Escritas

Lista de Poemas

PASSEANDO À BEIRA MAR


As estrelas estão lá
Apesar do céu nublado
Escondidas sobre as nuvens
Com vergonha de você
Salpicam a areia da praia
Tentando se duplicarem
Para verem se ofuscam
O brilho do seu olhar
Algumas mais afoitas
Fingem cair adentro ao mar
Só para desviar a atenção
Quando te veem passar
A lua se rendeu e te serviu
De holofote na ribalta
Focando seu caminhar
Na noite à beira mar
O sol vem todo dia
Dourar sua pele macia
E resplandecer quando você
Escancara seu sorriso
Rendem-se astros e estrelas
Aos seus encantos de sereia
Desfilando na areia
E banhando-se no mar
Rende-se o próprio mar
Que amansa suas águas bravias
Só para fingir ser rio a desaguar
E de alguma forma te abraçar
Se mulher ou entidade
Curvam-se às suas vontades
O céu, a terra e o mar
Odoyá Yemanjá
(Nane-18/03/2015)

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ENTRANHAS EM DESASSOSSEGO


Quisera ser indiferente
À tua indiferença
Mas esse desassossego na alma
Incomoda...
Quisera arrancar você de mim
Como a um dente careado
Que faz falta por instantes
E depois é esquecido e substituído
Quisera tanta coisa impossível
Que já nem sei se quero mais
Já que nada mais faz sentido
Nos quereres que eu quisera
Quisera não ter um passado
E começar tudo do zero
Apagar todas as letras
E reescrever minha poesia
Resta-me apenas o ato
De amassar os meus papéis
E jogar fora minhas rimas
Nos versos que te fiz
Resta matar a poesia
Antes que ela me mate
Num surto desesperado
Das entranhas que quisera...
(Nane - 23/03/2015)

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ÁRVORE


Mascaro a brandura
Na casca dura que me reveste
Por não saber me entregar
Por não querer me estragar
Cada escolha é minha
E a consequência também
O sorriso represa a lágrima
Que afoga sonhos natimortos
Quando ousei sonhar
Vi o pesadelo tomar forma
Recolhi meus sonhos
E me vesti de casca
Feito árvore cascuda
Que pinga seiva na ferida
Fincada por sobre raízes
Assumo escolhas
O fruto nem sempre é bom
E a semente nem sempre frutifica
Árvore exposta aos raios
Que a tempestade trás
Mascaro a madeira de lei
No coração forjado à canivete
Na casca grosa de um tronco
Carapaça dos meus anseios
(Nane-23/03/2015)

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O PIADO DA CORUJA



Cansada no meu cansaço
Surto a cada anoitecer
Quando pia a coruja
Um piado de mau agouro

O copo ainda cheio
Espuma acima do dourado
Subindo bolinhas borbulhantes
Embora quentes, num canto

Os dedos estalados a todo instante
Dançando num teclado sem grafite
Sabendo o lugar exato de tocar
Sem ser preciso olhar

Ouvindo o lamento no quarto ao lado
Enquanto as palavras salpicam na tela
Buscando um sentido qualquer
Na cabeça aparvalhada de cerveja

A brasa consome o dorso
Enquanto os dedos seguem inquietos
Aguardando o comando
Pensante e desordenado

Misturam-se as dores
Cabeça e tronco
Na frente e atrás
Enquanto os dedos deslizam

Ditam as palavras
A cerveja e o cigarro
Interrompe o pensamento
O triste lamento

Poesia inacabada
Nascida na hora errada
Abortada no peito inflado
De tanta inquietude

Nem a merda do futebol
Dá vazão a pressão
De como acabar as estrofes
Engasgadas nos gargomilos

E esses dedos inquietos
Teclando a esmo
Tentando poetizar
O que a cabeça não consegue rimar

Cansada no meu cansaço
Sem conseguir descansar
Ouvindo a coruja piar
E tendo que ir deitar

É hora de parar...

(Nane-22/03/2015)

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Papel em branco


Se tu não vens
Por que insistir
E persistir
Choram meus versos
Por não poderem
Rimar o amor
Poeta sem inspiração
É feito sangue sem coração
Estático à podridão
Deixar de escrever
Não consigo
Escrevo saudades
Triste a sina
De poeta ferido
Na alma
Se tu não vens
Escrevo o vazio
Do papel em branco
(Nane - 02/02/2014)

👁️ 345

O QUE FICOU DE NÓS


O que ficou em mim
É o que me basta de nós
E irá comigo até o fim
(Meu fim)
O que ficou na réstia
De mágoas e detritos
É restrito à mim
(Finito)
Vivemos de lirismo
Por um bom tempo
Sem deixar resíduos
(Destintos)
Apagada a lousa
Foi intensa a aula
E o aprendizado, perene
(Infindo)
Durou uma eternidade
Finita como tantas
Decantada em poesia
(E rimas)
O luar por testemunha
Calou-se nublado
Por nuvens escuras
(Escondido)
Mas o que ficou em mim
É o que me basta de nós
E irá comigo até o fim
(Meu fim)
(Nane-17/03/2015)

👁️ 380

TELHADO DE VIDRO


Chamam de mentira
A verdade inventada
E tão acreditada
Que foi vivida
E feita verdade
Mas tão cobrada e vingada
Por nascer mentira
Contorcida na metamorfose
De aparência horrenda
Que a transformou em verdade
E sobreviveu
Pelo tempo determinado
Na durabilidade
Da vingança ou piedade
Pelo ser que a pariu
Pouco importa a verdade
Vade retro Satanás
Posto que serás mentira
Enquanto viva for
E ao inferno não sucumbir
O fato é que morreu
Sem ser prematura
Ainda que verdade
Nasceu mentira
E morreu sem velório
A pedra atirada
Matou a verdade
Vingou a mentira
Da alma limpa
Que a lançou
Sem telhado de vidro
Nada quebrou
Apenas a verdade
Deixou de ser verdade
Por não mais interessar


(Nane-23/03/2015)

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ACENO DO ADEUS


Caminho só
Sem o toque da sua mão
Segurando a minha
Trêmula
Mas não parei
É preciso seguir
Ainda que sem o esteio
Da sua mão
O caminho é turbulento
Cheio de pedras e espinhos
Mas caminho
Sem a sua mão
Não por querer
Mas por ser preciso
Caminhar até chegar
A hora de parar
A estrada é longa
Sem parada para o descanso
Mas agora estou calçada
E sigo andando só
Ainda sinto no tato
O calor da sua mão
Que se soltou da minha
Sem me avisar
Meus passos ainda trôpegos
Vão se firmando aos poucos
Nesse caminhar solitário
Mas preciso
Chegará o dia
Em que o meu caminhar
Não mais precisará
Da sua mão
Mas levarei comigo
A eterna gratidão
Do aprender a andar
Que começou com a sua mão
E passado todas as dores
Olharei o caminho percorrido
E acenarei com a minha mão
À sua mão deixada lá atrás...
(Nane-23/03/2015)

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O RABISCO DO UIRAPURU


Rabisco meu canto escrito
E não ouvido
Canto de lamento
Por muitos lido
Mas para ti...invisível
Canto de ave notívaga
Perdida na floresta densa
Escondida no dia claro
Por não poder cantar o dia
E por todos ser ouvida
Canto rabiscado de melancolia
Revestido de beleza
Que por ironia
Não se faz ser ouvido (lido)
Por quem deveria
O uirapuru esmorecido
Segue a sua sina de cantor
Enquanto eu rabisco a minha dor
Que em comum com a dele
Se perde numa mesma solidão
(Nane-17/03/2015)

👁️ 382

O SILÊNCIO DE UMA SAUDADE



Quase uma criança

Num remoto anoitecer

Feito uma bomba atômica

Você partiu...

Eu nunca havia experimentado

A estranha sensação

De ver alguém sair

Da minha vida assim

A dor foi amortecida

Pelo conformismo do tempo

Que se não causou o esquecimento

Aplacou o desespero

As lembranças ainda permitem

O desenho na retina

Na sua face juvenil

Do seu sorriso sem graça

A voz se apagou da (minha) memória

Restaram algumas palavras

Sem o timbre usado

Guardadas na saudade

Não me furto a imaginar

Como seria hoje

Te olhar face a face

Envelhecido

Décadas se passaram

Você foi o primeiro

Veio um segundo

Veio um terceiro

Não sei onde está

Mas saiba que está aqui

Onde bate meu coração

E ainda, por você, chama

(Nane-18/03/2014)

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Comentários (1)

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joaoeuzebio
2020-08-13

A VIDA INCERTEZAS E A ESPREITA DE NOSSOS DESEJOS BELO POEMAS UM ABRAÇO

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