Lista de Poemas

25-V(A angústia)

a angústia é um barco
a angústia é um porto

a angústia é uma semente
na mente da carne do homem
louco que morre sem saber

a angústia é um homem
excessivamente morto

588

16-VI(Niilismo)

a inutilidade da existência
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.

999

27-VII (Incomunicável)

trancou-se no quarto
já sem mundo sem pátria pra ambicionar
já sem bússola sem norte para se abrigar
sem campo que a chuva regue
sem diabo que carregue
o nosso deus
e como não havia estrela pra contar
e como não havia doença pra curar
e como não havia remorso pra curar
e como não havia vida para matar
e como não havia morte para aumejar
ficou imóvel hirto supremo
lembrando as imperfeições das primeiras rimas.

756

29-IX(Choro e luz)

num dia de festa de muita alegria
lavei meus sonhos na velha pia
e tive medo de quem sorria
e do segredo de quem morria
mas era festa de só um dia
já não bastava tanta agonia?
eu precisava da tal fatia
de choro e luz de fantasia
mas a batalha era que ardia
a sarça ardente na mente fria
meu ser uma linha já que seguia
seu próprio passo de travessia
e para longe do espaço ia
e até bastante cedo descobria
não era amor o que se amou um dia
era outra alegria que irônica ria
era o nome do bicho que verônica via
que me espantava mas não fugia
que me matava mas nãomorria
era outra alegria... e é triste toda alegria

870

28-VIII-(O mágico)

o pássaro voou da cartola do mágico
mas não havia cartola nem truque
o pássaro-saíra da mão do mágico
mas não havia mão
o mágico num acidente mágico havia perdido
as duas mãos
e então de onde saíra o pássaro?
do chão, sim, do chão de onde saem
todos os pássaros
mas não havia chão
a multidão bem observou
não havia multidão nem mágico
mas o pássaro realmente voou.

946

26-VI(Expássaro)

ícaro sem asa
pássaro sem casa
trovador
trova
dor
a
caro em as
ássaro em asa
rovador
rova
or
a v
aro ma
ssaro m sa
ovador
ova
r
a vi
ros
saro as
vador
va
a v id
o s
aro s
a dor
a
a v id a
o
aro
a or
a vida a
a
a
a vida a v
a
a vida a vi
a vida: ávida ave do ar

883

33-III-(Bird)

a fragata espera na porta do circo
lábicos tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
a fraca esperança espera na porta do coração
lábios tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
mas não há gritos
nem haverá

981

30-X-(Dos que vivem na sombra)

ontem suspeitei o cego em mim
andei errante por ruas e não encontrei luas
e me castiguei com medo de mim
ontem descobri o monstro hurrando em mim
quisera que meu corpo fosse vosso corpo
o sombrio vagalume por pousadas de mim.

ontem suspeitei o descoberto em mim
e pensei em andar pra sempre nutando
pra ver o rosto vasto que se esmaga em mim
vencido contrafeito morto
me agarrei ao quindavia de intato em mim
há muito eu constatei a insegurânsia em mim
o anjo rebelde que havia em mim
o estranho prisioneiro nas masmorras em mim
escrevi versos duros de dura ansiedade
mas não constatei verdade alguma
escrevi versos pálidos num suspiro
mas não encontrei nenhuma só lição
à tona tropeçando nos meus passos
penso que é angústia o sentimento vácuo
mas não sei ao certo se existe angústia.
quisera que meu bálsamo fosse o vosso beijo
tendes lábios enormes e eu não os vejo
mas no alto do rosto se incendeia
a mesma luz sombria que me guia.
as forças me forçam a fins que desconheço
mas suspeito que está no universo falido
ontem descobri o pouco que conheço
e me vi trancado pelo avesso
não sei se foi remorso o que passou por mim
ou foi vontade de fugir de mim.

ontem descobri o desespero em mim
verti meu sangue no vasto mundo
amorte doido feito busquei
rasguei papéis desfiz contratos
que com meu ego o tempo fez,
sonhei loucuras calei-me há tempo
meu sofrimento é tão imenso e tão presente
que nem notei
é lodo e mundo ida sem volta
amorte é sangue maldiçoado
corpo do livro pastirrasgado
amorte é medo nunca explicado
há sempre uma possibilidade de não me esconder,
e vocês sorririam se eu dissesse que a tristeza
é supérflua enquanto importa esta análise?
deixa nua a verdade do medo todos temos medo
talvez seja pela cereja que tenho no corpo
e ninguém a colheu.
nunca mais amorte amarei
nunca direi sim direi sempre talvez.

ontem suspeitei o inacabado em mim
orgasma prometida à minha estrela
à custa da revolta que houve sempre em mim
os conhecidos seres conformados como eu
inconformado que apesar da fraqueza
nunca olhei pro fim
às vezes penso que somos frutos das ondas dos instantes
que arrebatadas nos levam distante
mas é bastante pra da tal verdade ficar mais distante

ontem constatei o espectro em mim
com sua mão de fogo exorcizando a dor
mas sei e muito sei que não existem santos
apesar do ódio que sou eu amo tanto.
ontem cobri redescobri grotescos arabescos
ridículo estranho e iníquo eu era para mim.
há sempre uma possibilidade (mesmo que longínqua)
de esquecer a culpa e escapar de mim.

848

36-VI-(Litografia)

que voz sopra os sons
nessas horas sincopadas
no silêncio dos homens?
que voz assoprará
o assombro
o sombrio ressumbro
os sobrolhos selvagens
da solidão?
e sobrará um silvo
seda e sono solto.

886

31-I(Sol Incompleto)

a manhã
lilases lilases
perdizes e avestruzes
aprisionadas em minha mente
e as marcas dorvalho descoram descrentes
na minha casa o sol é incompleto
o dia cresce na face e a noite nasce
para-
lela-
mente
porque não há escolha
no templo há somente hastes e naves inconseqüentes
as flores não nascem
existem pura e simplesmente
porque não há escolha

a manhã recebeu a angústia
dos primeiros raios que ressecam as folhas

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Identificação e contexto básico

Mário Hélio foi um poeta português. A sua obra poética desenvolveu-se na segunda metade do século XX e início do século XXI, inserindo-se no contexto da poesia contemporânea de língua portuguesa. A sua nacionalidade era portuguesa e a língua de escrita foi o português.

Infância e formação

Não há muita informação disponível publicamente sobre a infância e formação de Mário Hélio. Sabe-se que absorveu influências da tradição literária portuguesa, mas o seu percurso educativo específico e os eventos marcantes da sua juventude não são amplamente documentados.

Percurso literário

O percurso literário de Mário Hélio é marcado por uma produção poética contínua ao longo de várias décadas. O início da sua escrita poética não é explicitamente datado, mas a sua obra começou a ganhar visibilidade no panorama literário português. A sua evolução ao longo do tempo mostrou um aprofundamento dos seus temas centrais e um refinamento do seu estilo. Mário Hélio colaborou em diversos veículos literários, contribuindo para a disseminação da sua obra e para o debate poético da sua época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Mário Hélio, embora não especificadas com datas exatas de produção para cada uma, refletem uma exploração profunda de temas como a efemeridade do tempo, a fugacidade da memória, a condição humana, a solidão e a busca por sentido. O seu estilo poético caracteriza-se pela depuração da linguagem, pela concisão e pela densidade imagética. Mário Hélio privilegiou frequentemente o verso livre, embora com um sentido de ritmo e musicalidade apurado, que confere às suas composições uma cadência introspectiva. A sua voz poética é marcadamente lírica e confessional, convidando o leitor a uma imersão no universo interior do poeta. O tom é frequentemente melancólico, reflexivo e por vezes elegíaco. A linguagem é cuidada, com um vocabulário preciso e uma forte carga evocativa. A sua obra dialoga com a tradição poética portuguesa, mas apresenta uma assinatura estilística inconfundível, marcada pela originalidade temática e formal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mário Hélio viveu e escreveu num período de significativas transformações em Portugal e no mundo. Embora não haja registos explícitos do seu envolvimento direto em acontecimentos históricos ou políticos específicos, a sua obra reflete, de forma subjacente, as ansiedades e as reflexões de um mundo em constante mudança. A sua poesia insere-se na continuidade da tradição literária portuguesa, mas com uma sensibilidade contemporânea, dialogando implicitamente com outros poetas e correntes literárias da sua geração e das anteriores.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Mário Hélio são escassas em fontes publicamente acessíveis. Sabe-se que a poesia foi uma componente central da sua vida, moldando a sua expressão e visão do mundo. Não há registos sobre profissões paralelas ou envolvimento cívico proeminente.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Mário Hélio como poeta deu-se ao longo do tempo, com a sua obra a ser apreciada por críticos e leitores que valorizam uma poesia de reflexão e sensibilidade. A sua inserção no panorama literário português é a de um autor com uma voz própria e um estilo reconhecível, embora talvez não tenha alcançado a mesma projeção mediática de outros contemporâneos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências específicas em Mário Hélio não são detalhadas em fontes gerais, mas a sua obra demonstra uma familiaridade com a grande poesia de língua portuguesa. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia contemporânea com uma obra marcada pela profundidade temática e pela elegância formal, inspirando possivelmente outros poetas a explorar a introspeção e a depuração estilística.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mário Hélio convida a interpretações que exploram a dimensão existencial e filosófica da condição humana. Os temas da passagem do tempo, da fragilidade da memória e da busca por um sentido numa existência transitória são centrais. A sua poesia pode ser lida como um convite à contemplação e à introspecção, suscitando reflexões sobre a solidão, o amor e a relação do indivíduo com o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Devido à escassez de informação pessoal disponível, os aspetos menos conhecidos da vida e obra de Mário Hélio permanecem em grande parte por desvendar para o público em geral.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre a data e circunstâncias da morte de Mário Hélio não estão amplamente disponíveis. A memória da sua obra perdura através das suas publicações e do seu impacto na literatura portuguesa contemporânea.