Lista de Poemas
EM SILÊNCIO
Em silêncio tudo está pacificado.
Só o vento,
De folha em folha deambula,
Como um anjo alado ...
👁️ 2 011
AMIGO
Para ti escrevo quem o sabe quem o diz
Meu amigo minha ternura flor de liz
Minha púbere aventura meu ninho
Minha ânfora onde vazo o meu caminho
Por ti choro quando em versos me sorrio
Por ti rio se em palavras me confundo
Pois tu és meu irmão gémeo profundo
Minha lira de uma noite enluarada
Meu aroma de trigo minha água
Minha fogueira minha serra claridade
Com que forças desejava pertencer
À medula dessa tua intensidade ...
Meu amigo minha ternura flor de liz
Minha púbere aventura meu ninho
Minha ânfora onde vazo o meu caminho
Por ti choro quando em versos me sorrio
Por ti rio se em palavras me confundo
Pois tu és meu irmão gémeo profundo
Minha lira de uma noite enluarada
Meu aroma de trigo minha água
Minha fogueira minha serra claridade
Com que forças desejava pertencer
À medula dessa tua intensidade ...
👁️ 2 005
TU MINHA ÁRVORE SEM NOME
Tu
minha árvore sem nome, história sem tempo,
meu leito de abandono e deserção,
Raiz
adventícia da esplendorosa Primavera em gestação.
Folha
seminal, trifoliada, oval, orbicular, lobada,
folha de ouro, herança de à terra vinculada.
Âmago
de todas as luminescências que me habitam
crepúsculos incandescentes, impossíveis que me invitam.
Mas tu,
agora gota, agora água, agora arco-íris diluído em mágoa, agora,
água-régia
que embriaga e dissolve em aguarelísticas imagens
esta paz cruxiforme das paisagens.
Recantos
de pureza inesperada, são teu berço, teu braço, teu insólito regaço,
meu céu debutante e sem cansaço.
Oh natureza curvilínea,
de cíclicos e solenes retornos sobre a terra!
Só tu,
sempre estas águas, mansamente debruçadas
sobre minhas esquivas margens escarpadas....
-
Carla Furtado, in "Entre o Sono e o Sonho - Antologia de Poetas Contemporâneos"
minha árvore sem nome, história sem tempo,
meu leito de abandono e deserção,
Raiz
adventícia da esplendorosa Primavera em gestação.
Folha
seminal, trifoliada, oval, orbicular, lobada,
folha de ouro, herança de à terra vinculada.
Âmago
de todas as luminescências que me habitam
crepúsculos incandescentes, impossíveis que me invitam.
Mas tu,
agora gota, agora água, agora arco-íris diluído em mágoa, agora,
água-régia
que embriaga e dissolve em aguarelísticas imagens
esta paz cruxiforme das paisagens.
Recantos
de pureza inesperada, são teu berço, teu braço, teu insólito regaço,
meu céu debutante e sem cansaço.
Oh natureza curvilínea,
de cíclicos e solenes retornos sobre a terra!
Só tu,
sempre estas águas, mansamente debruçadas
sobre minhas esquivas margens escarpadas....
-
Carla Furtado, in "Entre o Sono e o Sonho - Antologia de Poetas Contemporâneos"
👁️ 1 786
ESTÓRIA DE SILÊNCIO
A minha aldeia é uma história de silêncio
Solene, hierático, intenso
Ora altivo, ora raro, ora denso
De que as coisas se pressentem povoadas
Um silêncio de brisas transpiradas
Pelos corpos de chão, de terra, de semente
E de tudo o que no homem faz presente
O mistério das coisas insondável
A aldeia é rua de memórias apeadas
Bordadas a vidrilhos de luar
Um jardim de angemas perfumadas
De um perfume impossível de expressar
São memórias e visões revisitadas
Em cada pedra, em cada tronco,
Em cada espiga de milho, em cada olhar de desfolhada
Que nos fere de emoção, aldeia amada,
Que nos deixa o coração a soluçar.
Solene, hierático, intenso
Ora altivo, ora raro, ora denso
De que as coisas se pressentem povoadas
Um silêncio de brisas transpiradas
Pelos corpos de chão, de terra, de semente
E de tudo o que no homem faz presente
O mistério das coisas insondável
A aldeia é rua de memórias apeadas
Bordadas a vidrilhos de luar
Um jardim de angemas perfumadas
De um perfume impossível de expressar
São memórias e visões revisitadas
Em cada pedra, em cada tronco,
Em cada espiga de milho, em cada olhar de desfolhada
Que nos fere de emoção, aldeia amada,
Que nos deixa o coração a soluçar.
👁️ 1 811
AS COLINAS DA NOITE
Descem sobre mim as colinas da noite
As pálpebras pesadas do dia sobrevivido
Faltam palavras para dizer a escuridão
O sonho...chegou a hora do sonho....
As pálpebras pesadas do dia sobrevivido
Faltam palavras para dizer a escuridão
O sonho...chegou a hora do sonho....
👁️ 1 818
JUSTITIA
De segredos te encerras, deusa
De segredos te enovelas
De segredos te consomes
E acautelas…
De segredos te ocultas,
Pousando na cidadela
A sombra, apenas,
De mais densa luz
Que não desvelas…
De segredos te encerras, deusa
Nocturna e sedutora,
Esfíngica e bela…
Sapiente sentinela,
Que na Tríade da Pólis
Se constela.
De segredos te encerras, deusa...
De coração pétrido,
E enigmática, austera, selas
Com ordem, sublevação.
(Mas, eis que sepultas, então,
A lágrima que ocultas,
No aluir do teu íntimo perdão…)
Justiça! Justiça!
Quantos desenganos são....
Buscamos teus arcanos, mas em vão…
Pensamo-nos divinos, de humana condição…
Se, ao menos, em nosso palpitar profano,
Infundisses, da justiça divina, a humana cognição!…
Justiça! Justiça!
O teu perdão…
Pois Tu é que és Divina!
Mas nós…não...
De segredos te enovelas
De segredos te consomes
E acautelas…
De segredos te ocultas,
Pousando na cidadela
A sombra, apenas,
De mais densa luz
Que não desvelas…
De segredos te encerras, deusa
Nocturna e sedutora,
Esfíngica e bela…
Sapiente sentinela,
Que na Tríade da Pólis
Se constela.
De segredos te encerras, deusa...
De coração pétrido,
E enigmática, austera, selas
Com ordem, sublevação.
(Mas, eis que sepultas, então,
A lágrima que ocultas,
No aluir do teu íntimo perdão…)
Justiça! Justiça!
Quantos desenganos são....
Buscamos teus arcanos, mas em vão…
Pensamo-nos divinos, de humana condição…
Se, ao menos, em nosso palpitar profano,
Infundisses, da justiça divina, a humana cognição!…
Justiça! Justiça!
O teu perdão…
Pois Tu é que és Divina!
Mas nós…não...
👁️ 2 120
ESTÁTUA DO TEMPO
Sucedem-se dias como colinas áridas
No desafio da exaustiva caminhada.
Não te deixes erodir pela corrosão do vento,
Pois nem o tempo ilude a eternidade.
( Tu és a tua alma, mas a tua alma é mais )
Procura-te, mas, nunca te encontres totalmente,
E se te pensas encontrar, perde-te novamente,
Pois só na escuridão dos dias a luz da alma faz sentido.
( Tudo sombrio e denso... Ah! Se não fosse o céu da tua alma... )
Pensas-te uma estátua
Que se embriaga de vento e nunca passa.
Não percebes que és somente
Um átomo inserto na estátua do tempo,
E que tu é que passas pelo tempo e não o tempo que passa...
Que és como uma vaga num oceano imóvel
E que, no entanto, também tu és composto da matéria das águas...
Deveras, os dias, sucedem-se e parece,
Que nada sobre nada permanece...
Mas, é a impermanência um atributo da eternidade.
A respiração incessante do mundo:
... Deus-na-sua-interna-felicidade...
No desafio da exaustiva caminhada.
Não te deixes erodir pela corrosão do vento,
Pois nem o tempo ilude a eternidade.
( Tu és a tua alma, mas a tua alma é mais )
Procura-te, mas, nunca te encontres totalmente,
E se te pensas encontrar, perde-te novamente,
Pois só na escuridão dos dias a luz da alma faz sentido.
( Tudo sombrio e denso... Ah! Se não fosse o céu da tua alma... )
Pensas-te uma estátua
Que se embriaga de vento e nunca passa.
Não percebes que és somente
Um átomo inserto na estátua do tempo,
E que tu é que passas pelo tempo e não o tempo que passa...
Que és como uma vaga num oceano imóvel
E que, no entanto, também tu és composto da matéria das águas...
Deveras, os dias, sucedem-se e parece,
Que nada sobre nada permanece...
Mas, é a impermanência um atributo da eternidade.
A respiração incessante do mundo:
... Deus-na-sua-interna-felicidade...
👁️ 1 825
FOSSES UMA DESERTA PRAIA
fosses uma deserta praia ou uma terra nua
ou um lago esquecido, uma face da lua
a menos iluminada, a mais crua
ainda assim, ainda assim...
fosses um fogo apagado, uma noite fria
uma pedra disforme, um abismo
uma lança, uma espada ou uma arma disparada
ao vazio do céu, à máscara da vida
ainda assim, ainda assim...
te tomaria ao nevoeiro da noite, à bruma do dia
e num esgar do tempo ou num recanto
ainda que imperfeito de harmonia
eu te amaria, eu te amaria, eu te amaria...
ou um lago esquecido, uma face da lua
a menos iluminada, a mais crua
ainda assim, ainda assim...
fosses um fogo apagado, uma noite fria
uma pedra disforme, um abismo
uma lança, uma espada ou uma arma disparada
ao vazio do céu, à máscara da vida
ainda assim, ainda assim...
te tomaria ao nevoeiro da noite, à bruma do dia
e num esgar do tempo ou num recanto
ainda que imperfeito de harmonia
eu te amaria, eu te amaria, eu te amaria...
👁️ 1 738
HOJE
Hoje estou
Só entre palavras
Que teimam em permanecer
Como pedras
Silentes e paradas
No livro branco onde me habito.
Perdi-me das horas que restavam
E o crepúsculo emergiu por mim
Excessivamente adentro,
Em escuridão descompassada.
Em vão, uma chama bruxuleante arde
Como estrela imperturbável
(...pudesse a beleza transformar-me …)
Arde como um incêndio que grassa
Nas montanhas. Mas, ao longe…
Onde não queima, não aquece,
Não se extingue, nem permanece,
Onde é apenas um fulgor a acender
De luz um céu dolente,
E em mim
Um desejo de arder somente
Sem palavras e sem gestos.
Uma certeza: de ser mais
Do que um rosto incógnito
Na noite inalterável.
Talvez uma alma que se consome em outra Alma
Talvez um átomo de luz a clarear a noite
A minha, a tua, a nossa noite
A noite dos desalumbrados.……
Só entre palavras
Que teimam em permanecer
Como pedras
Silentes e paradas
No livro branco onde me habito.
Perdi-me das horas que restavam
E o crepúsculo emergiu por mim
Excessivamente adentro,
Em escuridão descompassada.
Em vão, uma chama bruxuleante arde
Como estrela imperturbável
(...pudesse a beleza transformar-me …)
Arde como um incêndio que grassa
Nas montanhas. Mas, ao longe…
Onde não queima, não aquece,
Não se extingue, nem permanece,
Onde é apenas um fulgor a acender
De luz um céu dolente,
E em mim
Um desejo de arder somente
Sem palavras e sem gestos.
Uma certeza: de ser mais
Do que um rosto incógnito
Na noite inalterável.
Talvez uma alma que se consome em outra Alma
Talvez um átomo de luz a clarear a noite
A minha, a tua, a nossa noite
A noite dos desalumbrados.……
👁️ 1 871
CREPÚSCULO
Ardem sombras ao crepúsculo
Sombras de luzes que me aquecem
E me desenham nas formas insurrectas
E no chão das sombras eu procuro
Em vão O lugar das coisas certas
Sombras de luzes que me aquecem
E me desenham nas formas insurrectas
E no chão das sombras eu procuro
Em vão O lugar das coisas certas
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CARLA FURTADO RIBEIRO começou a escrever poesia aos 13 anos de idade e publicou recentemente o seu primeiro livro, Em silêncio, pela Chiado Editora. Dele constam três poemas selecionados para duas antologias de poesia portuguesa contemporânea. Em 2016 foram publicados três poemas seus na Revista Científica de Literatura, Cultura e Arte Letras ConVida, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Carla Furtado Ribeiro é licenciada em Direito pela Universidade de Coimbra e exerce advocacia. Para além da criação poética, cultiva com igual esmero a criação musical. Alguns dos seus poemas podem ser lidos no blogue Imitação da vida.
«A sua obra impressiona pela suavidade e pela luminosidade, num tempo em que a alma poética tende para cromatismos mais carrancudos e formas disformes. Há um efectivo prazer em ler esta poesia, que se retira da musicalidade encantatória dos versos, das harmoniosas e engenhosas alquimias rítmicas, fónicas, semânticas e lexicais, das surpreendentes nervosidades metafóricas, da primorosa selecção vocabular, da profundidade e complexidade das ideias, do fulgor e da limpidez das texturas cromáticas. Uma poesia enxuta e solar que prende o real e nos prende. A escrita, embora capciosa como convém ao artifício poético, é fluída, dúctil, grácil, a cavalo entre a tradição e a inovação. Podemos dizer que a sua poesia é leve, mas, nunca ligeira. Leve na palavra, leve na estrutura, leve no movimento, mas densa e bem assente em ideias de timbre existencial, metapoético e espiritual. » in Revista Letras ConVida, 2014-2016, Fac. Letras da Univ. Lisboa
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