Lista de Poemas
Tiradentes Arrependido no Sete de Setembro
Sacrifiquei minha própria vida nisso.
Eu libertei a pátria dos portugueses,
Mas hoje sinto uma nação enclausurada.
A cela é a miséria que aflige muitos brasileiros
E que alguns no cárcere dos privilégios evitam ajudar.
Do parlamento local emana um imenso asco, lá onde
A democracia é enjaulada por uma escória poderosa.
Vendo a vida dos negros, sem-terra e índios, às vezes
Pergunto: do que adiantou libertar a colônia da Coroa?
Se tudo que há é o drible da igualdade nesses dias?
A opinião pública aqui é hoje bovina massa acrítica?
O que se vê são astutos corruptores paladinos da ética,
Podres poderes, privatização de tudo que é público,
Uma mídia que é o duro capitão do mato em nome dos poderosos.
E o povo são neo-quilombolas com seus direitos dilacerados!
Verdade é Práxis
Quem que no Sol que é a verdade
Conseguiu observá-lo sem se cegar?
Quem garante o alicerce do conhecimento?
Os enigmáticos mitos? O triunfo da razão?
Nossos saberes são cantos de contingências,
Um tiro no escuro, arquiteturas racionais
Para questões metafísicas lambuzadas de contradições.
Uma dialética de possibilidades mediante a razão.
Mas nas ruas exaustas de especulações e meias palavras,
A verdade está na prática do homem. Quem não age nada conhece.
Entre ideias mortas e ásperos desejos, o fazer,
O determinar, o transformar das circunstâncias.
Sob o rosto grave das condições sociais, esculpir novas possibilidades.
Mesmo que pessoas debatam inutilmente o melhor método
Para a verdade conhecer, ignore esta miséria.
Una teoria e prática, o agir sobre as coisas
É a medida de transformação, de observar o mundo sensível.
Confrontando suas condições de vida, a seiva do chão
Brota como conhecimento para os lábios humanos
Entre Grades e Labirintos
Limites delineados por todos os lados,
Inimigos a todo tempo na espreita.
E a realidade impondo limites aos desejos.
Tudo aparenta não ter fim.
Mas a solução, a saída, se inventa, reinventa.
Diante dos riscos vividos no presente,
Da insegurança sobre o futuro não conquistado,
Deve tudo explorar, todas as possibilidades
Possíveis para alcançar a liberdade.
Morrer, renascer, crescer, virar cinza de derrotas.
Ter o hábito da fenix e estar consciente
De todos os atos e comprometido
Com as consequências causadas,
Mesmo pesadas, ásperas,
Para através das escolhas mudar o que se vive.
Diante das escolhas,
Mesmo pressionadas por limites,
Ser capaz de romper
As grades de maledicências,
Transformando a realidade.
Muhammad Ali Após a Derrota na Luta do Século
Está expondo o cinturão da vitória?
Apreciando a notoriedade com os amigos?
Eu permaneço na academia após a derrota,
Carregando as cicatrizes e as revoltas.
Distante dos holofotes,
Revisitando os golpes, socos dados e recebidos,
Construindo estratégias de luta a cada instante.
Semanas após a disputa,
Eu ando nas calçadas pensativo,
Vou para a rua com a mente cansada,
Os punhos cerrados, veias pulsantes,
Diante do oceano de desafios inacabados.
Apesar da estante repleta de títulos,
Ter o queixo marcado por uppercuts,
A cabeça ferida por ganchos de esquerda,
Me deixaram mergulhado na tirania do descontentamento.
Mas sigo adiante, confronto toda a situação
E continuo de pé, treinando, planejando a próxima batalha.
Disposto a forjar táticas que até então
Me eram desconhecidas...
Desejo revanche em um combate brutal.
As mãos e a boca encaram o propósito
Da arte do boxe e da vida - lutar sem cessar!
Vamos Exterminar os Negros
Que o país está um paraíso de brutalidades.
E as armas, com as bênçãos do Estado,
Pulsam ódio contra os favelados.
Vamos abater qualquer preto com guarda-chuva na mão,
Que a injustiça avança dentro das togas e tribunais
E depois inventamos que tudo não passou de um grande equívoco.
Vamos nos solidarizar com qualquer tragédia, mas cuidado,
Tem que ser de gente branca, com ternas crianças de classe média.
Moleque negrinho da periferia, um potencial traficante?
Fazemos pouco caso! Dane-se a dor da carne negra!
Vamos patrocinar qualquer projeto social, o que for, mas nada de
Benesses para malandros e desempregados que vivem de vitimismo.
Vamos liquidar qualquer um, vamos jogar em valas Amarildos e Marielles,
Qualquer subalterno assalariado que não saiba de seu espaço na nova casa grande.
Vamos exterminar os negros, qualquer zé povinho que incomode nossos privilégios.
Pois esse país sempre foi um oásis de maravilhas para os caucasianos.
Insônia
A noite se torna
Um caleidoscópio de memórias.
Horas madrugada afora,
As ideias me incomodam,
As derrotas pesam o corpo,
Sensações intensas
E arrependimentos
Sobre os últimos dias
Apedrejam o crânio.
Nada de descanso ao corpo
Enquanto a humanidade repousa em paz.
Olhos bem abertos
Em estado de vigília,
A insônia é intensa investigação
Sobre nós mesmos,
O sacudir das certezas,
O não repouso das calejadas pálpebras,
Invocação de pensamentos agressivos.
Tornar-se o que é
Sem fórmula a priori.
Torna-se o que é
Na construção
E reconstrução,
Nas cicatrizes
Que agridem
A epiderme...
De 0 a 1000
Nas raivas
Que silencio,
Nas caudas dos erros
Que temo,
Mas insisto em reviver.
Existem dias em que
A boca não prova
Dos sedativos
Do mundo ao redor.
Tornar-se o que é
No exercício
De manter a consciência limpa,
Provar vinhos antigos,
Ser substancia
Que caminha na imperfeição...
Degustar paixões inebriantes
E receber em segundos
As necessidades e fatos
Que apodrecem
O mundo.
Mas converter o
Duro material
Em uma inspiração vertical
Que dê sentido ao corpo
Para levantar todas as manhãs
E persistir nas marcas
Nunca superadas.
A Verdade Não Se Curva
Desde a adolescência, refletindo sobre a existência,
Lendo filosofia, estudando teoria do conhecimento,
Uma questão me inquieta: o que é a verdade e como alcançá-la?
Na vastidão de vozes que se multiplicam,
Noticiários que mentem, mundo em versões,
A verdade é correspondência:
O que afirmo deve corresponder ao fato.
Se afirmo: o céu é azul é porque ele
Se mostra assim no instante em que olho.
A razão tudo descobre, a ordem das coisas,
A face dos fenômenos, os sentidos das coisas.
Se a verdade não existisse,
Não haveria erro ou responsabilidade.
Mas ela resiste, não se curva aos devaneios.
O homem lúcido ajusta o seu desejo
Ao que o mundo permite.
Ignorar limites da realidade é negar a própria vida.
Em tempo de incertezas,
De realidades reinventadas, buscar o que é
Torna-se ato vital, condição de existir sem naufragar.
Interrogação ao Homem Vazio
Diante de toda miséria, opressão, te pergunto, homem de mãos vazias:
Até quando suportará esta vida prostituída em lucros?
O falso viver que se paga em difíceis prestações?
O espírito, o caráter, em migalhas, se vendem na prateleira?
No mundo-capital, nas ideias rasas, a hegemonia da escória. E como sobra!
Mas o tempo é curto, o ambiente fétido, mas o que temos entre os dedos.
Por isso, mãos à obra, práxis diária, braços semeando outros horizontes.
A carne sã da própria existência é maturada em nossos açougues.
É fundamental, urgente, transformar a vida,
Ter horrores em tentar comprá-la, diminuí-la em status.
A melhora em esculpi-la na dor que a aprisiona é necessária.
Assim, a glória, as comemorações não serão superficiais,
Serão plenitudes de semeadura bem fincada na terra,
Vida que não será dívida, será verso de inteireza.
O Deserto da Fé
Em um deserto inóspito, o cristão questionou:
Por que pesa tanto fazer o bem?
O cético respondeu seco:
“Porque só o praticam por medo de não irem para o tal paraíso.”
O batista tentou desmentir e
Afirmou ter muitas virtudes na fé.
O descrente sorriu com ironia:
“Virtude? Nome bonito para o que chamam de inferno!”
O vento varreu as palavras,
Ficaram as maldades praticadas por católicos,
Ficaram as hipocrisias vividas por protestantes.
E Jeová, lá em cima, no paraíso desconhecido,
Cansado de brincar com o livre-arbítrio,
Não disse nada, o silêncio era o verbo do poderoso.
Comentários (0)
NoComments
Meu nome é Dennis de Oliveira Santos. Nasci no ano de 1985, numa pacata cidade do interior goiano chamada Ceres. Sou oriundo de uma família humilde e um dos dois filhos que muito ama seus pais. De lá pra cá fiz muitas andanças pelo mundo através de viagens e mudanças de lares ao morar em várias localidades.
Na adolescência tive um intenso contato com obras clássicas da filosofia e literatura de forma autodidata. Escritores e pensadores foram importantes na formação de minha cosmovisão, além dos valiosos ensinamentos e valores cultivados pelos pais e avós. Desde essa época aos dias atuais o meu olhar sobre o mundo é moldado principalmente por perspectivas filosóficas, como o existencialismo e o materialismo. Já na fase adulta segui os estudos universitários me graduando nas áreas de Sociologia e Pedagogia. Hoje sou educador e pesquisador. Minha atuação abrange os campos de pesquisa, ensino e projetos sociais. Além de publicar artigos científicos na área da sociologia.
Do existencialismo ficou na mente a ideia da busca da liberdade, a responsabilidade pessoal e a busca incessante por significado na existência humana. E extraído do materialismo filosófico, a perspectiva de que a compreensão da realidade se dá na matéria e nas leis naturais, buscando explicar fenômenos e experiências humanas através de bases físicas e tangíveis. Politicamente, me situo à esquerda, com inclinações marxistas, buscando constantemente a justiça social e a crítica do sistema capitalista. Tento contribuir para a realização desses ideais através do ensino, pesquisa e engajamento em movimentos sociais.
Sou um sujeito de poucas amizades, com prazeres simples, que valoriza muito a companhia da família, um amador na arte da enologia, ávido por viagens, e, nos raros momentos de inspiração, arrisco a escrita literária. Sou, em prática, um realista com uma pitada de pessimismo, um materialista que vê o mundo através das lentes do concreto (sem misticismo). E por ser um amante da literatura, escrevo poesias e crônicas com foco nas questões sociais e filosóficas.
Na minha escrita, mergulho em temáticas para expor as injustiças geradas pela desigualdade social que permeia nosso mundo. Muitos dos meus textos são ressoantes manifestações de insatisfação, narrativas que se levantam contra os fundamentos do poder e desafiam os contornos cruéis do sistema capitalista. Além disso, busco constantemente refletir sobre a existência humana. Ao escrever, tento compreender e expressar o peculiar sentimento de "estar no mundo", abordando inquietações sobre o sentido da vida, dilemas éticos, o impacto da morte e o confronto do ser com sua realidade.
Português
English
Español