Lista de Poemas
Morabeza
ao Soares e Roberto,
porque a mizade pode ser eterna...
Sentado no tempo observo o dedilhar
De cada som esbelto e irreverente decorando
Aquelas silhuetas envoltas em mil sombras
Tão profilácticas... tão telepáticas
O chorinho vai e vem até o por do sol onde
Embebedo palavras trajadas de amor e paixão
Clonadas na amizade tecidas na mais pura
Maresia ondulando, ondulando até à exaustão
A tarde caiu de mansinho e de solidão
Em solidão as ilusões agigantam-se pelo
Poente nutrido com caricias tão bem aferidas
Perfumo cada verso encorpado de rimas
Ardentes deixando na noite vultos de nós
Embalando o culto do amor remido e diligente
Frederico de Castro
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Halo do silêncio
Assento-me naquele lamento
Deixo em detrimento do tempo
Um silêncio cativante em deferimento
Suaves e celestiais acasalamentos fluem
Pelas ilusões que acolá estremecem
Em intermináveis fragmentos
Aos sons serenos cantam ecos sonolentos
Deixando vespertinos cânticos delirando em
Tantos pas de deux em descarrilamento
E enquanto na alma gemem e choramingam
Aveludados silêncios de arrependimento, ilumina-se
O halo da solidão enclausurada neste sentimento
No cinábrio dos tempos brilha a luz espasmódica
De tantos, tantos beijos de entretenimento, carcomidos
Pela hora já adiantada que envelhece sem consentimento
Frederico de Castro
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Curvas e contra curvas
Murei a curva das minhas memórias
Aboli do coração histórias idas, rigorosamente
Distorcidas mascando do calendário, anos,
Dias, horas tão enfurecidas
Revivi no tempo existências que foram ressarcidas
Bebi da solidão ferozes lamentos mapeados
Nos nossos seres subjugados em palavras
Amáveis e bem amadurecidas
Vadiam duas rectas paralelas até se unirem-se no infinito
Deixando um maiúsculo e matemático beijo cartografar
O desejo contido em cada algébrico silêncio mediático
Recorto da noite seus contornos sensuais e carismáticos
Até que o dia irrompa mais profiláctico saudando o rito
Dos amores deambulando no jardim de um prazer galáctico
Frederico de Castro
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Brisas extasiadas
Oprime-me este silêncio bravio
Abandonado numa espessa hora
Tão mortal...quase fatal
No casulo da minha solidão soletro uma
Rima flamejando tão incendiada, até que
Irrompa uma esperança deveras sempre aliada
Num instante se perfumam nossas almas
Carentes, inebriadas pois de um taciturno
Desejo almejo tuas caricias chegando extasiadas
Fico à varanda da madrugada contemplando
A luz esmorecida e doce desertando pelos ecos
De uma manhã tão clarividente irrompendo saciada
A paisagem agora reluzente explode aliciada
Por tantas brisas contagiadas pela luz que
Perpassa, ígnea, suave...complacente e anestesiada
Frederico de Castro
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Boulevard dos sonhos desfeitos
Nos limites do tempo corre uma hora
Milimetricamente solitária
Aninha-se entre os seios desta minha ilusão
Temperamental...quase hereditária
Remo mar afora e fico à mercê de muitas ondas
Ancoradas no galeão das saudades defuntas
Destino ou rota de mil memórias vagando
Pelo dossel do tempo obviamente tão fecundo
Vou pelas boulevards do mundo lajeando
Meu silêncio magmático até que se pavimente
De vez o cordato e eflúvio sonho tão cabalmente
Sob o manto da noite rastejam lamentos ou sussurros
Vagabundos quase reaccionários vestindo o corpete
Destas lágrimas pinceladas com desejos mais solidários
Frederico de Castro
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Realidade paralela
Acomodei-me a este silêncio que foge numa
Nesga de tempo deixando no receituário da vida
Dois cálices desta solidão bem dirimida onde depois
Me embebedo qual doido varrido
Pousou aos ombros da noite esta realidade
Paralela consolidando toda a escuridão quase
Tridimensional, para esta angustiante partida
Num poente deambulando acolá tão extravagante
Deixei a noite fragilizada, em cacos
Caminhei pelos últimos degraus desta ilusão
Quase bárbara e ultrajante, antes mesmo que
A madrugada feneça nesta hora vazia e relutante
São só mesmo um punhado de lamentos esquecidos
Encurralados à silente escuridão onde se aquartelam
Dois centímetros de um silêncio muito apetecido ou a
Génese da amizade que resguardo mais que enternecido
Frederico de Castro
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Horizontes infinitos
Sobe pela haste da noite um breu
Quase ignominioso
Transforma cada sombra num
Belo pas de deux tão plumoso
Deambula pelo horizonte infinito
Alimentando o dialecto das paixões
Corporizadas numa onda bolinando
À deriva deste oceano mais audacioso
A madrugada bêbeda e solitária vomita
Na rua desejos tão causticantes
Deixa entre parenteses aquele beijo unificante
E rogado numa caricia sempre provocante
Descansam no sudário da minha solidão
Tantos sinuosos lamentos, malgrado esta
Inesperada saudade carcomida por remorsos
Lícitos, contagiantes, desesperadamente pujantes
Frederico de Castro
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Olha a onda...
Que parte para o infinito estatelando-se
Ao comprido e depois elegantíssima, deixa
Seu marulhar desenrolar-se tão apaixonadíssima
Olha a onda...
Que vai e vem de mansinho até
Arrotar a solidão que se espraia circunscrita
Pelas entranhas da alma sempre proscrita
Olha a onda...
Fiel e inspirada convertendo cada
Verso no verbo amar fecundando
Todos os desejos e caricias a sublimar
Olha a onda...
Que de longe, muito longe desfalece e
Por fim, no estuário do tempo perfuma cada
Gota de silêncio além revolto e aprumado
Olha a onda...
Enamorada e embevecida bordando nas suas
Margens a noite vestida de luares tão legitimados
Até que o dia irrompa solene, festivo e consumado
Olha a onda...
Palmilhando léguas e léguas deste imenso mar
Deixando na maturidade da vida uma bênção que
Flutua na maternal e tão excessiva saudade abismada
Olha a onda...
Que nos rodeia com impropérios purificantes
Deixando no açude do silêncio cada píncaro
De ilusão reverberando tão, mas tão gratificante
Olha a onda...
Que gota a gota fecunda o leito dos amores
Mais refrescantes desintoxicando aquela anónima
Memória que este verso baptizou assim quase sufocante
Olha a onda...
Ardente e perpetuamente magnífica, tão concludente
Afogando-nos numa esplendorosa caricia nupcial
Qual feroz brisa rugindo num murmúrio sempre passional
Olha a onda...
Rugindo tristíssima, envergonhada mas digníssima
Clamando quais açoites nesta noite que ainda pranteia
E todo silêncio mais que possesso assim escamoteia
Frederico de Castro
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Aqui, num lugar distante
Em estado de graça ficou a madrugada
Depois de uma noite conjugada com as mais
Fiáveis caricias quase coaguladas
Regresso para agasalhar a noite que treme de
Frio e desolada...aqui num lugar distante onde
Deixo no alpendre da alma a vida recostada no
Mais fiel verso que soluça qual gargalhada bajulada
Regresso àquele lugar distante onde pernoito recostado
Num leque de aromas tão apaixonáveis, despindo pétala a
Pétala esta ilusão que mora em mim vergada...em reclusão
Imanando da sedenta paixão tantos beijos em plena comunhão
Em qualquer lugar do horizonte me perderei deixando
Que as manhãs ali transpareçam intocáveis e travessas
Até que o amor sedimente estas minhas palavras confessas
Frederico de Castro
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No limite da noite
Na extremidade do silêncio pernoita
Um eco preso a uma gotícula de luz
Tão meteórica...mais que feliz, quase eufórica
Deixa na arena da escuridão uma palavra
Gladiando cada subtil caricia em festejo
Num drible de rimas que nem mesmo eu antevejo
Sobrenatural a solidão chega de mansinho deixando
Todos os gemidos aquartelados neste sensual
Silêncio luxuriante e muito flagelado
No limite da noite deixo de lamber aqueles lamentos
Onde outrora me alucinava refastelado com beijos vindos
De uma lúcida insanidade quase rebelada
Vou digerir no limite da noite uma recordação fantástica
Deixando no escaparate da vida a cronologia de muitas
Gargalhadas intemporais...sempre tão laboratoriais
Imune ao ignoto tempo que vagueia em cada hora senil
Atulho nas memórias esta fiel ilusão desmazelada clonada
No putrefacto momento de solidão quase acotovelada
Frederico de Castro
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