Lista de Poemas

HUMANO, APENAS

A mim é suficiente as minhas próprias mãos, os meus próprios pés;
viver o que me é possível perceber sem questionar a veracidade de sua realidade,
sem saber se meu corpo e minha alma são ou não uma única coisa.

Quanto às parcelas no fim do mês, dá-se sempre um jeito.
Mas o peso do mundo, esse é insuportável,
esse deve, sempre que possível, permanecer externo e alheio.

Sou homem, sou humano, e é isso que quero ser, cada vez mais.
Retirei de mim toda pretensão divina e toda amizade celestial,
em nome da simplicidade de se saber animal humano, bicho homem que sou.
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MONISMO

Assento, num instante, sobre a poltrona acolchoada, o corpo.
O desconforto dos meus ombros diz mais sobre mim do que tudo o que proclamo,
ainda assim, proclamo.


Fumo, não para acalmar a mente, mas para ocupar as mãos.
Não preciso me acalmar, mas preciso muito ocupar as mãos inquietas,
sedentas por te acariciar os seios como quem redige versos,
sem passado nem futuro, nem nexo ou seriedade.


Minhas mãos, digo... meu corpo todo, quer o instante,
quer findar no instante o absoluto sentido de ser, e nada mais.


Por isso, devoro meus alimentos saudáveis como quem alimenta a alma,
crendo, ainda que forçosamente, no poder supremo da alimentação saudável.


Bebo vinho como quem verdadeiramente saúda a Dionísio, ainda que Dionísio não haja.


Inspiro o ar puro ante o rio, crendo também estar limpando meus pulmões.


Ora, engana-se quem pensa não haver razão no ato de crer descrendo.
Não, não estou iludindo a mim mesmo ou fugindo do peso dos dias reais.
Estou, na verdade, fazendo de mim mesmo o mundo todo,
e o mundo todo de pretenso poeta de versos tão subjetivos,
que nem mesmo o eu-lírico é capaz de compreender, 
senão de dizê-los.


Por fim,
entre a maçã e a meditação há tanta semelhança, 
que quase faço dos monges do monte, por mim desconhecidos,
uma bela e doce salada de frutas.
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O amor é tudo aquilo que dele temos dito

O que é o amor? 


Por tanto tempo tratamos do assunto como um enigma profundo,

Como uma pergunta capciosa e delicada,

No entanto, tenho afirmado com o afinco dos deuses:

O amor é tudo aquilo dele temos dito.


Incansavelmente tecemos palavras para expressá-lo,

E os maiores filósofos e poetas decifraram-no em verbos e pronomes,

Tanto e tão bem quanto o cidadão comum.


Acerta em cheio o alvo especialmente o enrustido,

Que destila seu ódio e pragueja o amado.

Porque o amor e o ódio não são opostos como nos ensinaram os linguistas.

O amor está para o ódio como a melancolia está para a beleza,

E a melancolia e a beleza estão para o amor como como a luz está para as flores.


E tudo isso que temos dito do amor, é amor.

E também tudo o que temos mal dito,

E calado.


Tenha feito o bem ou o mal,

Ou nenhuma destas coisas,

Toda criatura que uma vez amou 

Sabe, mais do que tudo,

o que é o amor.

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Nunca li um livro

Nunca li um livro. Nunca sequer me dei ao trabalho de abrir um livro. 

A materialização do pensamento é sua derrocada, 

O pensamento livre, quando materializado, deixa imediatamente de ser o que é, 

Para se tornar a interpretação alheia de quem acha e pensa, 

Mesmo que o leitor e o escritor sejam a mesma pessoa.

Mas, quando falo, falo de mim: eu, que materializo o que penso.

Mato-me, ao fazer isso, para saciar a sede de ser… compreendido? 

Mas que há de ser compreendido, se o que penso não é lógico nem figurativo? 

É o vir-a-ser único daquele instante em que algo foi pensado e ali mesmo deixa de ser.

E quanto ao sentido? O sentido é para os filósofos e cientistas! 

Mas eu não leio livro nenhum, porque não quero saber do sentido. 

Para inventar sentido basta o maldito Édipo: 

Cria-se uma besta que se transforma em pílula. 

Dá-se ao fluxo dos desejos uma razão de ser e, com isso, uma pretensa resposta. 

Quando aprendi a escrever, desaprendi como se sente. 

Sinto com o pensamento e, por isso, condiciono o que sinto a o que sou capaz de pensar. 

O pensar fez de nós homens, e ser homem é ser falso por excelência. 

Todos os homens são falsos, principalmente os filósofos e os poetas. 

O filósofo ou poeta que diz acreditar em uma única palavra sua, mente, 

Mesmo que disso não saiba. 

Porque ser homem é não saber mais o que se sente, 

É fingir o tempo todo para si mesmo e para todos. 

Os cães conhecem a única verdade possível: 

A verdade de estar sendo o que se é sem saber o que se é,

Atendem pelo nome não porque pensam ser aquele seu nome, 

Mas porque o nome os conduz. Ou não.

Em seguida já não lembram que um dia foram chamados pelo nome.

“Mecanismos. São mecanismos. São instâncias, instintos, vontade”. 

E mais uma vez nos vemos necessitados de palavras. 

Todos os falantes são fingidores. 

Os que escrevem mentem em dobro, triplo, quádruplo, 

Mas não podem não fazer isso. 

Como escapar, então, de fingir? 

Como escapar do que se é? 

E quanto a este verbo grotesco: “ser”? 

O verbo é útil: designa uma espécie de constância unitária no espaço e no tempo. 

Mas escrevem-no com a primeira letra maiúscula: “Ser”. Assim como escrevem “Vontade”. 

Que Diabo há de ser mais Sutil e Fatal do que as Palavras? 

Eu sou eu e tenho uma história única: por causa disso sei eu o que sou? 

Não pensem que isso me aflige. 

Estou revoltado, 

Estou imerso em um fluxo de pensamento que, por ser fluxo, não deixa de ser pensamento,

E que, por ser pensamento, é linguagem, 

E que, por ser linguagem, é fingimento.

Finjo mais uma vez ser o que não sou, porque não sei quem sou. 

E por usar as palavras “sei” e “sou”, já não posso ser mais nada, 

Senão o decorrer dos meus versos a cada instante desvanecidos.
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O PROFETA

O profeta crê na significância de suas palavras,
E canta o amanhã com grande voz.
Repete sermões como quem sabe da vida,
E sobe aos mais altos montes.

Mal sabe o profeta que para cada palavra sua,
Uma vida se esvazia,
Uma outra se inicia.
Uma em cárcere se esvai,
Outra o ego acaricia.
Uma sonha sem saber,
Que em sonho acabaria.
Outra desiste de ser,
Mas ainda assim seria.
Uma canta pela noite,
Outra chora pelo dia.
Uma clama a Oxalá,
Outra clama à Mãe Maria.
Uma trabalha no mar,
Outra na lavanderia.
Uma quer dançar,
Outra não se atreveria.
Então, pra facilitar,
Ao profeta eu diria:
Deixa a grandeza pra lá,
E vem ver essa magia.
A vida é de quem faz,
E não de quem anuncia.
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SOBRE SER APENAS O QUE NÃO SE PODE NÃO SER

Com a alma inerte e a pulsão de criação atrofiada, passam-se os dias como meros efeitos necessários uns dos outros, como mera expressão da causalidade intrínseca ao comportamento dos inanimados. O que se sucede dos meus atos me é alheio e distante, e o que me atinge de fora me toca com absoluta suavidade. Não me queixo, contudo; apenas relato a sensação de passarem os dias como fossem horas e as horas como fossem dias. No entanto me abala o, ainda que sonolento, profundo desejo de extrapolar minha condição de estaticidade e sentir as árvores, os pássaros e as pessoas ao vê-las, ter a sensação vívida de que as coisas existem e de que eu existo, e tudo é absurdamente real. Sentir como fosse a primeira vez que, como estranho, embebedo-me com extrema facilidade com a beleza das coisas. Mas penso que não ver a beleza é consequência necessária do hábito necessário de estar aí, a película protetora da existência. Enquanto devaneio sobre uma vida que não tenho e que pretensamente penso ser possível, mais horas e mais dias continuam passando mecânicos e monótonos, e a passagem me faz mais velho. Mais tarde, tantas horas e tantos dias haverão passado, que já não haverá mais tempo para levantar da cama confortável do destino e, morrendo, não haverá sequer arrependimento do fato de que uma vida única e finita, foi vivida como se vive o ato de piscar os olhos ou de mexer os braços, como mera consequência de atos afogados no líquido amargo da necessidade, sem qualquer divindade ou magia que trouxesse a ela algum brilho.
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ESCREVO

Escrever por haver um problema
Ou escrever por escrever
Ou escrever por não saber fazer outra coisa
Ou escrever por falta do que fazer.
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Frequentemente me basto.
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ALHEIO

Convivo, no momento, com um peso.
Nada do que faço, nada do que desejo,
Vem de mim, de fato.
Vejo-me aflito, por me querer,
Mas desejar o alheio.

Acordo pensando em ti...
Que café sem gosto! Que notícia triste!
Caminho me mal-dizendo.
Me deito pensando em ti...

"Alerta-te!": alerto-me.
Ah como tenho me detestado!
Quero amar a mim de novo!
Devolva-me o sabor do meu café!
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SER FELIZ

Ser feliz,
Um sentimento intenso,
ou uma consciência bem alocada?
Uma folha ao vento,
ou uma viga bem fundada?
Um querer viver em transe,
ou em calma?
Uma impossibilidade do corpo,
ou da alma?
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