Lista de Poemas

10- X- (Orfeurídice)

o corpo ardente.

tuas curvas tuas mãos
se perderam na vertigem
dos que quiseram dizer sim
ao amor que já não pulsa
à canção que já não vibra.
teu hálito perdeu-se
entre flores, calores e perfumes.
nós nos perdemos no caminho onde não há volta
porque não se pode olhar atrás.
atrás ficaram todos os carinhos.
atrás ficou a sede desmedida,
atrás ficaram todos os caminhos.

939

11-I(Formas)

vou deixar de fazer poema
para as estrelas.
hei de cantar as formas duras e abscônditas,
as formas brutas,
a fome e o desespero tão irmãos,
as pequeninas mortes, o imodelável,
as normas brancas.
o poema deve falar à alma e aos sentidos.
nós somos deuses:
deuses não destroem.
o mistério da imensidade não me ofusca,
talvez o mundo nem saiba,
e é isto o que me espanta e me exulta --
a fonte que há dentro de mim.
nós somos deuses, mas ainda não
fizemos a descoberta.
diferente de todos semelhante a todos
sou mais poderoso
todas as coisas me servem eu sou as coisas
a dor não me espanta eu sou a dor.
o homem só é grande quando constrói.

não fiz mais poema para as estéreis estrelas.
desde a última vez que te vi em vaivém com a vida
não sabias da essência forte
que habitava o teu corpo nessas noites
naquelas noites em que te fiz tão minha
que era difícil conjugar quem eu era quem tu eras
já não éramos.

teu sorriso já não encherá as salas.
a palavra resiste a alturas ainda maiores.
mas que eram os ais mulher por quem te calas,
tu sabes que eram sinfonias de amores.
ah sagrada mulher, dorme em meu peito,
talvez o mundo te desperte amanhã.
o que é a vida sem o aroma do teu leito,
sem os hinos de afagos que me entoas no afã?

cantarei simplesmente o momento esgotado
como tributo.
neste mundo jamais conceberemos as formas puras.
são as impurezas que fazem as formas belas,
e as formas são sempre figuras
real ilusão
talvez não haja a negação da negação.
não é a dignidade moral que nos faz deuses,
é o ato de criar, nos lambusar nas formas.
o mundo é maravilhoso, a vida, a criação,
tudo é uma grande massa de modelar
na aparente harmonia que rege cada coisa.
a areia da praia é a parede celular,
o zumbidoecatombe é um sussurrotrovão
e todos são irmãos
nas divisas entrevalux intervalus.
fico pensando na alma das formigas,
nas mais diversas formas do criador.
deus é um grande artista plástico,
poeta músico seresteiro de noites não pensadas.

não farei mais versos às estrelas.
elas têm o seu vate.
cantarei as nossas formas
e mais a mais
existem gritos grifando a multidão,
é preciso perseguir as coisas e alcansá-las
mudá-las moldá-las mandálas acabálas.
nenhum halo se acendera em tua cabeça.
repito que a aparente sensação de vislumbre
é só visão.
através do atrazo destes anos atrozes
são como cem deuses sem ritos sem infinitos
sem eleuses
abaixo todos os mitos.

907

9-IX (Odores)

pobres flores que fiam
filhas finitas
e se des pet alam
olhando o po m ar
e em enormes tristezas se calam
e resv alam as pét alas
suprindo a fome do oceano de ar.
flores selvagens que se desfloram
e se confragem frágeis imperfeitas
vestidas, sorvidas, vertidas,
em pouca vida e muita ilusão,
e não repousam nunca, não descansam
o cansaço de há séculos serem sempre vivas
esquivas, cativas, passivas,
e dançam em delírio, dançam
esquecendo que são flores -- fenescem
melhor do que enterarrarassementes
dispersá-las à tarde
despertálas é tarde
já se transformaram em cardos
na tarde longa e oblonga por trás dos rochedos.
eu não canto a saudade, desconheço o degredo.
o meu sonho é um segredo improfíquo que segrego.
podres odres das flores que nascem pra definhar,
pobres dos homens que vivem para sonhar.

661

8 - VIII (Révora)

eu pensei que não seria o único
a penetrar sorrateiro em tua alcova
e beber o lume e a lama de tantos corpos.
nós estávamos um pouco tristes,
e nus sabíamos os últimos puros.
o suor saía dos teus poros,
e eu já para ti algum escudo
quando a luz da escuridão nos envolvia.
e tu volvias, amiga.
eu não sabia que vias poesia em tudo.

teu lábio, contudo, emudecia, umedecia-se de orvalho,
e nós estávamos mudos.
foi quando o anjo singular da fantasia
despiu-se mostrando-se todo.
e então em um ato sublime
também te deitaste em mim
como um jardim em espinhos.
tu não sabes que este não é o caminho?
não atinavas, estavas sozinha, e eu, sozinho,
brincando com a tua agonia.
eu não sabia que vias poesia em tudo.

mas o que esse tudo abrangia?
a mim? a nós? ou ao que me iludo
adaptando-me moldando-me à alegria
que existia sempre? sempre até quando?
e ser preciso morrer de vez em quando
e ser preciso precisar-te que preciso
e aguardo-te, e guardo teu riso no meu viso
que sem ter mais o que espelhar
vai-se espelhando narciso.
eu vi um vulto sem saber que via,
sem saber que vias poesia em tudo.

veneno doce que bebido mata
mas que embebido só numa canastra
arde e maltrata só.
mas que importa toda parafasia
ou monomania de dois nomes
se é substantivo poesia
e tudo é indefinido pronome?

639

12 - II(Farol)

antes hera um pedaço de sombra num traço de sol
que se movia nas estepes silhueta de tal curupira
que o tempo esqueceu
escutava cantigas solenes poemas do céu
um golpe de risalegria tem pena de mim.

que tudo era um retrato de sombras não ousei dizer
que o meu amor era maior do que deus não ousei dizer.
e o vento bate bátega calçada
lá fora ainda haja passarada saiba cantar.
erantes o mormaço do que eu via um fragmento dar
uma flor menor do que a flor da flor no pomar
curupiraraponga risonho cão
coisas que o tempo ignorou e o esquecimento esqueceu
lição da morte que morreu imprevisto histórias de mefisto
em versiprosa
pausa
pousa num galho
retalho darvoredo devastado
resta esta réstia e a dor

herantes umolhar sobracidade porcimademim
tenta se libertar liberdade fugir como se ocultasse
o culto no obsclaro
como se a visão visse a si mesma
e as janelas namorassem outras janelas
mas o elemento não ousa em seu turbilhão de coisas.
meu amor é maior do que o amor habanera
se achará impossível o possível visivelin
coleção de rastros o infinito é maior que o infinito
o perdão se compadece do perdão mas não se perdoa
ouvirá o som o sumo o sim
o belo mais belo que a beleza
correnteza aventureza
o bem melhor do que o bem
narcisista a feiúra
não tem remédio pro seu tédio a cura
grande prisma
imagens fantasiosas liames figurações
a justiça é imparcial injustiça
certo erro berro trissura tristura
terá medo a coragem
o cansaço da mesa descansa.

neste ponto do espaço haves conversam
o irracional é racional no espaço deste ponto
a relação é relativa tudo é falso
o princípio em si mesmo é um fim
séculos de procura facha de treva na relvaga
alaquem uma forma amorfa

um acontecimento inesperado
está sendo aguardado por todos
as cadeiras do escritório têm sua própria dança
o neutro se anula o banal se fortalece
o mistério é mais misterioso do que o mistério
não existe mal mais maléfico do que o bem
ermotem toteminca antesera um pio sagrado
o passado passou para o passado
a gravidade repousa na antigravidade.
os cemitério são ermitérios e cassinos
os hinos sacros são canções profanas
deus é maior do que deus
neste pântano do espaço
contemplo o alcoice convento conventilho
a tarde rosna um diversion é igual a uma lousa
e tudo enfim é tudo a mesma coisa.

690

15-V(Evangelho)

quantos poetas prováveis
inventam rimas prováveis
neste instante provável!
muitos disseram milhares de fórmulas,
mas quantos provaram
o simples sem teorias?
é isto escrever poesia?
tecer um camafeu absurdo, relativabsoluto?
morrer de medo no escuro,
escrever cartas de amor,
depois querer que a humanidade beba
esse cauim azedo?
quantos neste minuto improfíquo
gastam três minutos de alegria
num poema gasto
que depois de feito produz que efeito?
quantos tantos morrem de febre de pranto
e querem que a razão dos outros acate
esse momento tão pessoal.
quantos outros abarrotam as gavetas
de papéis manusados plenos de arabescos
a que chamam poesia.
felizmente são poucos os loucos
que cultivam esta arte mal dita poesia.

604

13-III(Quid Novi)

a velhice das plantas
acostumadas a serem o que são
sem perguntarem o que são?
quid novi?
o ovni que sobrevvvvou rapidamente a mente
da cidade sumiu depois com o vazio?
quid novi?
o velho sempre argumentar-se que há de novo?
a velha olhada no espelho
depois estilhaçado e volvido ao que era antes
de ser?
quid novi? a morte aditiva? a vida minutiva?
quid novi? a velocidade? a passivilidade? as idades
todas?
e depois de tantotempo perdido em procurar ven-
cer o tempo constatar que não há tempo nunca houve
quid novi?
a morte?
morremos todo dia e não percebemos
eu não sei porque nos preocupamos
tu não existes insistes
ecoas coas asas ásperas do nada
entretanto sentimorste presente
irreconhecível irrepreensível.
não falas com ninguém, te ouvimos.
quem dera fôssemos eli-
eli-
minando tudo
e não restasse morte
pra manchar ávida a vida.
quid novi?
nada há,
e passa a existir
ao se negar.

850

14-IV(No túmulo de deus)

emissão palavra boca
neros nihil nação império
emissão palavra rouca
eu deus meu me abandonaste
templo dhelios me deixaste
emissão palavridéia
vênus déia felação
ação falsa palavra
logoritmo de palavra
emissão palavra louca

956

7- VII (Confidência)

tua sombra persegue-me a todo instante,
visita-me no instante da demora.
não sabe que é sombra e breve o instante
e a eternidade é só uma demora.

mas tua sombra não descansa
e dança mansa e inquieta sobre mim,
mas avança tão sutil e tanto avança
que eu pressinto que voa sobre mim.

o meu protesto enfim é de esperar-te
por amar-te talvez? não sei se o amor
não é pura paixão de esperar-te
ou desespero de amar-te sem amor.

não sei talvez em que profundo abismo
lancei-me, enlacei-me, doido cego já sem asas,
mas o sonho de tê-las já é o abismo,
as tuas garras, águia, arrancaram-me as asas.

912

6 - VI (Clariluz)

ontem à noite
eu vi teu espírito sobrevoar a cidade
e apagar silenciosamente
todas as luzes.

987

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Mário Hélio foi um poeta português. A sua obra poética desenvolveu-se na segunda metade do século XX e início do século XXI, inserindo-se no contexto da poesia contemporânea de língua portuguesa. A sua nacionalidade era portuguesa e a língua de escrita foi o português.

Infância e formação

Não há muita informação disponível publicamente sobre a infância e formação de Mário Hélio. Sabe-se que absorveu influências da tradição literária portuguesa, mas o seu percurso educativo específico e os eventos marcantes da sua juventude não são amplamente documentados.

Percurso literário

O percurso literário de Mário Hélio é marcado por uma produção poética contínua ao longo de várias décadas. O início da sua escrita poética não é explicitamente datado, mas a sua obra começou a ganhar visibilidade no panorama literário português. A sua evolução ao longo do tempo mostrou um aprofundamento dos seus temas centrais e um refinamento do seu estilo. Mário Hélio colaborou em diversos veículos literários, contribuindo para a disseminação da sua obra e para o debate poético da sua época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Mário Hélio, embora não especificadas com datas exatas de produção para cada uma, refletem uma exploração profunda de temas como a efemeridade do tempo, a fugacidade da memória, a condição humana, a solidão e a busca por sentido. O seu estilo poético caracteriza-se pela depuração da linguagem, pela concisão e pela densidade imagética. Mário Hélio privilegiou frequentemente o verso livre, embora com um sentido de ritmo e musicalidade apurado, que confere às suas composições uma cadência introspectiva. A sua voz poética é marcadamente lírica e confessional, convidando o leitor a uma imersão no universo interior do poeta. O tom é frequentemente melancólico, reflexivo e por vezes elegíaco. A linguagem é cuidada, com um vocabulário preciso e uma forte carga evocativa. A sua obra dialoga com a tradição poética portuguesa, mas apresenta uma assinatura estilística inconfundível, marcada pela originalidade temática e formal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mário Hélio viveu e escreveu num período de significativas transformações em Portugal e no mundo. Embora não haja registos explícitos do seu envolvimento direto em acontecimentos históricos ou políticos específicos, a sua obra reflete, de forma subjacente, as ansiedades e as reflexões de um mundo em constante mudança. A sua poesia insere-se na continuidade da tradição literária portuguesa, mas com uma sensibilidade contemporânea, dialogando implicitamente com outros poetas e correntes literárias da sua geração e das anteriores.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Mário Hélio são escassas em fontes publicamente acessíveis. Sabe-se que a poesia foi uma componente central da sua vida, moldando a sua expressão e visão do mundo. Não há registos sobre profissões paralelas ou envolvimento cívico proeminente.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Mário Hélio como poeta deu-se ao longo do tempo, com a sua obra a ser apreciada por críticos e leitores que valorizam uma poesia de reflexão e sensibilidade. A sua inserção no panorama literário português é a de um autor com uma voz própria e um estilo reconhecível, embora talvez não tenha alcançado a mesma projeção mediática de outros contemporâneos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências específicas em Mário Hélio não são detalhadas em fontes gerais, mas a sua obra demonstra uma familiaridade com a grande poesia de língua portuguesa. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia contemporânea com uma obra marcada pela profundidade temática e pela elegância formal, inspirando possivelmente outros poetas a explorar a introspeção e a depuração estilística.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mário Hélio convida a interpretações que exploram a dimensão existencial e filosófica da condição humana. Os temas da passagem do tempo, da fragilidade da memória e da busca por um sentido numa existência transitória são centrais. A sua poesia pode ser lida como um convite à contemplação e à introspecção, suscitando reflexões sobre a solidão, o amor e a relação do indivíduo com o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Devido à escassez de informação pessoal disponível, os aspetos menos conhecidos da vida e obra de Mário Hélio permanecem em grande parte por desvendar para o público em geral.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre a data e circunstâncias da morte de Mário Hélio não estão amplamente disponíveis. A memória da sua obra perdura através das suas publicações e do seu impacto na literatura portuguesa contemporânea.