Escritas

Cegos nós

Adam_Flehr
A ti não darei

nem mais um segundo

de meu tempo,

nem mais uma nesga

de minha alegria,

nem mais uma gota

de minha lágrima,

nem mínimo alqueire

de meu coração...



Acabou então, agora,

neste instante, e de há muito

só não havíamos notado

o cadáver em nossas mãos



para que velório, cerimônia

enterro, crematório

neste sepulcro hipócrita

denominado casamento,



simulacro de vida,

feto irrealizável,

corvo em meu ombro,

túmulo do amor



É chegado o momento

em que as duas pontas,

então entrelaçadas,

apertam o vazio,

sufocam o passado,

como cegos nós,

cada uma para diferentes lados



O que inexistia toma forma

e se torna insuportável:

o nojo, o enjôo,

o asco, recíproco e inexorável



escorrem pelas paredes e vísceras,

a culpa é multiplicada, nunca dividida

e somada por cada um,

computada ao outro



Quem deitou sementes de engano

em solo inadequado?

quem jogou sementes de mentira

em terreno arenoso?

Como fomos cegos nós, ao acreditar

que de semeadura desditosa

viríamos ao acaso colher amor...
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Comentários (1)

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joao_euzebio
2012-08-22

Teus poemas tem encantos que nos fazem sonhar ir de encontro a realidade voar por ai em asas que a saudade nos deu.Parabéns