Lista de Poemas
Onde eu volto é sempre
uma trança de reflexões e sentimentos;
quem dera feições de primavera revolvesse
ainda que tessitura cobrasse depois.
Trama de fios, artérias a desconectar paixão
de um órgão qualquer ventríloquo
sem ideia de propagação, requer
interesse e desafio no palpitar do sono.
Sonho no dormir de abraço e nego
dia quem me desse pente escova
impossibilidades de malas postas
com as quais traços se remova.
Dia que noite fosse enfim luar
estrelas costuradas lantejoulas botões
matemática canção de firmamento
desconjuradas suas notas musicais, senões.
Que vida é silêncio e verbo
sorriso quando o chão nos falta
e beijo nos toma raro o momento
de luz e sombra, revelação e mistério.
Tudo o mais descondero e creio
de azul o céu reconfigurado
banidos os raios da manhã
em um sonho ensimesmado.
Tranca de penteado recomposta
espádua coxas costas
de volta o lugar quem mim se perde
portões puídos janelas de verão.
Nunca solidão se faz prosa contínua
de amiga de um instante sem concerto
que de amor jardim efeito avesso
onde almas se despem de joelhos.
Perdão que se reza a si mesmo
quando tudo é saudade e recomeço
espelho com o qual se fala por inteiro
a existência vivida aos pedaços.
E eu felino de garras pinto a canção
que fio de carretel põe-me a enrolar;
se tardo ou se é pobre sensação
olhar divaga recordação Niemeyer.
Sólida, corpos depois de embriagar
arquitetura quer a trama dos cabelos
de volta e de viés mesmo lugar.
Sempre seu colo, carretel novelo
nos quais debruço os cotovelos
e alma ponho alinhavar meu mar.
Sou quem talvez eu for
vista pelos olhos sentados na calçada
centavos de uma vida à escondida
Morte e Vida Severina, retirante.
Sorte truncada dias antes
revés de amante e sentinela
que é livre, embora cela
de vida próxima e distante.
Um cigarro solto e raro
provérbio que de mim faço sorteio
farto de si e de mim carente
talvez alegre, nunca somente.
Todo o itinerário
de viagem sem partida.
Foto sem dedicatória, antiga
cartão postal de terra à vista
casta meretriz de um libertino
que me deixa só, gemido vivo.
Nada disso sou e tudo
vida descida de um muro
erguido quando desmorona construção
sou seu e não o meu irmão.
Sou quem talvez eu for
sem jamais ter sido
morte de um domingo
quando não é sol, manhã
Que penso de ser
de amar o tanto que de mim resta
- que é festa
e no enquanto da banda que
passa, toca e dança.
E da sorte desejo apenas
que morte alguma me poupe a dor
que vive a morrer para a graça
de ser feliz em meu destemor
Evoé de primavera
de forma dura, prosódia ideia
pôs-se ao quintal da cultura
fez-se ouvir às galeras.
Claras de Candeia, é Portela
de samba sambista e passarela bamba
que cantam e pedem passagem
versos sem alma e gana.
Sai às ruas e põe afora goela
já é vinda a manhã
de novo setembro.
Descuido algum faz panela
de Amélia que à cozinha
trouxe novos mundos
Vapor barato
De cima abaixo a me ver
olhos nos olhos, não
cá à parte
ter com o juízo das gentes
jamais me interessou.
Deitei a perder-me, pois
e, por princípio,
enveredar rota de fuga
a desviar de Carlo(s),
de olhos de boi
a ser ou não ser qualquer
você
quem foi
e dar-me a conselhos
de doutores.
Óh diamante, peço
tomar-me por sua, de luar
sem brilho ou fulgor
óh rua de um
dia que nunca
raiou.
Quisera-me destino e queda
infinda, que em
vão de ensaio serve
ao verde e adiado verão.
Será por viés
de todos por ninguém, em
desigual desacordo
à disposição
não sermos de nós o que
de si incapazes
formos.
Porque errantes, contraparte
prisioneira de toda opinião
houvéramos de seguir ocos
confeitos, bolos de televisão.
Invoco e conclamo
enluaradas almas
de jaula despir-se as grades
no mais das vezes
de amizades
amores
canções.
Carecemos é de escutar
distintas vozes,
idiomas interiores
de toda espécie.
Pastores
de nós mesmos
sim, reuniremos
rebanho próprio.
(quem dera por
sortilégio)
há de ser
por deveras consternação.|
Desceremos montes
serras
de deuses em seus caixões.
Constelação de nós e de estrelas da manhã, passados
com os quais nesses retratos me encontro
seja o mesmo ou outro de mim
que os configura
pois meus já eram os sapatos calçados
quando me pus a caminhar
e rica a favela e pintura
que tomou minha alma por esposa.
Novela de assunto estéril
personagem dúbia e protagonista
faz de nós caricatura
e põe a acordar os pesadelos
ao que se contenta com perdão ligeiro
às confissões precárias de terço à mão
e muito cartucho à cintura.
Trazemos o olhar afora
no receio de que à volta estejam os demais
testemunha do todo que se mente e embota
aos parcos sentidos de tudo, e de ninguém.
Assim se expõe nessa galeria, pinturas não
confeitarias, que a gula faz comer
ainda que se tenha medo
de ser envenenado por instantes de prazer.
Absurdo é ter por merecer (confesso)
a reputação à prova
de todo o que tem somente a esconder
de si e do outro.
Nunca fui de guardar segredo
tenho feridas em relevo
que me orgulho de as ver sorrir.
Vida mesma é candelabro
velas postas em circunflexo acento
pastel de vento, maçã.
Visa sempre o amanhã
sem cuidar do dia de hoje
a enterrar os dias que se recusou viver.
É uma espécie de oratório
oferenda ou velório
de gente que dorme no quando
sono não lhe pertence mais.
Contenta-se com pouco e canta
vitórias com tanto encanto
a deixar-se enganar o santo
que a reza crer, satisfaz.
Sem paciência, e desespero
na gana de verdadeiro desejo
de ser tudo e capaz.
Tem desprezo por inteiro
de todo quem se expõe receios
que alma vã atrai.
Sou diferente em nada
um desses e todos juntos
que bate atrás de si a porta
e segue adiante, vagabundo.
Contudo às vezes consciente
bato e bato contente
portas que não quero ver abertas.
Pois que dão em salas antevistas
de mesmas caras e sentimentos
com deméritos e unguentos
desvelados de paixão.
Prefiro dessa maneira
não os ter à cabeceira
a guisa de ostentação.
E à vida itinerante
sempre esboço e avante
de cada um de nós
é que me faz de
gato e sapato
põe-me a lavar pratos
sem me dar água ou sabão.
Essa louça rude e precária
dessa fome temerária que faz
de mim e de você
entidades esfomeadas
de pernas cruzadas à beira da estrada
quando o sol levante e chama
- venham gente
venham agora e sem demora
façam valer a escolha e história
que de si vantagens conta
e as contas façam todos
se há razão ou distorção
na soma e subtração
do que se apaga ou pinta.
Sejam as cores dessa paisagem
vida nova ou tempestade
de outro inverno, verão.
Mas sejam cores intensas
com as quais se reclama verossimilhança
à cama posta na varanda
quando brisa morna agita
folhas dessa vegetação agreste
que vem o sol, a peste
de bichas cobrir-lhe
a pintura e restinga.
Mofina escultura de povo
sem opinião ou identidade
que faz de tudo espetáculo
haja graça, drama ou seja
banalidade.
Nada além de tédio da existência
quando se tem noventa aos vinte e sete
e muita virilidade na velhice
que mal dá conta da sandice
de o próprio nome esquecer.
Nós que de viver nos cansamos
mal saídos da infância
amamos e casamos, por dinheiro
importa se para o mundo inteiro, pouco
ou pra se dividir o desgosto
e somar as prestações.
Somos nós sempre os mesmos
desejosos de ser diferente
toda e qualquer gente
que não seja eu ou você.
Pomos vistas aos retratos
de barões calçamos os sapatos
e o resto fica para depois.
Que é feito de nós?
e concessão ao espírito,
por quais, íntimo de si,
o céu alcance.
E que por instantes aí
debruce, e
grassem à sua vista
saudades; ou quiçá
se despeça, e não recupere
memória de outrem.
Destarte, nesse vaivém
não me maltrate, e antes comigo
repita provérbios de bem querença.
Porque carece
por mundos quais forem
de alavancas, o ser de nós,
senão enguiça, perde-se enfim
em cobiças sem termo, ou
espelho com o qual
refletir.
É, afinal, construção, a
obra do espírito; de portas
não se salvará, fechadas ou
abertas, conforme a necessidade.
Assoalho, telhado por qual andar e
cobrir-se, quando a mente de
sustentação... (o corpo
de abrigo) reclamem,
e minh'alma, em
zigue-zague, desça as escadas
a podar as avencas
que ornam o saguão, pois
chuva vem.
E depois voltará o sol, demais
estrelas que trará, a noite,
se a poluição da São Paulo de meus dias
permitir, e quiser delas me enamorar.
À bem da verdade, nem da metrópole, ou
do interior (céu), depende
alçar aos astros:
quer perto, distante de
nós se encontrem
conforme o caso de
nossas persianas particulares fecharmos, ou
visão lhe concedermos.
Assim é que é, foi e será - penso
e não nego.
Um brinde, portanto, àquele chegado
que não vejo há tempos, e
agora é vindo.
Sobrou prosa de nós, assunto
no entanto, jamais.
Nós, que de nós somos por
vezes, todos queridos;
por outras prisão
Alcatraz.
Consternação de Sorrento
sem nunca o desejar
vistas cerradas à janela
pretérito passar
quando dia não dormiu
embora lua sol risonha
faça companhia Dalva,
estranha porcelana.
Sim, a essa primeira que
cintila manhã noitinha,
a mucama pisca-piscar
à toa – teorema, moça ainda;
Pasolini, monumento catedral
a ninguém oferecer culto (réquiem).
Grata constatação
desvirtuado pela banalidade ébria
das razões de não ser mais
perfaz-se nas desrazões das gentes - que,
de tanto querer, podem com nada
- quando ainda é madrugada
e não sonham, mas
se agitam - como quem trabalha,
- se acordados dormem
a vida débia, dias sem fim.
Sou esse que deu pra ruim
e se alegra por nada ser, e que,
porém, está em todo lugar,
sem precisar sair ou entrar.
Poesia, que é afinal?
Por fora estou
o que sou por dentro
incompreensão.
Poesia é
maneira de estar comigo
o mundo inteiro
solidão.
Sem rima
ou artifício que de si construa
poesia que não é
de qualquer um
rouquidão
crua.
Poesia que para o ego
é prego posto no caixão
aos permanentes
ébrios, desfeita métrica vida.
A poesia, se a quis mais
querida companheira
desilusão
foi
palma primeira, pois.
Namorada que não
se esquece, beijo
vil
paixão
que terra
deste gentio, a cova
deste por sertão.
Poesia sempre silêncio
boca de Latrão.
Comentários (0)
NoComments
Português
English
Español