
Que se balança, tremula, pelas frestas oculares...
Descanse-mo-nos, sós, dessa vida amarga;
Sem luz, sem som, sem dor, sem nada,
No torpor etereal dessas perpetuas grades.
Itamar FS
PORTA- RETRATO
Nesse túmulo de madeira e vidro;
Desse exílio tenho o meu castigo:
Gritar, somente, ao meu própri'ouvido.
Cristalizado está o meu olhar,
Como um eclipse cegando o luar.
Herdando apenas um vago lembrar
De um passado presente - Abismo Vulgar.
Mas aceito a punição, ó meu carrasco,
Já que o preço do amor é o seu pecado.
Estendo-me sobre o caso e o acaso... :
_ Que seja minha cela seu porta-retrato!
Itamar FS
QUE EU POSSA, POR FIM, MINHA DOR ESQUECER
Atrofia, fatídico, o meu paralitico cérebro,
Sufocando-me à ruína do que sobrou de mim,
O tempo - baldia ciência - lei que define o fim:
_Aparta-me, logo, o SER, condane-me a Érebo!
Ah! Miserável existência - essência das odisseias -
Obriga-me a não te querer, porque eu te renego!
E afrontando-te, ao calor de tua trama, me entrego
Ao vazio do êxodo das nossas ideias...
Ah! Quando o grito ecoar na casca do que um dia fui:
Que não sobre memorias - razão para sofrer;
Que não reste mentiras - mal que à alma polui!
Que o manto insalubre me abrace e, ao fazer,
me liberte do inferno, que a larva conclui...
_Que eu possa, por fim, minha dor esquecer!
Itamar FS
ULTIMA DEIXA
Assim, um pouco mais do que já morri... ,
Que as pedras da infância, onde eu corri,
Permaneçam pra outros também correr.
E quando esses meus passos nunca dados
Percorrer aquelas ruas num cortejo,
Que as saudades guiem todo o solfejo
Dos choros sobejais dos encarnados.
Por fim, quando me porem no estrado
Para velar-me, à beira da velha capela,
E Chárõn ressurtir pra ser meu guia;
Que o Nada que eu tenho seja o pago;
Que eu fique para trás e, ao pé da vela,
Encontre meu final na lousa fria.
Itamar FS
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