Escritas

Lista de Poemas

Virgem Maria Rita

Sabia tudo sobre mim
Fruto da brizomancia aplicada
Era eu o sonho e o escolhido para o fim
Da tal ''inocência imaculada''

A obcessão crescia como nunca antes
Perseguição cruel da harpia feroz
Então ouvi um silvo; era ela e sua voz
Lábios mel carnudos, olhos brilhantes

Expliquei-lhe então: ''que o amor
cresce em nós como uma flor,
e para isso é preciso uma semente
Entre a gente não houve calor,
e a raiz sem esse morno ardor
teria um fulgor decadente''


Dei-lhe um abraço, beijei-lhe a face e por fim
disse-lhe que não desistisse de outro amor assim.
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Sonho de voar

À revelia de todos os meus sentidos
Meu espírito abraçou a rebeldia
O momento chegou e nem o sentia
O dia estava calmo, sem ruídos

Tal paz me invadiu, inconsciente
Dormente, minha atenção nem pressentiu
A razão posta de parte consentiu
Tal acto irracional mas coerente

E quando lá do alto me atirei
Por milagre ganhei asas e voei
A vontade venceu gloriosa a gravidade

Hoje sei que nem a morte apaga a vida
Se sonhar for realidade conseguida
Hoje sou alma etérea, luz branca sem idade

No momento da verdade
Salta de encontro à vontade !
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Círrosis Divinis

Resíduos se acumulam
No fígado de Deus
Detritos filhos seus
Por ganância deambulam

A cirrose vai avançada
É incurável como o não crente
A Terra, Mãe destroçada
A morte, Era eminente

A Divindade vai sorvendo
A maldade desta gente
E a cirrose vai crescendo
Numa contagem decrescente
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Poesia omnipresente

Minha poesia por Lisboa espalhada
Em cada esquina e colina, misteriosamente
Pode ser pouco, para muitos nada
Mas é como ter minh'arte omnipresente

Letra a letra, rima a rima, o povo entende
Que alguém resolveu su'alma partilhar
E se ao passares, um teu breve olhar se prende
É o bastante, e tal dádiva não se vende
Dá-se, para o tempo o perpetuar.
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De tantas maneiras me mataste

Levei dois tiros no amor
E uma facada na paixão
Toda ela e seu ardor
Pertence a outro coração

Enforquei-me no desejo
Afoguei-me na ternura
Na doce e suave brandura
Da boca que já não beijo

Atirei-me do alto da loucura
Cortei as veias da empatia
Então morri de monotonia
Saudoso dessa candura !
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As leis cientificas do amor

A linha à volta da tua face
À Lei de Darwin iluminada
Levou a ciência a um impasse:
Ter tal linha num humano recortada

E se olharmos teu corpo, tuas proporções
Vemos a Regra de Ouro e suas noções
Exemplarmente exemplificadas

Por isso meu amor por ela é de forma tal
Que até as Teorias da Relatividade Geral
Sem ele teriam de ser alteradas

Este meu doce encanto por ti
Consegue-se ver chegando a Pi
E inutiliza a Lei da Gravidade

O Efeito Borboleta levou assim
À Teoria do Caos que provoca em mim
A reacção química da saudade . . .
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Maldiçaras

Que amanhã esteja um dia de inverno
E o céu vermelho-negro terror, cor do Inferno
Que chovam raios, trovões e coriscos
Que os peixes não mordam em seus iscos

Que todo o trigo padeça
E o pão deixe saudade
O canibalismo que aconteça
E o fim da amizade vos enlouqueça
Pondo termo à liberdade

Que ao sustento falte o tostão
Tormento de miséria vindo do Nada
E que a criança de fome desvairada
Lamba o pó que rasteja no chão

Que amanhã esteja um dia de inverno
O mar lívido, a outra cor do Inferno
Que defequem cobras, verdades e lagartos,
Do Fundo que trepem pestes, mentiras e ratos

Que reine a Ira e o Azar, num luto de almas sós
Da dor que nasça uma nova Grande Era
Num fim que o mar engula a terra
E o céu irado caia sobre vós !
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Aguaceiro

Foi a manhã, vista um pouco turva
Sorriso breve antes do beijo lento
Foi a rosa entreaberta antes da chuva
Foi a brisa encontrada antes do vento

Foi a noite e a inocência da demora
Foi o amanhã; verde janela aberta
Dois corpos nús que não vão embora,
E acordam uma praia ainda deserta

Foi a paz, o silêncio antes do grito
Foi a nudez antes do amor consumado
E foi depois o cântico interdito
E todo este poema questionado...

Mas o que vale e o que fica
E indubitavelmente se auto-justifica
São aqueles momentos bons
Os cheiros, os toques, os sons...
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A morte da maldita

E de manhã de novo o sangue puro
O lacrimejar dos olhos ofuscados
A coragem não está e o dia escuro
Revela mil deuses ocupados

Na boca o bocejo interminável
Traça o duro rumo a ''Oriente''
Ficar parado é fatal, oxidável
E por agora o ''Norte'' está ausente

Na esquina o descuido espreita
Já longe a sombra roubada grita
Então o cérebro maravilhado se deleita
Com a inevitável morte da maldita

E de manhã de novo o sangue puro
E cada vez que ele abre os olhos há um muro
E de manhã de novo o sangue puro
E cada vez que ele abre os olhos é mais duro . . .
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Prestidigitador

O som de um cometa a passar
Um gemido puro sem fim
É o bicho que tenho em mim
Que não pára de pensar

Vai, dissolve-me o corpo no espaço
Inócuo, estridentemente mudo
Verdadeira e eterna ilusão, tudo
Logro mais fraco que um forte abraço

Isto não é arte nem poesia, não é nada !
É maresia, alquimia, a magia de um vulgar ser
Pois mais vale não ser do que apenas parecer
Visão molhada em pão e ovo, enfim, panada

Este poema é sobre o que não é
Sobre quem não tem pretensões a ser
Fala da força de querer aprender
E de quem se ri da inteligência até

É tudo uma pura ilusão
Algumas palavras, um papel, uma caneta na mão. . .
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