Escritas

Lista de Poemas

Total de poemas: 6 Página 1 de 1

Ela

Ela
tirou-me das mãos a bússola
algemou-me o olhar
com seus olhos verdes
esmeralda de cio
Ela
lançou-me ácido sulfúrico
com a cintura fina
e rabo assassino
que de tão excitado
derreti-me
Ela
tinha línguas de fogo
a sairem-lhe do peito
trazia o vento na boca
incendiou-me
Ela
como uma puta que passava
ouvi a culatra retráctil
deu-me um tiro
deixou-me estendido
a esvair-me em sémen
na rua da imaginação
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Cona Lisa

remove o medo do corpo
confia em mim serei
meticuloso jardineiro 
tratarei do teu 
íntimo vergel bravio

abre-te como se fosses um livro
como se fosses Les Fleurs du Mal
e eu te fosse avidamente
ler, ler, ler, ler, ler

confesso-te sinto
um prazer mórbido
quando faço a tua intimidade
não és bonsai bem sei
não sou sensei mas sou
quem ávido te deseja
quase besta animalesca

serás a minha obra prima
serás a minha Cona Lisa
verás melhor depois de tudo
serás a Górgona que
tudo petrifica quem a olha
de frente ou de lado

vejo-te hesitante no rosto
folha indecisa trémula 
de choupo sossega, Medusa
a água quente chegará
gemes já do jacto vigoroso
o estímulo nesta fase é valioso
a espuma ajuda neste ofício
a lâmina fria na mão
raspo, raspo, como é bela
como pulsa, como é tórrida
como é mágica, como é vida
como
gemes novamente, folheio
o livro aberto
com saliva deslizo
como um trenó na neve
minha Cona Lisa
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Na praia

Sinto a tua falta
de fazer-te sombra
e silêncio

que céu azul este
que mar aquele
sou espectro que navega

a aurora boreal
masturbou-se
tingiu a noite de cor

é assim que te vejo
fogo de artifício
onde estou inteiro

ao meu lado a frescura
do lençol
a solidão a vir-se

os teus lábios
estavam no sonho
sufocavam-me

cerro os olhos
encontro teu corpo
nácar das conchas

tens o delírio
das algas e limos
molhados e líricos

que incêndio houve
depois da língua
tornar-se intrusa

as dunas são nada
não têm refúgios
nem esconderijos doces

as tuas palavras
os teus comentários
o calor das coxas

são sonhos desfeitos
na espuma das horas
salgadas do mar

não podia levantar-me
levantei-me ao sol
petrifiquei de ti

quando a maré sobe
recuo. Um dia serei
o mar e tu as rochas
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A Uva

a uva tem no interior
a suavidade igual à tua
quando a como 

faço-lhe um corte incisivo
divido-a em dois
enteso a língua

e rigoroso removo
a semente amarga
tornando-a nua

às vezes enfio um dedo
sabendo que a uva
aprova que a perfurem

é igual a ti a suavidade
o veludo molhado
fenda cor de rosa

pressiono para ter
o esguicho do sumo
da uva na boca
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Os dedos

os dedos trabalham
os dedos estimulam
pressionam orvalham
flagelam mergulham

enfiam-se dentro
se encontram buracos
apertam mamilos
alisam didácticos

os dedos salivam-se
perfuram escavam
penetram no fundo
subindo as escadas

os dedos procuram
langor perfumado
no ponto vibrantes
os dedos alargam

os dedos exploram
cavernas e grutas
encharcam exaltam
tacteiam o escuro

os dedos provocam
os dedos saturam
os dedos fodem
os dedos graduam

mais dedos se abrem
esgravatam perfuram
cobrem-se os dedos
de húmidas flores

os dedos dedilham
fervilham por dentro
vibrando nas cordas
no fundo mais fundo

os dedos enfiam-se
nos recônditos sítios
entrelaçam-se, chupam-se
trazem-nos o gosto

os dedos escrevem
versos obscenos
frases lascivas
da intimidade
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Dido Erótica

A pele de luar, a túnica translúcida
saía-lhe das coxas a orquídea molhada
um tecido nas pétalas de esparsas gotículas

o pudor metia-o de lado, estimulava-se
de íntimas carícias femininas que, só elas
sabem onde lhes caberá melhor o prazer,

através dos carinhosos dedos mágicos
agitando as águas ou atiçando o fogo
com dedos no vértice da vagina

há grutas e segredos que só as mulheres
conhecem, perfumes marinhos perfumam
o ar de fragrâncias doces, o sangue o suor

na dança Dido erótica de pele primaveril
sob o lençol branco inundado de luar
como impregna o ar de húmidos delírios

como se enrola e desdobra como se enfia
sentindo-se mulher, fêmea luzidia
transforma-se em luz repelindo a treva

da sua boca a sincopada melodia
cardíaca, remexendo lagos de sangue
perde-se no orifício estreito conhecendo-se

mima-se de graça, chove-se de cor
parece andar ali um ser invisível, excita-se
agita-se, toca-se, mexe-se, sufoca-se

espelho dos gestos, a noite decorativa
as sombras espalhadas no chão moveram-se
bruxuleando, como a vela que ela atiçava

de seios acesos, remexia lânguida o Sul
molhando-se no vergel morno e húmido
é quase dia, é quase tempo de a aurora abrir-se ao sol
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