Escritas

Lista de Poemas

Estesia

Que se faça a luz

posto que há muito

se traduz

o meu caminho por penumbra

e a minha vida por sombra



Luz: a que sucede ao

crepúsculo,

a que advêm de um

ósculo

a que de dor, tão intangível

me atinja,

me fira as vistas

e me faça enxergar



Que se faça a música

posto que há muito

uma rústica

balbúrdia retine inclemente

como uma grande torrente



Música: a que destoe tanto

quanto possível do barulho

vigente

que ressoe, e tão dissonante

me tanja,

me adivinhe o timbre,

e me faça ecoar



Que se façam as cores

posto que há muito

minhas dores

em preto-e-branco desbotado

pincelaram um painel entrecortado



Cores: que sejam tão policromáticas

quanto possível, numa tela

expressionista

que impressionem e imprimam

a alegria

que de inopino desbotaram

e insisto em recobrar



Que se faça a palavra

posto que desde muito

escalavra

no verbo, nos escritos

e no papel, o que não foi dito



Palavra: que a mentira

se faça falácia e o verbo

se faça flor

que transforme a forma

e transfigure a dor

em algo novo e belo,

prestes a desabrochar...



Que desabroche, então

em luz, música, poesia e cor,

verbo, forma, vida e amor...

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Os Lábaros que ostentas

Nós somos diferentes,

uma outra categoria

uma outra classe,

uma nova ordem,

abençoados filhos

de uma mesma mãe gentil,

deitados eternamente

ao som do mar e à luz

do céu,

dos candeeiros,

dos refletores,

nos campos, matas

e cidades,

em casas de sapê,

barracos de madeira,

mansões luxuosas ou

apartamentos elegantes,

abrigando tipos diversos

de sonhos e anseios



Quais os lábaros que ostentas

em suas janelas

abertas para o mundo?



O lábaro verde-louro estrelado

em dias de orgulhoso ufanismo

com os sucessos de nosso futebol

em que almejamos mais uma vitória,

mais uma estrela

que nos console e redima

e corrija a trajetória

de nosso destino



O lábaro alvíssimo da paz

em tempos de aflitiva ansiedade

em que insanos do oriente,

árabes, judeus,

coreanos do norte,

insistem em nos oferecer

a flor da destruição



O lábaro multicolorido da diversidade

em que a tolerância é proposta

como forma de convivência

em paz

inspirada nas cores do arco-íris



O lábaro verde da preservação ecológica

em que nossos lindos campos,

nossas flores, nossos bosques

perdem a vida

devido à exploração inescrupulosa

e ao interesse cúpido

de nossos vizinhos

por nossa Amazônia



O lábaro negro da indignação

em que hasteamos nossa vergonha

e nosso inconformismo

ante aos escárnios diários

que são jogados em nossa face



pela insegurança em que vivemos

devido à violência desenfreada

fomentada pelo descaso

de quem deveria nos proteger



pelas fraudes, negociatas,

torpezas, logros, falcatruas,

oferecidas pelos mesmos governantes

que elegemos na esperança

de colhermos respeito, trabalho

e uma vida melhor





Quais os lábaros que ostentas gigante,

pela própria natureza distante

dos filhos deste solo?



Hasteia ó pátria amada, todos eles:

o verde-louro, o branco ou o verde, se mereça,

o multicolorido ou o negro

para que a imagem do cruzeiro, um dia enfim, resplandeça!
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Ancoradouro

Ancoradouro perdido



num oceano de gotas de sonho



onde náufrago errante, venho aportar



noite escura e fria, deito em seu colo e repouso



e minha alma vaga, vadia...







Vento soprando sutilmente



entre as folhas em torrente, faz o outono embarcar



traz o inverno imponentes geleiras



pedras de(s)ilusão



cala(o)frio das paixões



que se apagam lentamente



e imperceptivelmente, não ardem mais...







Em seu abrigo me recolho



me aqueço, me esqueço



e mansamente, imaculadamente,



adormeço em seu cais...







Sete milhas navegante



atravesssando os sete mares,



em seu ancoradouro chegar...







Porto seguro, firme e tácito



delicado, doce pergunta: - quer aportar?







Navegante solitário,



seduzido, frágil, pergunto: - posso ficar?







Por um instante



ou talvez mais...
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Pro dia morrer de amor

Eu vivo o inacessível

sinto o improvável

desejo o interditado

minto o inegável

deste amor

tão impossível

quanto

indispensável



E todas as vozes

diriam em uníssono

a verdade nua e crua:

impossível tentar

tamanha aventura,

tão intangível

quanto o amor do sol

pela lua



Ignoram pois, que há

uma determinada hora

em que ambos se encontram:

esvaindo-se no horizonte

em sangue e calor

o sol abraça a lua

e se deita,

enquanto ela, lânguida,

se levanta

pro dia morrer de amor...

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O Sete

Se naveguei pelos sete mares,



te busquei lá no sétimo céu,



mergulhei as sete mil léguas,



para então descobrir :



depois do sete, o infinito...







Se perdoei setenta vezes sete,



te esperei amor, retornar



depois de sete dias,



para tanto eu paguei



com setenta e sete moedas



e uma de minhas sete vidas...







Pois tudo que começa



tem seu ciclo e finda



em sete horas, sete dias,



sete luas, sete meses,



sete anos, sete versos,



sete reses...







Dividi meu coração em sete pedaços



e os enterrei em sete cantos



para que um deles,



dentre tantos encontrasse a felicidade...







Dividi a minha casa em sete cômodos



e habitei cada um deles,



com meus temores e anseios,



para fugir da solidão...







Dividi o romance em sete capítulos



e fiz do girassol o meu bem-me-quer,



despetalei por fim quase todo o livro



e não encontrei em mim as palavras certas...







Dividi o amor em sete faces



tendo cada qual seu esfíngico enigma,



a interrogar-me...



então respondo:



devora-me, pois já não me decifro mais...
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O codinome da flor

Eu sou um homem comum

perdido na trilha errante

de meus passos incertos,

situado estatisticamente

entre linhas e colunas,

entre "zeros" e "uns",

onde sou contado,

remanejado,

deletado,

onde sou mais um...

***

Não sei qual o volume do planeta

nem a vazão dos oceanos,

mas trago um alforje aberto

na altura do peito,

do tamanho do mar...

***

Eu sou um homem qualquer

rabisco palavras na areia

na esperança de que perdurem,

passeio por cárceres disfarçados

de abrigo, de ofício, de gente

e já não disto nem mesmo

o que é desejo indômito

ou vida inclemente,

nesta estrada sinuosa,

ora aclive,

ora declive

em que ora caminho...

***

Desconheço a lei das doze tábuas

e alguns dos dez mandamentos,

mas trago no bolso um verso que conta

o trágico efeito

da ausência de amar...

***

Eu sou um homem banal

e cultivo sementes de sonhos

num jardim suspenso em meu peito,

entre girassóis, gardênias e gerânios

semeio quimeras, colho esperanças,

sou jardineiro do fortuito

e do trivial

ontem plantei uma roseira,

hoje desabrochou:

em poesia abriu um botão

***

Não sei o nome da rosa

mas arrisco o codinome da flor:

cálido e impenetrável

um botão abriu neste jardim

e o chamei de amor...

***

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