Nunca li um livro
Nunca li um livro. Nunca sequer me dei ao trabalho de abrir um livro.
A materialização do pensamento é sua derrocada,
O pensamento livre, quando materializado, deixa imediatamente de ser o que é,
Para se tornar a interpretação alheia de quem acha e pensa,
Mesmo que o leitor e o escritor sejam a mesma pessoa.
Mas, quando falo, falo de mim: eu, que materializo o que penso.
Mato-me, ao fazer isso, para saciar a sede de ser… compreendido?
Mas que há de ser compreendido, se o que penso não é lógico nem figurativo?
É o vir-a-ser único daquele instante em que algo foi pensado e ali mesmo deixa de ser.
E quanto ao sentido? O sentido é para os filósofos e cientistas!
Mas eu não leio livro nenhum, porque não quero saber do sentido.
Para inventar sentido basta o maldito Édipo:
Cria-se uma besta que se transforma em pílula.
Dá-se ao fluxo dos desejos uma razão de ser e, com isso, uma pretensa resposta.
Quando aprendi a escrever, desaprendi como se sente.
Sinto com o pensamento e, por isso, condiciono o que sinto a o que sou capaz de pensar.
O pensar fez de nós homens, e ser homem é ser falso por excelência.
Todos os homens são falsos, principalmente os filósofos e os poetas.
O filósofo ou poeta que diz acreditar em uma única palavra sua, mente,
Mesmo que disso não saiba.
Porque ser homem é não saber mais o que se sente,
É fingir o tempo todo para si mesmo e para todos.
Os cães conhecem a única verdade possível:
A verdade de estar sendo o que se é sem saber o que se é,
Atendem pelo nome não porque pensam ser aquele seu nome,
Mas porque o nome os conduz. Ou não.
Em seguida já não lembram que um dia foram chamados pelo nome.
“Mecanismos. São mecanismos. São instâncias, instintos, vontade”.
E mais uma vez nos vemos necessitados de palavras.
Todos os falantes são fingidores.
Os que escrevem mentem em dobro, triplo, quádruplo,
Mas não podem não fazer isso.
Como escapar, então, de fingir?
Como escapar do que se é?
E quanto a este verbo grotesco: “ser”?
O verbo é útil: designa uma espécie de constância unitária no espaço e no tempo.
Mas escrevem-no com a primeira letra maiúscula: “Ser”. Assim como escrevem “Vontade”.
Que Diabo há de ser mais Sutil e Fatal do que as Palavras?
Eu sou eu e tenho uma história única: por causa disso sei eu o que sou?
Não pensem que isso me aflige.
Estou revoltado,
Estou imerso em um fluxo de pensamento que, por ser fluxo, não deixa de ser pensamento,
E que, por ser pensamento, é linguagem,
E que, por ser linguagem, é fingimento.
Finjo mais uma vez ser o que não sou, porque não sei quem sou.
E por usar as palavras “sei” e “sou”, já não posso ser mais nada,
Senão o decorrer dos meus versos a cada instante desvanecidos.
A materialização do pensamento é sua derrocada,
O pensamento livre, quando materializado, deixa imediatamente de ser o que é,
Para se tornar a interpretação alheia de quem acha e pensa,
Mesmo que o leitor e o escritor sejam a mesma pessoa.
Mas, quando falo, falo de mim: eu, que materializo o que penso.
Mato-me, ao fazer isso, para saciar a sede de ser… compreendido?
Mas que há de ser compreendido, se o que penso não é lógico nem figurativo?
É o vir-a-ser único daquele instante em que algo foi pensado e ali mesmo deixa de ser.
E quanto ao sentido? O sentido é para os filósofos e cientistas!
Mas eu não leio livro nenhum, porque não quero saber do sentido.
Para inventar sentido basta o maldito Édipo:
Cria-se uma besta que se transforma em pílula.
Dá-se ao fluxo dos desejos uma razão de ser e, com isso, uma pretensa resposta.
Quando aprendi a escrever, desaprendi como se sente.
Sinto com o pensamento e, por isso, condiciono o que sinto a o que sou capaz de pensar.
O pensar fez de nós homens, e ser homem é ser falso por excelência.
Todos os homens são falsos, principalmente os filósofos e os poetas.
O filósofo ou poeta que diz acreditar em uma única palavra sua, mente,
Mesmo que disso não saiba.
Porque ser homem é não saber mais o que se sente,
É fingir o tempo todo para si mesmo e para todos.
Os cães conhecem a única verdade possível:
A verdade de estar sendo o que se é sem saber o que se é,
Atendem pelo nome não porque pensam ser aquele seu nome,
Mas porque o nome os conduz. Ou não.
Em seguida já não lembram que um dia foram chamados pelo nome.
“Mecanismos. São mecanismos. São instâncias, instintos, vontade”.
E mais uma vez nos vemos necessitados de palavras.
Todos os falantes são fingidores.
Os que escrevem mentem em dobro, triplo, quádruplo,
Mas não podem não fazer isso.
Como escapar, então, de fingir?
Como escapar do que se é?
E quanto a este verbo grotesco: “ser”?
O verbo é útil: designa uma espécie de constância unitária no espaço e no tempo.
Mas escrevem-no com a primeira letra maiúscula: “Ser”. Assim como escrevem “Vontade”.
Que Diabo há de ser mais Sutil e Fatal do que as Palavras?
Eu sou eu e tenho uma história única: por causa disso sei eu o que sou?
Não pensem que isso me aflige.
Estou revoltado,
Estou imerso em um fluxo de pensamento que, por ser fluxo, não deixa de ser pensamento,
E que, por ser pensamento, é linguagem,
E que, por ser linguagem, é fingimento.
Finjo mais uma vez ser o que não sou, porque não sei quem sou.
E por usar as palavras “sei” e “sou”, já não posso ser mais nada,
Senão o decorrer dos meus versos a cada instante desvanecidos.
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