Lista de Poemas
As nuvens de agosto
Lambi a nuvem
pendida
fofa inocente no céu
Quem diria
nada doce
nenhum gostinho
de mel:
Nuvens pairam no horizonte
como espumas do passado
quem provou da sua fonte
sabe o que é sabor salgado
O meu amor
me dizia
Nuvem é qual
algodão doce...
Bem desconfiei que não fosse!
Que era branquinha
é de sal
Pois a nuvem, sim senhor
nuvem é feita de vapor
não de mar, de rio, de lago
mas de lágrimas de dor:
...chuva chora
lava o rosto
cai ao chão
e se evapora...
E lá se vai todo desgosto
flutuando céu afora
formar as nuvens de agosto
com nossos prantos de agora
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Fantasia de uma noite de verão
Eu hoje, às vezes, me pergunto como era:
Um pesadelo, algum boato ou se existia
Nos dias antes do brotar da primavera,
Só solidão, longo fastio, tarde sombria?
O sol chegou já revogando o que houvera
Com um gesto quente acalentou a noite fria
Lambeu da terra sua geada mais severa
E a fecundou com mil sementes de alegria
E hoje há dálias, há alecrins e há violetas
A brisa morna é a terna mão que acaricia
Nesse jardim canta um coral de borboletas:
A dor da noite converteu-se em ardor do dia!
Eu beijo cores, toco cheiros, bebo flores
E que me lembre sempre foi essa harmonia:
A noite avança em serenata de cantores
E o dia escorre em galopante sinfonia
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As nuvens de agosto
Lambi a nuvem
pendida
fofa inocente no céu
quem diria
nada doce
nenhum gostinho
de mel:
Nuvens pairam no horizonte
qual espumas do passado
quem provou de sua fonte
sabe o que é sabor salgado
O meu amor
me dizia
Nuvem é como
algodão doce...
Bem desconfiei que não fosse!
Que era branquinha
é de sal
Pois a nuvem, sim senhor
nuvem é feita de vapor
não de mar, de rio, de lago
mas de lágrimas de dor:
...chuva chora
lava o rosto
cai ao chão
e se evapora...
E lá se vai todo desgosto
flutuando céu afora
formar as nuvens de agosto
com nossos prantos de agora
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Programa dos dias livres
Eu te aguardo para os sábados
Eu te aguardo nos domingos
Sempre te espero em feriados:
Tu virás no dia 1º de maio?
Ou passarás só no 7 de setembro?
Que seja em 2 de novembro!!
Em dias vagos te aguardo
(E se vem, quando vem, bem me tem?)
Pareces o papai Noel!
És meu coelhinho da Páscoa?
Rasga o teu Corpo a Paixão?
Mas não nasces no Natal,
não ressuscitas ao Domingo,
nem sequer morres na Sexta!
Te aguardo pro Ano-novo.
Te espero no Tiradentes.
Nos vemos na Aparecida.
Venha pular o Carnaval!
(Mas não vem, nunca vem, mal me tem?)
Ontem foi meu aniversário
Tomei dos vinhos mais caros
para alegrar tua chegada
Acabou que me esqueci
qual dos anos eu contava
e acordei rouco e enrugado
Ah, se eu soubesse, neném,
o dia exato da morte
certeza te aguardaria
confiante na minha sorte!
(Certo vem, sem porém, mais além...)
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Ponto de fuga
Em frente à janela se estende
uma rua
lavrada de puro asfalto
ladeada de altas paredes
armadas de cimento liso
Listras de janelas
sobem
descem
abaixo
acima
No cabo da rua,
um paredão
branco
duro
põe ponto às paralelas
que bem se sabe,
noutro caso,
se cruzariam nem mesmo
no oceano
do infinito
E além dos muros?
Aí já não sei
O que sei é que
que entre eles
isso sim
se vem morrer
se vem sofrer
e se curar. É hospital
Mas às vezes
me pego na crença
que além do beco
pisca um recomeço
ou
que atrás da fria
pálpebra
da esfinge adormecida
um tenso olhar
sonha
e espreita
E não de raro
me peço
que dos confins
deste sono
a sã pergunta
decifre
todas vãs
servis respostas
que me amiúde
devoram
a graça infinda
de ver
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Só pra feira dos poetas
Eu tenho inveja de quem
tem amigo poeta
Se eu tivesse um só
amigo poeta
doava a ele toda minha
amargura
Ele faria doces
e os venderia em feiras
de poetas,
pois poetas, esses sabem,
pôr candura
na amargura
Não há poeta
que não curta
um doce amargo de mel. Vão à feira
e compram quilos
das mais amargas doçuras
Como não tenho a quem dar
eu a guardo na gaveta
(pois quem sabe
chegue o dia
que me promovam
a poeta?)
Tivesse a mão
mais soltura
eu até que me arriscava
criar doces
de amargura
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Sorte do cão
as pernas na Paraíso
só tem gosto de sabão
todo mundo aposta em bicho
Macaco, Porco ou Leão
Por que não?
Por que não?
eu tinha a maior ciumeira
das canelas do Rufião
dia foi ganhei um chute
com cheirinho de sabão
Por que não?
Por que não?
a gurizada da vila
só vive na aperreação
quando brincam de esconder
todo mundo passa a mão
Por que não?
Por que não?
tua mãe é lavadeira
nem pisou nunca em avião!
mas mamãe tem geladeira
do sorteio do Faustão!
Por que não?
Por que não?
dona Mercedez ganhou
três vezes com o Pavão
e quase morreu um dia
de ataque do coração
(se eu botasse fé no bicho
apostava era no Cão!)
Por que não?
Por que não?
lá na vila Paraíso
só se lava roupa à mão
e a cachorra da Mercedez
era a amiga do Rufião
(ainda trago nas ventas
seu cheirinho de sabão)
Por que não?
Por que não?
um dia o Rufião se foi
trepado num caminhão
a Mercedez fez chacota
é melhor que em camburão
(se eu botasse fé no bicho
te levava é de avião!)
Por que não?
Por que não?
me toquei correndo atrás
latindo com emoção
e as rodas da Mercedes
faziam um baita poeirão
(dia vem me acabo embaixo
dos pneus dum caminhão!)
Por que não?
Por que não?
se eu botasse fé no bicho
ia embora com o Rufião
me enroscava em sua canela
com cheirinho de sabão
Por que não?
Porque não?
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Sono de pedra
Eu tudo daria
para poder dormir
o sono da pedra
em meio ao deserto
O sono grande
sem ronco
sem intenção de acordar
Sono embalado
por um só sonho:
de luzes extintas
e fóssil esplendor
Daria tudo
daria
plantações
meus cavalos
as refeições
os retratos,
a quem quisesse
eu daria
para dormir no deserto
sob o teto negro e mudo
onde miríades de estrelas
piscam sem nem mais ser
Que
de solidão de pedra
só entende mesmo o vento
Só não pergunte
o porquê
com certeza já esqueceu
como a estrela lá piscante
que não sabe
a magnífica
que há muito
feneceu
Quero só
sono de pedra
que nunca jamais acorda
para revelar os seus sonhos
Ou não acorda jamais nunca
para não esquecer o que sonhou?
Só quero o sono de pedra
Quero sonhar não ser eu
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São Flores de Sangue & Osso
Flores brotam de mim
as flores de sangue e osso
Nem sempre,
às vezes só de sangue
às vezes só de osso
As flores de osso
eu sirvo aos cachorros
ou fervo sopas
que ofereço a convidados
As flores de sangue
essas seco com papel
e as escondo
entre as folhas de um livro
aquele com o título:
Dos Perigos ao Regar Flores de Sangue & Osso
(ou as uso para escrever
cartas a Deus, mas isso
não conta, isso é segredo)
Já a flor de osso e sangue
essa vendo, essa doo, essa exponho no meu vaso
Flores brotam de mim
não só quando me corto
mas também
quando entro num cinema
ou viajo com o ônibus Nº 7
catando de canto a canto
meus cachos pela cidade
Não suporto mais
flor no pé
flor na mão
flores no rosto e pescoço
(e a cara dos passageiros
fingindo desinteresse
como se fosse a coisa mais
natural desse mundo
um homem brotar flores de sangue e osso
dentro de um ônibus)
Vão dizer
a culpa é minha:
És que te adubas demais!
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Amor degradável
Nosso amor
tem um cheiro de comida
bem gostosa, bem cozida
temperada com primor
Só que há meses esquecida
no fundo da geladeira:
azedou, gerou bolor
Ninguém mais nega
que só serve
para fartar
a barriga da lixeira
Ou serviria
um banquete
para os germes
invisíveis
que pululam
aos milhões
as terras
de algum jardim?
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