Lista de Poemas
O POEMA DORME NO SILÊNCIO
O poema dorme no silêncio e depois
Sobe devagar às fontes do esquecimento
Até que te recordes das palavras e as
Destiles em versos caudalosos
De assombro ou de ternura.
E pede-te que sangres as palavras
E delas colhas as raízes do que existe:
As amoras nas polpas dos teus dedos,
As bagas das romãs ruborizando a terra,
A dança inocente dos noivos prometidos,
As ondas vagueando na sua paz austera,
Os cavalos eriçando suas crinas voluptuosas
E a vida trespassada de rotinas imperiosas
E o poema emerge da comunhão
Do poeta com a amorfa voracidade dos dias
E é raiz e caule que sustém o mundo nas
Palavras sem as quais o mundo nem sequer existiria
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METAMORFOSE
é na água dos teus olhos que me nascem
as palavras de gelo com que esculpo
a tua antevisão inexplorada
se não fosse o silêncio percutido do nada
um hiato atravessou-nos na esfera do tempo
como crisálida desfiando a madrugada
e nós cedemos à metamorfose inesperada
as palavras de gelo com que esculpo
a tua antevisão inexplorada
se não fosse o silêncio percutido do nada
um hiato atravessou-nos na esfera do tempo
como crisálida desfiando a madrugada
e nós cedemos à metamorfose inesperada
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SEGREDO
segredo ao teu ouvido
o silêncio das manhãs enfeitiçadas por luz
e tu segues o meu olhar como quem busca um deus
eu não profetizo a beleza que te conto
vejo-a como quem acredita no vento
e na existência do amor
vejo-a como quem acredita no tempo
(que tudo purifica meu amor)
segredo ao teu ouvido
o silêncio dos nenúfares a vogar
e sei que não entendes
porque para ti as flores não têm alma
mas eu digo que nós somos a alma das coisas
o términus de todos os significados
em nós desagua o simbolismo da vida
não há quem entenda
eu segredo ao teu ouvido
não porque entendas
mas para que entendas
as metáforas imprecisas
dos motivos e dos porquês
e tu debruças-te como se
pela primeira vez
sobre o lago da existência
mas a essencial pergunta não te ocorre
não vês que é no vagar e no silêncio que se morre?
não vês que sou eu que não entendo?
não vês que eu sou uma pergunta irretratável?
não vês que eu não tenho respostas?
por isso me nutro de beleza e de silêncio
as únicas coisas do mundo que não precisam explicação
espelhos que são a minha casa
o silêncio das manhãs enfeitiçadas por luz
e tu segues o meu olhar como quem busca um deus
eu não profetizo a beleza que te conto
vejo-a como quem acredita no vento
e na existência do amor
vejo-a como quem acredita no tempo
(que tudo purifica meu amor)
segredo ao teu ouvido
o silêncio dos nenúfares a vogar
e sei que não entendes
porque para ti as flores não têm alma
mas eu digo que nós somos a alma das coisas
o términus de todos os significados
em nós desagua o simbolismo da vida
não há quem entenda
eu segredo ao teu ouvido
não porque entendas
mas para que entendas
as metáforas imprecisas
dos motivos e dos porquês
e tu debruças-te como se
pela primeira vez
sobre o lago da existência
mas a essencial pergunta não te ocorre
não vês que é no vagar e no silêncio que se morre?
não vês que sou eu que não entendo?
não vês que eu sou uma pergunta irretratável?
não vês que eu não tenho respostas?
por isso me nutro de beleza e de silêncio
as únicas coisas do mundo que não precisam explicação
espelhos que são a minha casa
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FLORES DE MIOSÓTIS
Sorri...
Uma angema delicada
Invisível e tenra
É o sorriso com que alisas
Os ventos frenéticos da vida.
A tua existência é quase uma inexistência
Uma visão, um angá
Porque os homens são incrédulos das coisas puras.
Mas tu... tu és um bálsamo
Slvestre e genuíno
Que acalenta e perfuma os dias mates
Dos Homens teus Irmãos.
Por isso vive...
Vive inebriando o mundo
Suavizando o mundo
Confundindo os sábios.
Vive como quem
Simples e expontaneamente oferece
Flores de miosótis ...
Uma angema delicada
Invisível e tenra
É o sorriso com que alisas
Os ventos frenéticos da vida.
A tua existência é quase uma inexistência
Uma visão, um angá
Porque os homens são incrédulos das coisas puras.
Mas tu... tu és um bálsamo
Slvestre e genuíno
Que acalenta e perfuma os dias mates
Dos Homens teus Irmãos.
Por isso vive...
Vive inebriando o mundo
Suavizando o mundo
Confundindo os sábios.
Vive como quem
Simples e expontaneamente oferece
Flores de miosótis ...
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ATRAVESSO O TEMPO COMO RIOS
Atravesso o tempo como rios atravessam leitos
Em pasmos alternados de alegria e lassidão
E na perfeição da água sou apenas
Gota oferecida ao sacrifício da terra
Rebrilhando
atónita
no lago da imensidão
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TERRA DA ALEGRIA
Para Ruy Belo.
-
Vê que singeleza há na aurora
-
Vê que singeleza há na aurora
Que irrompe defronte da janela
(Singela e trágica
Em cores esvaindo-se)
Inundando de claridade a terra inteira.
Traz falas da noite - a insondável…-
Quando emerge vem pesada
Vem secreta
Reinar – e reina! – sobre a Terra da Alegria...
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AO REDOR DE MIM
Ao redor de mim tudo é presença
Desse corpo etéreo, silente
E dessa ausência
Do Ser que a Si próprio renuncia
E em vagas se requebra em ondas
Trazendo o mar as conchas com que sonda
O caminhar dos passos nas praias vazias
Desse corpo etéreo, silente
E dessa ausência
Do Ser que a Si próprio renuncia
E em vagas se requebra em ondas
Trazendo o mar as conchas com que sonda
O caminhar dos passos nas praias vazias
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CICLOS DA VIDA
Crescem ânsias em nós, ondas festivas
Soçobrando, depois, gotas caídas
Na dança dos ritmos místicos do tempo.
Em assombrosas vagas descrevemos
A rota que dá rumo ao infinito,
Mas se o impulso de chegar é imperito
Logo outra vaga altiva se levanta
E um novo ciclo na vida se adianta
E novas vagas nascerão quando quiseres.
E é sempre a mesma dança oculta das esferas
É sempre o mesmo bailado das esperas
Que a vida é um eterno retorno
Em ciclos redundantes e ascendentes
De perfeita fusão com o Universo....
Carla Furtado, in "Entre o Sono e o Sonho - Antologia de Poetas Contemporâneos"
Soçobrando, depois, gotas caídas
Na dança dos ritmos místicos do tempo.
Em assombrosas vagas descrevemos
A rota que dá rumo ao infinito,
Mas se o impulso de chegar é imperito
Logo outra vaga altiva se levanta
E um novo ciclo na vida se adianta
E novas vagas nascerão quando quiseres.
E é sempre a mesma dança oculta das esferas
É sempre o mesmo bailado das esperas
Que a vida é um eterno retorno
Em ciclos redundantes e ascendentes
De perfeita fusão com o Universo....
Carla Furtado, in "Entre o Sono e o Sonho - Antologia de Poetas Contemporâneos"
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SONETO
No silêncio acontece que aconteço
E no silêncio que acontece me anoiteço
E de estrelas me refuljo e me refaço
No tempo íntimo dos íntimos compassos
No silêncio me ausento e precipito
No poema inacabado em que me habito
E em versos ordenados me sustento
De palavras erigidas pelo vento
Mas no silêncio da matéria rarefeito
A flor mais fina do silêncio em que me deito
É de seivas invisíveis afluente...
Dos Teus braços que me cinjem e me deleito
No silêncio dos dias imperfeito
Minha Alma Te busca: Omnisciente
E no silêncio que acontece me anoiteço
E de estrelas me refuljo e me refaço
No tempo íntimo dos íntimos compassos
No silêncio me ausento e precipito
No poema inacabado em que me habito
E em versos ordenados me sustento
De palavras erigidas pelo vento
Mas no silêncio da matéria rarefeito
A flor mais fina do silêncio em que me deito
É de seivas invisíveis afluente...
Dos Teus braços que me cinjem e me deleito
No silêncio dos dias imperfeito
Minha Alma Te busca: Omnisciente
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HOMEM PROSAICO
O riso ternura dos teus lábios aceno
O perfume cristal do teu pescoço gazela
O cálice tempo que a tua força sustenta
Por sobre a mesa
A face branca do teu rosto luar
O vibrar filigrana do teu olhar crepúsculo
A gravata atadura que o teu colarinho prende
Sobre a camisa
O movimento distinto dos teus ossos alabastro
A cadência musical da tua respiração pássaro
Os botões de punho ouro com que distingues a
Tua prosaica existência
O domesticado ondulante do teu cabelo mar
A ajeitada selva da tua barba amazónia
O after - shave subjecticida – auto - repelente com que abafas
A tua identidade
O sonho defraudado da tua juventude bandeira
A lágrima chuva dos teus olhos céu
O coração puído que te recorda a distância
De ti próprio
O perfume cristal do teu pescoço gazela
O cálice tempo que a tua força sustenta
Por sobre a mesa
A face branca do teu rosto luar
O vibrar filigrana do teu olhar crepúsculo
A gravata atadura que o teu colarinho prende
Sobre a camisa
O movimento distinto dos teus ossos alabastro
A cadência musical da tua respiração pássaro
Os botões de punho ouro com que distingues a
Tua prosaica existência
O domesticado ondulante do teu cabelo mar
A ajeitada selva da tua barba amazónia
O after - shave subjecticida – auto - repelente com que abafas
A tua identidade
O sonho defraudado da tua juventude bandeira
A lágrima chuva dos teus olhos céu
O coração puído que te recorda a distância
De ti próprio
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CARLA FURTADO RIBEIRO começou a escrever poesia aos 13 anos de idade e publicou recentemente o seu primeiro livro, Em silêncio, pela Chiado Editora. Dele constam três poemas selecionados para duas antologias de poesia portuguesa contemporânea. Em 2016 foram publicados três poemas seus na Revista Científica de Literatura, Cultura e Arte Letras ConVida, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Carla Furtado Ribeiro é licenciada em Direito pela Universidade de Coimbra e exerce advocacia. Para além da criação poética, cultiva com igual esmero a criação musical. Alguns dos seus poemas podem ser lidos no blogue Imitação da vida.
«A sua obra impressiona pela suavidade e pela luminosidade, num tempo em que a alma poética tende para cromatismos mais carrancudos e formas disformes. Há um efectivo prazer em ler esta poesia, que se retira da musicalidade encantatória dos versos, das harmoniosas e engenhosas alquimias rítmicas, fónicas, semânticas e lexicais, das surpreendentes nervosidades metafóricas, da primorosa selecção vocabular, da profundidade e complexidade das ideias, do fulgor e da limpidez das texturas cromáticas. Uma poesia enxuta e solar que prende o real e nos prende. A escrita, embora capciosa como convém ao artifício poético, é fluída, dúctil, grácil, a cavalo entre a tradição e a inovação. Podemos dizer que a sua poesia é leve, mas, nunca ligeira. Leve na palavra, leve na estrutura, leve no movimento, mas densa e bem assente em ideias de timbre existencial, metapoético e espiritual. » in Revista Letras ConVida, 2014-2016, Fac. Letras da Univ. Lisboa
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