Lista de Poemas

.. ... . . ............?

vou em direção à cozinha, na sala, eu paro, atônito, por que toda essa inconstância? apesar de tudo, do que faço, dos meus hábitos, da minha tendência ao flerte obsessivo, quereria eu ser um homem de uma só mulher, viver para uma mulher só, o que pensou vinícius? o que pensou Augusto de A moreninha? o que pensaram todos os inconstantes no amor? a psicologia me aconselha a resignificação, encontrar causas ocultas como, se o psicólogo for freudiano, a de natureza sexual, se não for, provavelmente isso advém da observação daqueles modeladores da sociedade: os pais, que também não têm culpa. vi traições, sim, eu te amos ditos na pressa, abraços frígidos, beijos hipócritas. a inconstância, tida na periferia como traição, e, na elite, como liberdade, só pode ser natural. o homem nasceu pro instável, ele nasce, cresce e todos os verbos seguintes para os quais trabalham a filosofia e os bêbados de uma sábado à noite ou os melancólicos de um domingo macilento. destarte, por que me preocupo em ser o que minha natureza não permite que eu seja? em uma hora, todos os amores acabam? é difícil pra qualquer ser humano chegar a essa conclusão, por isso falam que amor é decisão? que decisão é essa que vai de encontro à minha vontade?

paro, olho para parede, um quadro com duas figuras impassíveis, com pele lisa de uma amarelado diarréico, sem brilho algum, um paletó azul que encontrou a oportunidade rara de se mostrar, um colar e brincos dourados petulantes em dar brilho ao esmaecido cenário, lábios cerrados, não tenciono discorrer sobre interpretações da linguagem corporal, que, à primeira vista, mostra uma mulher contida, retida, vítima de seu tempo, um homem contido, também vítima do seu tempo, não se engane. ele se curva para longe da mulher, ali há o retrato dos meus bisavós, sim, eles que são exemplos da longevidade de uma relação romântica. eles, que nao me sorriem, que me encaram, buscando, na minha alma, fragilidades, e encontrando, é óbvio. não se saciam só com isso, buscam jogar-me na parede, vasculhar meus pensamentos, invadir meus fetiches e minhas idiossincrasias no amor. o que querem? falem! o que buscam em mim? viveram bem, estão imortalizados, num quadro que não representa, na verdade, vocês, não, nada, esse quadro não diz nada sobre vocês, mas diz sobre nós, nós, nós, porque não só sou eu, você, leitor, também é e se preocupa, luta contra isso, seja na vida profissional ou sejam nos focos pessoais e íntimos, se escandaliza com um quadro desses porque é o que você não é, nunca será constante, você amará, se convencerá que é aquela pessoa, se justificará dizendo que sim, mentirá para si mesmo por conveniência, ah, 'é possível se amar com constância', 'cada caso é um caso', ou qualquer cartilha aprendida com gurus de relacionamentos de redes sociais, blogs pobres de conteúdo de valor ou mesmo a partir de um espírito introspectivo e opiniático que pensa que é capaz de analisar o homem, a partir de uma observação acurada . não falo isso com pedantismo, apesar de aparentar ou com a intenção de humilhar, falo como ser humano, contenho em mim a mesma matéria prima que você, certo é que depois te moldaram o você e o não-você a partir daí, mas não muda tanto, há mudanças de humor, pode ser mais extrovertido do que eu, mas continua inconstante e busca,  com livros de auto-ajuda, com textos de feed, livros banais com palavras difíceis, ou se enclausura em si msm e fica cheio de si msm, como se fosse importante e detentor de alguma verdade que não seja a mediocridade. eu não sou tudo isso por acusar quem eu não conheço? sou, isso invalida tudo que disse? isso demove a verdade? tem mais semelhanças do que diferenças, leitor(a).
portanto, eu execro esse quadro, cuspo-o, afasto-me do que ele representa, entrego ao q sou.
meu bisavô morreu 10 anos antes da minha avó que morreu de velhice, esquecendo-se de mim, gerados dessa relação: 10 filhos, dentro os quais, três morreram de mortes naturais, uma se tornou freira, outra tem alzheimer e o restante se perdeu.
por que essa crescente adoção de relacionamentos abertos, menáges e outras práticas sexuais que antes eram vistas como imorais? ah, você se convenceu de que é possível ser saudável e amar desde que se faça em comum acordo e não haja nenhuma insegurança de ambas as partes, porém não veem que essa é a sintomatologia de nós. liquidez, inconstância, 'é o fim dos tempo', pouco me importa o nome atribuído, vai amar na esquina e, na outra deixar de amar, e a vida não é reta e só tem três quarteirões, o resto são voltas e voltas, há também, em cada esquina, quadros do passado, quadros do seus bisavós, eles vão te acusar, suporte-o e siga ou quebre o quadro.

eu quebro, tomo cuidado para não me cortar com os cacos, sigo pra cozinha, me olho no espelho, início um monólogo insignificante, desses que não fazem sentido, mas preenchem o silêncio, mudei bastante, bastante.
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único esperançoso 1

nunca amei
vi que muitos também não
e não é fácil perceber quando se sente
não há um aviso
um alarme ou uma voz robótica dizendo:
'A-go-ra, vo-cê es-tá a-man-do'
a tecnologia do amor ainda é defeituosa
então quando se sabe?
pessoas maduras dizem ' quando estou confortável e bem ao lado da pessoa'
 ou 'amor é decisão…eu decido amar'

pra mim,nada disso
e pretendo aqui expressar o que penso sobre ele

amor é construção,cujos elementos ou a ordem deles não são conhecidos
é certo que não há padrão nesse assunto
o 'eu te amo' pode muito bem surgir depois daquele sorriso tímido e espontâneo com olhos rútilos que damos quando pensamos em quem amamos em potencial


amor é um obra com mais de um construtor, às vezes com mais de dois(os ditos 'colaboradores')
não se sabe bem quem põe o primeiro tijolo
ou qual tijolo é suficiente para tornar a obra completa e pronta
(a construção acaba?)
Há quem diga que o primeiro tijolo é o 'vamos tomar algo?' 

há amores que param no meio,sem teto,apenas com os alicerces…há amores que nem nascem: fica apenas o terreno,sobre o qual caminham vários andarilhos do universo romântico ou os urubus do amor,aqueles que se aproveitam da fragilidade de um sem-teto recente 

há amores que são levantados na chuva de um dos construtores
importante lembrar: se não houver sol sobre os construtores, a casa não cresce

os alicerces não são suficientes
são o mínimo
e o que são eles?
confiança,respeito,transparência e responsabilidade
ai,se isso bastasse pra amar…
há algo a mais
e isso varia de casal pra casal
aqui entra a autenticidade e a personalidade de cada amor

a construção nem sempre segue uma mesma velocidade
no início, o desejo de estar perto é absoluto
tudo flui facilmente
as risadas tem o mesmo som
os olhares se encontram e conversam
há períodos,no entanto,de neblina,a obra para
nesses instantes,há de se ter coragem pra
construir em meio a trovões
a decisão e o racional devem prevalecer
só não se pode deixar tudo parado pq,senão,o demolidor,o tempo,age

em todo desabrochar do amor,o poder corrosivo do tempo está sempre presente:
amar é lutar contra o efeito natural da desconstrução

amores têm janelas
não para serem invadidas ou para um dos amantes fugir,apesar de acontecer bastante
janelas,na verdade, são feitas para contemplar o que está em volta,pra respirar,pra observar sua casa anterior,
com o fito de não ser cativo do próprio amor

um amor sem janela é uma doença asfixiante
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único esperançoso 2

dar um tempo é construir anexo à casa
um cantinho em cima com bastante cupim
como é de se esperar,quanto mais tempo se permite estar assim, mais corrosão se tem no todo
portanto,dar um tempo é condenar a casa à demolição lenta e trágica

importante é saber que a casa,depois de um tempo, só cresce quando outro amor nasce
não há expansão sem um terceiro amor
a expansão é extensão
e aí que as janelas e as portas devem ser aumentadas
a contemplação se torna mais constante e repetitiva,assim como a respiração(ufa!)
esse outro amor é fruto
não é segundo andar
é ampliação
porque amores não se sobrepõem
não competem
são bolhas que,ao se unirem, engrandecem


não amei
mas cada vez mais conheço sobre a engenharia do amor
espero que nós todos possamos ser melhores construtores
acredito que ainda levantaremos monumentos pra essa entidade indefinível
até lá,que nos prepararemos e que busquemos os materiais dentro de nós mesmos…dentro do nosso amor-próprio.
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à melancolia

visto-me,dia a dia,da melancolia
é minha roupa
minha bebida gelada que bebo sedento
ela não é luz nem escuridão
mas só penumbra
e é na penumbra em que ocorrem as melhores coisas:
a leitura gostosa e sôfrega de um bom livro,a qual se arrasta noite à dentro, e o balbuciar silente dos corações amantes
na meia luz,o luar resplandece,caído em paixões,fazemo-nos homens,mulheres,2,3 e até 4,talvez,num desejo maciço e perene.
sem dúvidas,as delicias da vida se aninham no colo melancólico da penumbra, o qual gozo como animal esbaforido
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segunda geração romântica

Na madrugada, ela aparece com voz suave e manhosa,
dá-me um beijo gélido e funebre e diz-me 'acompanha-me'
Eu te sigo por entre uma névoa com tua mão na minha. Sinto nos pés uns pedregulhos, logo depois um capim bem aparado. Percebo que quer me levar ao próprio túmulo. Reluto, porém é mais forte que o meu medo.
Dorme comigo hoje, meu preto - ela me fala com voz maviosa nunca ouvida.
Olho-a escandalizado, sem palavras. O único gesto que faço é de me abaixar e de me envolver com meus próprios braços numa posição fetal ao que ela se aproxima por trás.
Sinto novamente a mão dela na minha nuca. Ela beija-me o rosto e diz:
Lembra-se de que você me matou naquela noite sem lua? Acho que mereço mais uma noite contigo.
Entrego-me. Nunca a senti tão quente naquele abraço ao dormirmos, nunca seu beijo foi tão excitante, nunca me senti tão compreendido e amado. Senti arrependimento e tesão.
Amanhece. Retorno à casa. Encontro minha atual esposa.
'Será que se eu matá-la, vou poder viver o regozijo do princípio? O que tem na morte que afasta os momentos ruins e que acolhe o que gerou a felicidade?'
Dou 3 machadas.
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ósculo

ela sabe que vai beijar, mas não se espera por beijo
apenas acontece, e o inesperado o define
beijo é surpresa
forçoso é dizer que é uma conquista
porque conquista pressupõe luta 
e beijo é dança
a apreensão, a dilatação pupilar, a mão nervosa e até suada sem rumo, perdendo-se nas costas, encontrando-se na nuca, tamborilando um bom pagode no corpo dela...a falta de sintonia inicial ou o encaixe perfeito, a música ao fundo emoldurando os dois,
a intimidade conquistada no beijo, aprofundada na língua e finalizada no selinho com os olhos grudados, devorando um ao outro
bukovski estava certo: o beijo, às vezes, é até melhor que s*x*
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carta que encontrei 1

O amor platônico é aquele vivenciado à distância, porém, com a proximidade, ele se arrefece e se torna fria. Amores frios não existem. Então como algo pode ser e não ser? A resposta é que não é. Impossível, você bem sabe, que não existe algo que seja verdade e mentira. Então amores platônicos não existem? Então que nome dou a esse sentimento que intensifica meu amor por ti? Que nome dou a isso que, caindo um cheiro específico no meu olfato, desperta-se uma memória que sempre, mas sempre, gera as mesmas atitudes em mim: meu braço, como num desmaio, descola do meu corpo e, mole, cai sem que eu note; minha boca abre uma fenda, através da qual, lanço suspiros rítmicos que mais parecem um assobio melodioso; meu queixo se ergue acompanhando minha cabeça a confrontar o teto, perdida, como minha mente. Assim se segue. Acho-me depois de uns instantes, a tentar saber qual pensamento me ocupava antes de ser dominado. É ditoso ser tomado pela tua presença, mas tudo tem um limite, e preciso me concentrar. 
Voltando ao que estava falando, já me perdi, olha só?! Pois então, que sentimento é esse, se o amor platônico não existe ou é paradoxal? A palavra 'saudade' vem a sua mente. Mas será mesmo? A saudade, por acaso, é prima ou irmã do amor ou existem amores sem saudades? Amores desapegados são desapegados da saudade? Ou dela são íntimos? 
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