Escritas

Lista de Poemas

(escrito numa tarde triste)

é pela identificação de princípios que gosto de ti
e até são os opostos que fazem sobressair esse princípio

ainda mais quando
é domingo
o mar galga a muralha
as cinzas subiram aos céus
e espreito a caixinha dos sonhos


Mar da Indonésia | Hengki Koentjoro
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Querer

À conta do intervalo estudado entre as palavras, aprendemos a conter a vertigem.
Repetir para aprender. Repetir para não esquecer.

O traçado da zona em que se aloja a intersecção do lastro da tristeza
com o leve da cortina de sorrisos que varre os dias.
Ficar assim.
A tocar nas estrelas que desenhámos a brilho dos olhos.
Sem pronunciar as palavras que dissemos antes.

Voltámos a pegar em tudo,
no nós imenso,
e guardámos na caixinha dos segredos.


Mário Cabrita Gil
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da falta de vocabulário

ando à procura do nome daquela película com que entremeias o triste dos meus dias e me proteges,
uma película que é como uma respiração que me agita os poros para saberem que têm vida e a seguir os faz sossegar,
uma película que é como um sopro lançado aos olhos e os faz sorrir,
feita de instante de beijo embrulhado em eternidade.

The anatomy lessons | Laura Makabresku
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epifania

fizeste-me recuperar as fadas de criança em que não acreditei, mas gostava
gostava por saber que não eram verdadeiras, ao contrário de ti, que não tens varinha mas és de verdades.
é a magia que vos une.
nas horas más, tu, tal como as fadas, sabes que há pelo menos um fio de luz.
é isso que importa.
não saberes onde mora essa nesga de luz, não diminui o quanto gosto de ti, que é muito. imenso.


Gravura com renda e bordado | Izziyana Suhaimi
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Geometria

Tinha tudo para o achar um homem banal. De uma banalidade desinteressante, especificou com gestos minuciosos dos dedos. Mas bastou apanhar-lhe um pedaço de ângulo melancólico na flexão do tronco, para o encher de importância.



James Bort

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brisa

aquela fatia de sol que guardaste todo o dia
até se transformar em folhas de vento
veio à noite
abanar os fiapos do meu medo-paralisia
que aos poucos se transformou no medo da fuga para a frente.
ama-se
(também, sobretudo, mais, menos, muito... o que for)
pelo todo percepcionado no detalhe.

medo há sempre.
mesmo quando não usa o vermelho sangue ou o negro.
o medo até se veste mais de cor-carne
para se passear por aí.



Billy Kidd
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Desespero

O maluco da ala psiquiátrica. A cada dois passos, um toque igual na bordadura de madeira da parede. Três dedos da mão direita, em perfeita sincronia.
Uma cadência para equilibrar os dias que têm horas e minutos.
Uma cadência próxima da rotina que é necessária para agarrar a familiaridade do tempo e do espaço. Dos que estão do lado de fora da psiquiatria. Às vezes por acaso.
E se ao maluco falhar a bordadura de madeira? Se ela desaparecer?
E se ao outro - a mim, a ti... - falharem os traços que conhecem?
O maluco não me sai da cabeça.


Eliza Kinchington

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διαλεκτική



um bocado bom que apanho de ti
- um bocado trabalhoso, mas muito doce -
está naquele interstício em que a construção se ergue dos pedaços que pareciam isolados.

a imagem é a da criança que
por gostar tanto do novo mimo
explora-o para o ver e sentir melhor.
depois, tira os dedos das reentrâncias do brinquedo e volta a ajeitá-lo,
para o ver e sentir melhor, de outra perspectiva.

a dialéctica entre o todo e as partes é uma constante
também no amor.



"The captive fish in its bowl and the open sea symbolize man who, being tied to earth, can never quite break free from matter, and who, while having intimations of a sublime world, is yet unable to immerse himself in it because he is trapped in his body." | Herbert List, Santorini, 1937

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Jardim

Desviara o candeeiro do mundo
para deixar a luz desenhar-me de ti.

A conjugação irrequieta das letras
que me derramas em palavras bem alinhadas
no altar de silêncio.

Como se fossem pétalas
essas palavras.
Lisas, sempre lisas.
Fortes, às vezes.
Cansadas, outras vezes.
Amplas, sempre amplas.

Aproximo-me da luz
para te beber melhor.
Provar as pétalas imensas
que soltas
que desenhas
que me dás
para erguer os dias.

Uma chama invisível nasce no peito...
Algo de bom espalhas
por essas vestes de pétalas.


Casa de Santa Maria | Cascais | 5 Outubro 2016

Pormenor de vestido de Agatha Ruiz de la Prada

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Recados

Não precisas de substituir o teu lápis de cor preta que me emprestavas para pintar as madrugadas. Estou a usar o cinza e o azul misturado com uma pitada de branco. Já experimentei hoje. Está a ficar bonito e o resto do preto ainda dá para o risco dos meus olhos.
Mas podes deixar o lençol negro, o de seda ondulada a mar. Para encher de ar, como se fora o peito de uma pomba orgulhosa, enfunada, a fazer-se velas de barco salpicadas de sol. À conta do teu lápis amarelo, este sim a precisar de substituição. Não vá faltar-te na primavera. De caminho, compra um saco de laranjas para desenhar o pôr-do-sol. Olha que têm de ser das gordas. Traz o pacote com as tuas estrelas mais brilhantes. E a lua? Pensa no que há-de ser para fazer a lua. Arruma o guarda-chuva e põe o regador a jeito.
Só falta uma coisa: retira o meu coração da barrela.


Assemblage | Joseph Cornell

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Comentários (1)

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davinci
davinci
2021-01-30

muito bom o seu poetar...