Escritas

Lista de Poemas

Aperto

Se estivéssemos aqui
amparávamos a amargura dos dias
rijos, cansados e desfeitos.

Dias nossos
apanhados nas margens
estanques, assépticas e doridas
do tempo que não se faz.


Arno Mikinnen

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e os esquilos?

a manhã pespontada a pensamentos que se estendem como braços para ti.
as palavras e as contas do poeta a lembrarem os desalinhos infantis
de uma brincadeira traçada a jogo de adivinhas no teu lindo lençol de seda negra
e deslindada em folhas brancas.
deslindada em lindas folhas brancas!
tuas e minhas.
um desfecho amparado em sorrisos tem sempre começo dentro.

no tempo pespontado a pensamentos que se estendem como braços para ti
sei melhor que o longe de ti é geografia pura,
em que a porção de acidentes físicos não é relevante para hierarquizar o difícil.

há longe e há distância, sim.
já te tinha dito que o richard bach não sabia tudo
e que era preciso inventar um novo mundo.


Dominique Issermann






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Delonga

E foi na camada intermédia do mar que forra a cidade
que bebeu o ondulado da timidez a adoçar-lhe a figura imponente
onde encaixara o olhar perdido
difícil de segurar.

Veio estender-se na praia
à espera de o encontrar.
Os olhos perdidos em grãos de timidez costumam fazer cama nos interstícios dos dias.



Belleza Spark | Série: Saying 'no' sometimes is 'ok'

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Degusto-te

Provei o amargo.
Após muitos rectângulos de palavras entre as duas janelas.
Não sei como aconteceu.
Apenas não sei a parte do momento exacto do amargo chegar, porque da sua confecção já me alertaras para a possibilidade de estar a tratar dela a preceito.

Ao provar, descobri que o amargo não tem sempre a mesma cadência e anda a diferentes velocidades.
Soube disso quando o meu amargo se levantou cansado e atirou comigo para o campo árido da prostração.
Até me pareceu que o ácido do amargo com raiva, que eu não sinto, mas que calculo ser agitado e sempre a abrir, causa menos estragos. Solta-se melhor, é isso.

O amargo sabe mal, mas não é necessariamente mau.
Digo eu.
Disseste-me tu.
'O amor é uma loucura sensata, um fel que sufoca, uma doçura que conserva', diz o poeta.
'Sabe amargo el licor de las cosas queridas', diz a canção.

O doce e o amargo aprenderam a jogar taco-a-taco.
Só chamamos por um ou por outro perante a fragilidade do adversário.

Gosto-te no (des)equilíbrio discreto e inquietante entre os sabores.
Ensinaste-me.
Sei que aprendi.
Percebo-me nunca habituada.


Katia Chausheva

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convento

escolheste a quase metade que tem mais sol e deixei-me ir.
ainda bem!
mais fácil encontrar o fio bom que liga o sorriso acanhado ao lado inteiro do bem.
e que bem o vi!
apesar das abóbadas em sequência imensa de cachos de ninhos.
os arcos são pedaços de abraços.
contámo-los antes de descansar.


Kollerová via a girl who tried to disappear
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Clareza

Se eu tivesse que escolher uma cor para as tuas palavras seria o cinza.
Não pelo negrume da tristeza. Bonito, esse teu negrume, sabias?
Seria pela calma. É isso. Pela calma que me trazes às margens das manhãs ou das tardes.
Conforme a inclinação do sol.

As tuas palavras só não têm a cor branca porque não as descobriria nesta folha.
Mas são brancos, esses bordados de luz que te escorrem entre os dedos.


Aráquem Alcantara

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albus


comi de vontade as duas tijelas de calma que me obrigaste a engolir sem saberes que me forçavas.
uma de manhã, outra à noite.
como os medicamentos.
houve um branco que me subiu,
que não sei se foi o caldo da incerteza a abanar o meu edifício que eu dizia ser de pedra e cal,
ou se foi uma inundação de paz a tomar conta dos meus poros.
não sei se a paz é branca, como se diz.
mas sei que às vezes é preciso caiarmo-nos de branco por dentro
para voltar a colocar as partículas sacudidas de pó e livres das teias de aranha.
assim parecido com a primeira limpeza grande que se faz na primavera, antes das maias.
limpar, limpar
pintar, pintar
para voltar a vestir
roupa lavada e cachos de flores.
giestas, madressilvas, rosas silvestres.
até os folhados. bem cheirosos e resistentes
que só conheces os maias? não é verdade!
pelas grinaldas com que me enfeitas, percebo bem que sabes das maias.


Jeanloup Sieff
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palavras-cor


o desenho já não me chega.
o desenho das palavras já não chega para te dizer
como se movimentam os peixes no mar
como as gaivotas sobrevoaram o pedaço da muralha na hora da notícia do exame mau mas as novas foram boas e por isso cantaram (aquele friso branco da escadaria a combinar tão bem com paz)
o quanto gostei das quase lágrimas, aquelas à beirinha, que me chegaram quando vi o poema deitado na seda negra (ficou bonito!)
como me comovem ainda os dias
que das leis do universo continuo sem saber e a deslumbrar-me
a grafia até nem chega para te dizer o quanto gostei de te dar o chocolate para substituir o que deixaste derreter e não foi nada por não o querer para mim.

é por isso que ando a escolher com devoção as cores para encher as palavras que te desenho.
descubro os tons que aplico a cada fiada de letras e invento aguarelas de mesclas.
mesclas de
sons
flexões de músculos que fazem expressões
texturas de pele
cheiro a maresia
olhos com pinceladas de tristeza (os olhos bonitos têm de a ter, à tristeza)
e até mesclas de sabor a canela, que é descobrimentos, leite-creme (o meu), lábios macios e a ilha que inventaram na quinta para nos rirmos dos enjoos da tempestade. sim, o camões bebeu muito, mas não foi só por isso.

como me comovem ainda os dias
é para pintar com que cores?


Bordado | Katerina Marchenko

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Curativo

Ensaiei uma tela para o lugar da que perdeste.
Com as ligaduras.

Lavei-as bem
estiquei-as ao sol
e pu-las a comer a goma que fiz.

Vai servir-te quando descobrires as tintas que também largaste
por aí...
Ou talvez estejam distribuídas pelas gavetas do homem do divã...
É que nem sabes daquela bem cremosa com que pintavas o ondulado do lençol negro de seda.
A dos cambiantes. Para evitar a obscuridade, brincavas.

Depois de espreitar as gavetas do homem de olhar fundo, quase mau,
(- sabes que ao Dali lhe deu para as pintar, às gavetas? -),
com as ligaduras
ensaiei velas de barcos
para largar
por aí...

Daria Endresen

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|Sus|Penso

Desenhaste-me sorrisos com as palavras que tão bem sabes pintar.
Os meus sorrisos, que não são nada fáceis de arrancar, ganharam comprimento para bater à tua janela. Queria que me ajudasses a fixá-los nos contornos da minha boca. Foi o que te pedi enquanto calçava as meias de que mais gostas. Uma carta que sofre de quebras de tensão e que queria equilibrada com a tua sensibilidade e lucidez.
Não sei o que fizeste aos lápis de cor.
Não sei o que fizeste às aguarelas novas.
Não sei o que fizeste à tela que te comprei.
Temi não poder saber se continuavas a respirar. Temi não poder confirmá-lo.
Não se morre só da carne, dos ossos e do coração que decide parar. Também se morre pelas borboletas que deixaram de voar há duas noites.
Com os dedos, tatuámos um acordo. Nos dias em que quisermos escorrer doçura, abriremos a porta do borboletário. Para que a maior, a belbellita de asas de veludo negro e pintas vermelhas, possa treinar o voo nas entrelinhas do nosso passeio.







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Comentários (1)

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davinci
davinci
2021-01-30

muito bom o seu poetar...