Lista de Poemas
OCEANOS E MARES ESQUECIDOS
Tormentosos oceanos esquecidos
Onde mares violentos arrebentam
Despertando temores e gemidos,
Em corsários valentes que os enfrentam.
Mares turvos, bravios, desmedidos
Cujas águas de rochas se alimentam.
São oceanos dos sonhos extraídos
Que nas noites mais tristes atormentam.
Se não vemos as ondas que levantam,
Pelos menos ouvimos seus lamentos
Quando em nossas consciências se agigantam.
Mares onde sucumbem vencedores
E vencidos nos mesmos sofrimentos;
Os profundos oceanos dos rancores.
SONETO À MULHER AMADA
Se tento capturá-la na retina;
São tantos megapixels nessa história
Que a máquina congela, sem memória,
Por causa da beleza feminina.
Beleza que nenhuma escola ensina.
Nascida da equação combinatória,
Da força da mulher em sua glória;
Da graça natural de uma menina.
Preciso urgentemente promover
O aumento radical na CPU
E a baixa de versões que possam ler
E processar tamanha informação.
Se tento capturar seu corpo nu
Movendo-se na minha direção.
PSIQUE
Um pedaço de mim corteja a lua,
outro procura pôr os pés no chão.
Enquanto aquele vaga pela rua,
este não perde nunca a direção.
Um lado pensa, julga, conceitua,
o outro se perde sempre na emoção.
Uma parte se veste, a outra está nua;
uma escreve discurso, a outra canção.
A metade que fala não escuta.
A que escuta não sabe o que dizer.
Eu inteiro sou parte da disputa,
e não sei o que vai acontecer:
Se sentamos na mesa com cicuta
ou se aprendemos a nos conhecer...
DESPEDIDA
No peito resta aquele estranhamento
Pelo amor que vivido já foi tanto.
Não há palavra ou mesmo pensamento
Que possa traduzir aquele espanto.
A triste melodia do momento
Solenemente soa em fraco canto
E as notas são levadas pelo vento.
E sofre o coração a dor sentida.
A dor que foi amor, amor profundo.
Adeus! Chegou o instante da partida.
Que rumos seguiremos pelo mundo?
Que encontros nos reserva a nova vida?
Que será desse solo tão fecundo?
ANO NOVO DE VERDADE
Venha novo, mas novo de verdade,
Sem medo de que possa machucá-lo;
Venha novo, e que seja breve estalo
Na passagem do tempo. Sem saudade.
Venha novo, por ser ato,vontade,
Mas que cause a surpresa de um regalo;
Venha novo, maior (sonho que embalo),
Em busca de justiça e liberdade.
Um Ano Novo, assim, tão desejado,
Que lhe traga prazeres e delícias;
Este Ano Novo existe, bem guardado;
Mas tudo são apenas esperanças.
Melhor que as tenha. Ou então:cobice-as;
Pois elas só começam com mudanças.
.
ENCONTRO
A Razão
se perdeu
quando ardeu
de Emoção;
A Emoção
percebeu
que viveu
sem Razão;
'- Vou sentir!'
'- Vou pensar!'
Declararam.
Ah! E aqui,
neste bar,
terminaram...
QUESTÕES NÃO RESOLVIDAS (ou A Lanterna de Diógenes)
Somos seres: sujeitos ou objetos?
Transitamos nas mesmas avenidas
Entre vozes perenes,esquecidas...
E nos sentimos frágeis e incompletos.
Temos - em diferentes alfabetos -
Questões que nunca foram resolvidas:
Sublimamos os sonhos com mordidas
E enganamos a fome com projetos.
Se pudéssemos ler nas entrelinhas
Quanta coisa pequena nos governa:
Obras menores, lógicas mesquinhas...
É tempo de pensar novas propostas.
De carregar na mão uma lanterna,
E de propor perguntas e respostas.
CONFISSÃO
Não vou - como soía acontecer -
de peito aberto, passos firmes, mãos
prontas a tratar todos como irmãos,
olhos cegos de tanto bem querer.
Agora eu não sei mais o que dizer;
não sei onde pisar por esses chãos;
sinto meus pensamentos tolos, vãos;
e a vontade de amar virou sofrer!
Aquele riso doce de ternura
parece que não cabe em mim agora;
fiquei estranho, sou outra criatura.
Mas não fui eu (fui eu?) quem foi embora,
quem me deixou no chão foi a ventura.
E sofro de uma dor que me devora.
BRAZIL REVISITED
Senhores para mando temos tantos,
Que querem governar e tirar tudo;
Uns valem-se de força ou de canudo;
Outros se vestem como fossem santos
Para vender aos crédulos seus cantos.
Os filhos vão embora para estudo,
E aprendem sempre o mesmo conteúdo.
Depois repartem feudos nos recantos.
Proclamam a moral com mil amantes;
Alguns erguem castelos nas montanhas,
Fidalgos de uma corte de farsantes.
Suborno chamam "sobras de campanhas";
Vergonha não revelam nos semblantes;
E escondem a verdade com patranhas.
DECLARAÇÃO DE AMOR
Estás triste, te sentes velha, feia.
Insegura, perguntas como estás,
Se estou feliz, se não a quero mais;
Reclamas do cabelo que embranqueia.
Digo que a amo, que sempre...sempre amei-a
E recordo de muito tempo atrás,
De quando eras menina e eu um rapaz,
E, de novo, meu peito se incendeia...
Se o tempo amarelou nossos retratos,
e alterou tantas coisas, tantos fatos,
não conseguiu mudar: continuas linda!
Quando a morte, inimiga de quem ama,
vier me cobrar a vida aos pés da cama,
é certo que estarei te amando ainda...
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CARLOS ALBERTO DE MELLO nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Possui poemas publicados nos livros VIDA (2001) e CANTO DE RUA (1981). Ambos com edição esgotada. Escreveu também um livro voltado ao público infanto-juvenil (DESCOBRINDO O BRASIL) sobre mamíferos brasileiros ameaçados de extinção. É funcionário público federal, com curso de pós-graduação em Letras na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Publica seus poemas também no sítio http://poesianarede.no.comunidades.net/
Algumas palavras sobre o Autor:
“...não há dúvida que você é poeta, e pode desenvolver uma bela obra.”
Affonso Romano de Sant´Anna
“Os seus decassílabos são ótimos. Não é fácil escrever de forma tão eficazmente simples.”
Alexei Bueno
“...importante contribuição à poesia brasileira (o livro VIDA). Vida à Literatura.”
Ivan C. Proença
“...seus decassílabos não são apenas um exercício de estilo, mas uma lição de concisão e de austeridade. Exemplo disso, entre outros, o antitético e bem realizado soneto O QUERER.”
Ivan Junqueira
“Os seus poemas se distinguem da enxurrada de livros no gênero por encerrar um verdadeiro sentimento poético.”
Massaud Moisés
“Gostei muito do livro (VIDA), principalmente do setor de sonetos onde percebo sua habilidade em trabalhar para que a forma não imponha uma “fórmula”.”
Suzana Vargas