Lista de Poemas
Viver imperativo
Nem toda promessa é falta
Nem todo crime é pena
Nem toda dor mata...
Lê
Na pauta da areia fina
No olho desta tormenta serena
No espelho d'água da retina...
Sê
Para a montanha, o vulcão
Para o silêncio, o grito
Para o frio de Agosto, o verão...
Vê
Que a roleta permanece rodando
O músculo persevera hirto
E eu continuo voltando...
O tolo motivo da rosa
Em nenhum momento
falei-te de minhas agonias
mas trago comigo algumas feridas
Se o que feriu não foi
espinho
Se o que abriu não foi
botão
Em tempo marcado
tentei ceifar-te de minhas entranhas
fugi do abrigo e transpus as medidas
Se o que desfolhou não era
pétala
Se o que exalou não era
perfume
E deixando de ser assim
também vou existindo
imotivada pelo tolo motivo
Se o que me ceifou não foi
ao acaso
Se o que me tocou não foi
sem amor
Battlefield
Não faças do amor um jogo
tuas torres serão tomadas,
teu cavalo destituído
e não há jogada magistral
que não peque
E mesmo que te esforces
antes que percebas
terás o teu coração em xeque
Não faças do amor ilusionismo
tua cartola estará rota
e teus lenços furados
e nenhum coelho salvador
te saltará
E por mais hábil que sejas
e mais recursos que lances
será o teu coração que desaparecerá
Não faças do amor um campo de batalha
os corpos estarão amontoados
e as vestes rasgadas
E ainda que uses da melhor tática
não haverá salvação
Sobrarão tua bandeira em farrapos
e vários pedaços destroçados
do teu derrotado coração.
Como é que se diz Eu te amo ?
Eu me lembro como se tivesse acontecido ontem, mas já se passaram tantos anos! Era uma sexta-feira. Naquela época, todas as sextas-feiras eram especiais. Éramos tão jovens e tínhamos todo o tempo do mundo. As ilusões não haviam fenecido, e ainda era cedo para nós.
Aproveitamos o dia que prenunciava o final de semana para comemorar, saímos do trabalho com o sol ainda alto, devido ao horário de verão. Fomos para o nosso "bunker" tradicional, um dos inúmeros "pés-sujos" que ladeavam o nosso escritório.
Trabalhávamos duro durante toda a semana, segundo o "Yuppie way of life", vigente naquele tempo , e buscávamos toda a diversão que algum veneno anti-monotonia pudesse nos proporcionar, nos tempos livres. Éramos jovens típicos daquele tempo. Hoje, um tempo perdido.
Discutíamos sobre tudo, desde a mais recente fofoca do escritório até Freud, Jung, Engels e Marx. E apesar de acreditarmos no futuro da nação, havia tanta sujeira nas favelas e no Senado (e por todos os lados) que sempre nos questionávamos: que país seria aquele? O Rio de Janeiro já prenunciava o faroeste caboclo que é hoje, mas ainda ficávamos até mais tarde nas ruas, conversando, bebendo, namorando... tentando descobrir como é que se diz: " - Eu te amo" !
Lá pelas tantas, a rádio que municiava a música ambiente anunciou uma notícia tão inédita quanto improvável para nós: havia falecido naquela madrugada, por infecção pulmonar, o cantor, compositor e líder da Legião Urbana, Renato Russo.
Ícone e porta-voz de toda uma geração, da minha geração, Renato foi a voz, o cérebro e o coração de toda uma época. Sabíamos de seu recolhimento e das suspeitas de que ele estivesse com AIDS, mas o lançamento de um novo CD, "A Tempestade", apesar de tão belo quanto soturno, nos havia dado um novo alento. Mesmo depois de ouvirmos o anúncio de sua morte, custávamos a acreditar. No meu canto, eu repetia internamente: eu não vou chorar, eu não vou chorar... Acho que todos daquela mesa estavam pensando o mesmo, porque ninguém ousava falar palavra sequer. Aos poucos, timidamente, alguns começaram a cantarolar baixinho, a música que estava sendo reproduzida no alto-falante, como se não houvesse amanhã.
A noite acabou e certamente não fugiríamos mais com ele, ficaram as honras e promessas, lembranças e estórias. Enquanto estávamos indo de volta para casa, eu me lembrava de uma frase dele que dizia que não devemos cultuar heróis porque até mesmo estes tem os pés de barro...
Contudo, eu não queria de forma alguma me desfazer de meu herói. Se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais e seja como for, mesmo com os seus pés de barro, eu rabisquei um sol na calçada, com a fugacidade de um giz. Ou da própria vida. Mas tudo bem...
Tributo a Renato Russo (1960-1996)
Outro outono
há instantes,
quisera fossem os seus,
órbitas distantes,
mas foram-se ligeiros,
como outra estação
Estas mãos que se estenderam
às minhas,
naquela hora,
Quisera fossem as suas,
muito embora,
não possuam calor,
nem suor,
nem paixão
Estes lábios que falam aos meus
no presente,
quisera fossem os seus,
muito quentes,
mas sussurram palavras oblíquas,
num esforço oco
e vão
Estes corpos suados, entrelaçados,
nesta cama,
Quisera fossem os nossos,
óleo e chama,
incendiando desejos,
entorpecidos
de tesão
Este perfume que senti
há um segundo
Quisera deixasse seu rastro
neste mundo,
mas perdeu-se no ar, com o fim
de outro verão
Esta nova estação que chega
justo agora,
Quisera fosse mais que outro outono,
e levasse a saudade
embora...
e deixasse cair folhas secas
ao vento,
no chão...
Cegos nós
nem mais um segundo
de meu tempo,
nem mais uma nesga
de minha alegria,
nem mais uma gota
de minha lágrima,
nem mínimo alqueire
de meu coração...
Acabou então, agora,
neste instante, e de há muito
só não havíamos notado
o cadáver em nossas mãos
para que velório, cerimônia
enterro, crematório
neste sepulcro hipócrita
denominado casamento,
simulacro de vida,
feto irrealizável,
corvo em meu ombro,
túmulo do amor
É chegado o momento
em que as duas pontas,
então entrelaçadas,
apertam o vazio,
sufocam o passado,
como cegos nós,
cada uma para diferentes lados
O que inexistia toma forma
e se torna insuportável:
o nojo, o enjôo,
o asco, recíproco e inexorável
escorrem pelas paredes e vísceras,
a culpa é multiplicada, nunca dividida
e somada por cada um,
computada ao outro
Quem deitou sementes de engano
em solo inadequado?
quem jogou sementes de mentira
em terreno arenoso?
Como fomos cegos nós, ao acreditar
que de semeadura desditosa
viríamos ao acaso colher amor...
Palavras insones
de sonhos e esperanças
pouso o copo vazio de bebida,
de lenitivo ou veneno,
na mesa oca
e procuro palavras insones
que façam companhia
a este papel inerte
e branco
Onde estão? na soleira vazia
da casa, no coração deserto
do peito de carne
que bate involuntário,
como o tiquetaquear
dos relógios da sala
de estar
Estarão no limbo à espera
de algum chamado grave?
Estarão suspensas, encantadas,
aguardando a hora exata,
caprichosa de aparecerem?
Onde estão? chamo-as pelo nome,
aceno, pisco os olhos,
conduzo algumas pelas mãos,
esforço inútil,
pois que estas deusas
caprichosas,
melindrosamente,
não se deixam conduzir
por onde não desejem ir.
Não sou eu que as escolho, garimpo,
reúno e escrevo. As palavras,
estas damas lascivas e coerentes, sãos elas
que me escolhem, me recolhem,
Conduzem-me pelas mãos e me levam onde
eu nunca sonhei estar.
Esta mulher do assento à frente
do meu,
neste cinema,
nesta sala de espera,
nesta condução,
está uma mulher peculiar
Não é mesmo bela,
nem é feia
Não é assim jovem,
nem é idosa
Não é minha conhecida,
nem me é indiferente
esta mulher do assento à frente
De perfil eu posso observar
seu queixo pontudo e saliente,
seu nariz adunco e angular
Seus cabelos são de qualquer cor
exceto daquela que, exatamente
ela permite mostrar
Frenético o trabalho de seus lábios
insistentes a abrir e fechar...
Do que tanto fala à sua companheira
ao lado, assim, sem parar...
Será que ela maldiz, fere ou mente,
esta mulher do assento à frente?
Proferiria, leviana, o infortúnio de seus
conhecidos, de desconhecidos, o meu?
Falaria da vida íntima de sua família,
de seus amigos e parentes?
distribuiria maledicências aos quatro
cantos, até quando não mais agüentar?
Ou pelo contrário, estaria ensinando à amiga,
uma receita de sobremesa, de simpatia
ou de chá...
Ensinaria lições de vida, reconfortando,
aconselhando a esquecer o abalo e
seguir em frente?
Pois que uma voz inaudita se aproxima e
proclama: querido... são as aparências que mentem!
Estaria então, diametralmente enganado
e viria de mim o mal
que vi refletido como espelho
nos lábios inocentes
desta mulher do assento à frente...
Retrato da artista quando jovem
dançavam altas, esguias,
com ritmo e maestria
e embaladas
pendiam do colo
da madrugada
E os desejos num frêmito,
e as
frustrações num vômito,
confundiam-se com as badaladas
trôpegas do relógio
na noite
desnudada
Eis a escuridão,
mãe de todos os
escondedouros,
que revela, numa centelha ínfima,
emolduradas de
luz,
duas órbitas enluaradas...
E os olhos,
oh, os
olhos!
irrompiam brilhantes, pérolas
castanhas e hipnóticas
a mirarem
com sofreguidão
- e decisão - para o futuro
E o futuro para a jovem de
vinte e um anos
é apenas mais um porto a apartar-se
em tênue embarcação de
ambições e sonhos
E o futuro para a artista tão menina
e tão mulher,
então será:
uma massa a ser moldada,
uma tela a ser preenchida,
uma
folha a ser escrita
uma vida a ser vivida !
Eis a face
caleidoscópica
que afirma-se serena nos contornos
singulares de seus
traços
retilíneos e angulares
emoldurada pela noite fechada
e selvagem
dos cabelos
E o sorriso inaudito
esconde contrito, a felicidade
exuberante
dos dentes, desejo e alegria latentes
franqueado aos diletos
mais chegados
e no semblante, a seriedade de
quem quer
gargalhar...
E os lábios de alvorecer
róseos e fartos,
abrem-se de
um jeito só seu
como quem beija ou faz uma prece,
para o dia
amanhecer
e a claridade da manhã
desvelada, revelar sua alva
tez...
E o seu corpo longilíneo não
precisa das palavras,
mas dos
demais sentidos:
audição, tato e paladar,
lábios, língua, braços,
unha
e o cálido encaixe
de outro coração junto a si...
Mas as
palavras, oh, as palavras!
As palavras, atropeladas
pela emoção e
embaralhadas
nas brumas da noite-manhã,
jazem enfileiradas, aprumadas no
papel
e calam embargadas e inertes
nos lábios do poeta...
(para Tamara Queiroz)
O reflexo no espelho
Vazia, a cama espelha o peito daquele amante
que antes dançava em par, agora queda distante
e de dor se vestiu tão grave
Macia, a carne cálida do corpo nu de sua amada
que antes entretecida à sua, agora fez-se alada
e de amor se tornou entrave
Noite alta vaza a alma quase inválida, naquele instante
querela muda clama ávida a presença pálida de sua dama
é sua imagem este reflexo, naquele espelho sobre a cama?
ou mero eco, vago e oco, de estrela morta ainda brilhante?
Por hora o amante inquieto chora, o mínimo vestígio de seu amor
serão dela aqueles olhos, lendo Pessoa, refletidos na janela daquele vagão?
será sua aquela imagem rouca, que espelha louca as quimeras do coração?
incógnito o reflexo no espelho, do amante que tão grave, se vestiu de dor.
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