Lista de Poemas
(escrito numa tarde triste)

Mar da Indonésia | Hengki Koentjoro
Querer

Mário Cabrita Gil
da falta de vocabulário

epifania

Gravura com renda e bordado | Izziyana Suhaimi
Geometria
Tinha tudo para o achar um homem banal. De uma banalidade desinteressante, especificou com gestos minuciosos dos dedos. Mas bastou apanhar-lhe um pedaço de ângulo melancólico na flexão do tronco, para o encher de importância.

James Bort
brisa
medo há sempre.

Billy Kidd
Desespero
O maluco da ala psiquiátrica. A cada dois passos, um toque igual na bordadura de madeira da parede. Três dedos da mão direita, em perfeita sincronia.
Uma cadência para equilibrar os dias que têm horas e minutos.
Uma cadência próxima da rotina que é necessária para agarrar a familiaridade do tempo e do espaço. Dos que estão do lado de fora da psiquiatria. Às vezes por acaso.
E se ao maluco falhar a bordadura de madeira? Se ela desaparecer?
E se ao outro - a mim, a ti... - falharem os traços que conhecem?
O maluco não me sai da cabeça.

Eliza Kinchington
διαλεκτική
um bocado bom que apanho de ti
a imagem é a da criança que

Jardim
Desviara o candeeiro do mundo
para deixar a luz desenhar-me de ti.
A conjugação irrequieta das letras
que me derramas em palavras bem alinhadas
no altar de silêncio.
Como se fossem pétalas
essas palavras.
Lisas, sempre lisas.
Fortes, às vezes.
Cansadas, outras vezes.
Amplas, sempre amplas.
Aproximo-me da luz
para te beber melhor.
Provar as pétalas imensas
que soltas
que desenhas
que me dás
para erguer os dias.
Uma chama invisível nasce no peito...
Algo de bom espalhas
por essas vestes de pétalas.
Casa de Santa Maria | Cascais | 5 Outubro 2016
Pormenor de vestido de Agatha Ruiz de la Prada
Recados
Não precisas de substituir o teu lápis de cor preta que me emprestavas para pintar as madrugadas. Estou a usar o cinza e o azul misturado com uma pitada de branco. Já experimentei hoje. Está a ficar bonito e o resto do preto ainda dá para o risco dos meus olhos.
Mas podes deixar o lençol negro, o de seda ondulada a mar. Para encher de ar, como se fora o peito de uma pomba orgulhosa, enfunada, a fazer-se velas de barco salpicadas de sol. À conta do teu lápis amarelo, este sim a precisar de substituição. Não vá faltar-te na primavera. De caminho, compra um saco de laranjas para desenhar o pôr-do-sol. Olha que têm de ser das gordas. Traz o pacote com as tuas estrelas mais brilhantes. E a lua? Pensa no que há-de ser para fazer a lua. Arruma o guarda-chuva e põe o regador a jeito.
Só falta uma coisa: retira o meu coração da barrela.

Assemblage | Joseph Cornell
Comentários (1)
muito bom o seu poetar...
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