Lista de Poemas

Viver imperativo

Crê

Nem toda promessa é falta

Nem todo crime é pena

Nem toda dor mata...





Na pauta da areia fina

No olho desta tormenta serena

No espelho d'água da retina...





Para a montanha, o vulcão

Para o silêncio, o grito

Para o frio de Agosto, o verão...





Que a roleta permanece rodando

O músculo persevera hirto

E eu continuo voltando...
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Como é que se diz Eu te amo ?

E lá se foram dezesseis anos. Ficaram a saudade e as eternas canções de um ídolo de minha juventude. Abaixo transcrevo um texto em homenagem a ELE, escrito em 2007, no meu blog "prosa eletrônica":



Eu me lembro como se tivesse acontecido ontem, mas já se passaram tantos anos! Era uma sexta-feira. Naquela época, todas as sextas-feiras eram especiais. Éramos tão jovens e tínhamos todo o tempo do mundo. As ilusões não haviam fenecido, e ainda era cedo para nós.



Aproveitamos o dia que prenunciava o final de semana para comemorar, saímos do trabalho com o sol ainda alto, devido ao horário de verão. Fomos para o nosso "bunker" tradicional, um dos inúmeros "pés-sujos" que ladeavam o nosso escritório.



Trabalhávamos duro durante toda a semana, segundo o "Yuppie way of life", vigente naquele tempo , e buscávamos toda a diversão que algum veneno anti-monotonia pudesse nos proporcionar, nos tempos livres. Éramos jovens típicos daquele tempo. Hoje, um tempo perdido.



Discutíamos sobre tudo, desde a mais recente fofoca do escritório até Freud, Jung, Engels e Marx. E apesar de acreditarmos no futuro da nação, havia tanta sujeira nas favelas e no Senado (e por todos os lados) que sempre nos questionávamos: que país seria aquele? O Rio de Janeiro já prenunciava o faroeste caboclo que é hoje, mas ainda ficávamos até mais tarde nas ruas, conversando, bebendo, namorando... tentando descobrir como é que se diz: " - Eu te amo" !



Lá pelas tantas, a rádio que municiava a música ambiente anunciou uma notícia tão inédita quanto improvável para nós: havia falecido naquela madrugada, por infecção pulmonar, o cantor, compositor e líder da Legião Urbana, Renato Russo.



Ícone e porta-voz de toda uma geração, da minha geração, Renato foi a voz, o cérebro e o coração de toda uma época. Sabíamos de seu recolhimento e das suspeitas de que ele estivesse com AIDS, mas o lançamento de um novo CD, "A Tempestade", apesar de tão belo quanto soturno, nos havia dado um novo alento. Mesmo depois de ouvirmos o anúncio de sua morte, custávamos a acreditar. No meu canto, eu repetia internamente: eu não vou chorar, eu não vou chorar... Acho que todos daquela mesa estavam pensando o mesmo, porque ninguém ousava falar palavra sequer. Aos poucos, timidamente, alguns começaram a cantarolar baixinho, a música que estava sendo reproduzida no alto-falante, como se não houvesse amanhã.



A noite acabou e certamente não fugiríamos mais com ele, ficaram as honras e promessas, lembranças e estórias. Enquanto estávamos indo de volta para casa, eu me lembrava de uma frase dele que dizia que não devemos cultuar heróis porque até mesmo estes tem os pés de barro...



Contudo, eu não queria de forma alguma me desfazer de meu herói. Se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais e seja como for, mesmo com os seus pés de barro, eu rabisquei um sol na calçada, com a fugacidade de um giz. Ou da própria vida. Mas tudo bem...



Tributo a Renato Russo (1960-1996)
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Outro outono

Estes olhos que fitaram os meus

há instantes,

quisera fossem os seus,

órbitas distantes,

mas foram-se ligeiros,

como outra estação



Estas mãos que se estenderam

às minhas,

naquela hora,

Quisera fossem as suas,

muito embora,

não possuam calor,

nem suor,

nem paixão



Estes lábios que falam aos meus

no presente,

quisera fossem os seus,

muito quentes,

mas sussurram palavras oblíquas,

num esforço oco

e vão



Estes corpos suados, entrelaçados,

nesta cama,

Quisera fossem os nossos,

óleo e chama,

incendiando desejos,

entorpecidos

de tesão



Este perfume que senti

há um segundo

Quisera deixasse seu rastro

neste mundo,

mas perdeu-se no ar, com o fim

de outro verão



Esta nova estação que chega

justo agora,

Quisera fosse mais que outro outono,

e levasse a saudade

embora...

e deixasse cair folhas secas

ao vento,

no chão...

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O tolo motivo da rosa

Em nenhum momento

falei-te de minhas agonias

mas trago comigo algumas feridas

Se o que feriu não foi

espinho

Se o que abriu não foi

botão



Em tempo marcado

tentei ceifar-te de minhas entranhas

fugi do abrigo e transpus as medidas

Se o que desfolhou não era

pétala

Se o que exalou não era

perfume



E deixando de ser assim

também vou existindo

imotivada pelo tolo motivo

Se o que me ceifou não foi

ao acaso

Se o que me tocou não foi

sem amor

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Battlefield







Não faças do amor um jogo



tuas torres serão tomadas,



teu cavalo destituído



e não há jogada magistral



que não peque



E mesmo que te esforces



antes que percebas



terás o teu coração em xeque











Não faças do amor ilusionismo



tua cartola estará rota



e teus lenços furados



e nenhum coelho salvador



te saltará



E por mais hábil que sejas



e mais recursos que lances



será o teu coração que desaparecerá











Não faças do amor um campo de batalha



os corpos estarão amontoados



e as vestes rasgadas



E ainda que uses da melhor tática



não haverá salvação



Sobrarão tua bandeira em farrapos



e vários pedaços destroçados



do teu derrotado coração.











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Estesia

Que se faça a luz

posto que há muito

se traduz

o meu caminho por penumbra

e a minha vida por sombra



Luz: a que sucede ao

crepúsculo,

a que advêm de um

ósculo

a que de dor, tão intangível

me atinja,

me fira as vistas

e me faça enxergar



Que se faça a música

posto que há muito

uma rústica

balbúrdia retine inclemente

como uma grande torrente



Música: a que destoe tanto

quanto possível do barulho

vigente

que ressoe, e tão dissonante

me tanja,

me adivinhe o timbre,

e me faça ecoar



Que se façam as cores

posto que há muito

minhas dores

em preto-e-branco desbotado

pincelaram um painel entrecortado



Cores: que sejam tão policromáticas

quanto possível, numa tela

expressionista

que impressionem e imprimam

a alegria

que de inopino desbotaram

e insisto em recobrar



Que se faça a palavra

posto que desde muito

escalavra

no verbo, nos escritos

e no papel, o que não foi dito



Palavra: que a mentira

se faça falácia e o verbo

se faça flor

que transforme a forma

e transfigure a dor

em algo novo e belo,

prestes a desabrochar...



Que desabroche, então

em luz, música, poesia e cor,

verbo, forma, vida e amor...

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Palavras insones

Nesta noite vazia

de sonhos e esperanças

pouso o copo vazio de bebida,

de lenitivo ou veneno,

na mesa oca

e procuro palavras insones

que façam companhia

a este papel inerte

e branco



Onde estão? na soleira vazia

da casa, no coração deserto

do peito de carne

que bate involuntário,

como o tiquetaquear

dos relógios da sala

de estar



Estarão no limbo à espera

de algum chamado grave?

Estarão suspensas, encantadas,

aguardando a hora exata,

caprichosa de aparecerem?



Onde estão? chamo-as pelo nome,

aceno, pisco os olhos,

conduzo algumas pelas mãos,

esforço inútil,

pois que estas deusas

caprichosas,

melindrosamente,

não se deixam conduzir

por onde não desejem ir.



Não sou eu que as escolho, garimpo,

reúno e escrevo. As palavras,

estas damas lascivas e coerentes, sãos elas

que me escolhem, me recolhem,

Conduzem-me pelas mãos e me levam onde

eu nunca sonhei estar.
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Cegos nós

A ti não darei

nem mais um segundo

de meu tempo,

nem mais uma nesga

de minha alegria,

nem mais uma gota

de minha lágrima,

nem mínimo alqueire

de meu coração...



Acabou então, agora,

neste instante, e de há muito

só não havíamos notado

o cadáver em nossas mãos



para que velório, cerimônia

enterro, crematório

neste sepulcro hipócrita

denominado casamento,



simulacro de vida,

feto irrealizável,

corvo em meu ombro,

túmulo do amor



É chegado o momento

em que as duas pontas,

então entrelaçadas,

apertam o vazio,

sufocam o passado,

como cegos nós,

cada uma para diferentes lados



O que inexistia toma forma

e se torna insuportável:

o nojo, o enjôo,

o asco, recíproco e inexorável



escorrem pelas paredes e vísceras,

a culpa é multiplicada, nunca dividida

e somada por cada um,

computada ao outro



Quem deitou sementes de engano

em solo inadequado?

quem jogou sementes de mentira

em terreno arenoso?

Como fomos cegos nós, ao acreditar

que de semeadura desditosa

viríamos ao acaso colher amor...
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Retrato da artista quando jovem

E as horas

dançavam altas, esguias,

com ritmo e maestria

e embaladas

pendiam do colo

da madrugada



E os desejos num frêmito,

e as

frustrações num vômito,

confundiam-se com as badaladas

trôpegas do relógio

na noite

desnudada



Eis a escuridão,

mãe de todos os

escondedouros,

que revela, numa centelha ínfima,

emolduradas de

luz,

duas órbitas enluaradas...



E os olhos,

oh, os

olhos!

irrompiam brilhantes, pérolas

castanhas e hipnóticas

a mirarem

com sofreguidão

- e decisão - para o futuro



E o futuro para a jovem de

vinte e um anos

é apenas mais um porto a apartar-se

em tênue embarcação de

ambições e sonhos



E o futuro para a artista tão menina

e tão mulher,

então será:

uma massa a ser moldada,

uma tela a ser preenchida,

uma

folha a ser escrita

uma vida a ser vivida !



Eis a face

caleidoscópica

que afirma-se serena nos contornos

singulares de seus

traços

retilíneos e angulares

emoldurada pela noite fechada

e selvagem

dos cabelos



E o sorriso inaudito

esconde contrito, a felicidade

exuberante

dos dentes, desejo e alegria latentes

franqueado aos diletos

mais chegados

e no semblante, a seriedade de

quem quer

gargalhar...



E os lábios de alvorecer

róseos e fartos,

abrem-se de

um jeito só seu

como quem beija ou faz uma prece,

para o dia

amanhecer

e a claridade da manhã

desvelada, revelar sua alva

tez...



E o seu corpo longilíneo não

precisa das palavras,

mas dos

demais sentidos:

audição, tato e paladar,

lábios, língua, braços,

unha

e o cálido encaixe

de outro coração junto a si...





Mas as

palavras, oh, as palavras!



As palavras, atropeladas

pela emoção e

embaralhadas

nas brumas da noite-manhã,

jazem enfileiradas, aprumadas no

papel

e calam embargadas e inertes

nos lábios do poeta...



(para Tamara Queiroz)
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O reflexo no espelho

Vazia, a cama espelha o peito daquele amante

que antes dançava em par, agora queda distante

e de dor se vestiu tão grave



Macia, a carne cálida do corpo nu de sua amada

que antes entretecida à sua, agora fez-se alada

e de amor se tornou entrave



Noite alta vaza a alma quase inválida, naquele instante

querela muda clama ávida a presença pálida de sua dama

é sua imagem este reflexo, naquele espelho sobre a cama?

ou mero eco, vago e oco, de estrela morta ainda brilhante?



Por hora o amante inquieto chora, o mínimo vestígio de seu amor

serão dela aqueles olhos, lendo Pessoa, refletidos na janela daquele vagão?

será sua aquela imagem rouca, que espelha louca as quimeras do coração?

incógnito o reflexo no espelho, do amante que tão grave, se vestiu de dor.

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