Escritas

Lista de Poemas

De Guido Reni

Com a mesma elegância
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
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Villa Cimbrone

Os bustos de Villa Cimbrone
não olham o mar.
Cravados de costas
nos caules de pedra
escutam
somente
a fala das ondas distantes.

É justo.
Se olhassem de frente esse mar
o azul entraria como sal
pelos poros
lambendo com língua macia
fazendo do mármore
concha
polindo apagando os contornos
dos olhos
das bocas
dos rostos.

No longo terraço plantados
ciprestes de pedra
os bustos escutam
escutam
sem ver.


Ravello, 2001

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De volta

As sete da manhã
o trânsito não para
engarrafado,
não se a manhã é sábado
e a via expressa.

Quero um táxi amarelo
eu havia dito saindo do aeroporto
quero um táxi chinês
havia brincado
porque vinha de longe
e a brincadeira
servia-me de arremate da viagem.

Agora no viaduto,
favela dos dois lados
campos de futebol sem bola ou gente
dois cavalos pastando,
o trânsito não anda.
Adiante piscam luzes elevadas. Um desastre
talvez.

Não é desastre
é um corpo estendido no asfalto
rosto em sangue
braços abandonados
e ao lado
já esperando
aquela maca plástica
espécie de bacia
contêiner dos sem vida.

"Bandido não perdoa"
diz o chofer sem virar a cabeça.
Só então percebo
que não foi atropelado
aquele homem
mas atirado ali
como cão morto.

E eu tranco os dentes
e digo sem dizer:
Cheguei em casa!
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Modigliani desenha

Que peso invisível sujeita músculos
e carnes
dessas mulheres cariátides?
Eu poderia dizer:
viga
arquitrave.
Eu poderia pensar:
mármore
pedra.
E o peso seria pouco para a força dos braços
a curva poderosa dessas coxas
fletidas.
Mas se eu dissesse:
lápis
traço
e acrescentasse
a levíssima mão de Modigliani
então sim
eu teria essas mulheres
sustentando o mundo.

Lugano, 1999
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Livres à noite

Tirar o sutiã à noite
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.

Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
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Se cárcere não for

Como dizer
prisões
a esses espaços
se o cárcere não for
o humano corpo?
As correntes pendentes das arcadas
as escadas
as represas de luz contendo
as sombras
quantas vezes os vi
dentro do peito
abismo
onde a carne se perde,
calabouço.
Rangem as engrenagens denteadas
movendo mós de pedra
o sangue escorre
ou o grito
geme ferida a corda
na polia.
Tudo é pedra
e madeira
no arcabouço
tudo é osso.

Cárceres de invenção
que não se inventam
visão do condenado
ou carcereiro
retrato
que Piranesi fez
da sua masmorra.
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A coxa

Sendo redonda
a coxa
ainda assim tem
dois lados
pois tem um lado de fora
que sem medo se mostra
e tem um lado de dentro
que é sagrado.

No lado de fora
a coxa
é carne sem fronteira
que do joelho sobe
até a cintura
sem entrave ou ruptura
mas do lado de dentro
se fratura contra a beira fechada
da virilha.

Roliça, embora,
a coxa
como o diamante é
plurifacetada
próxima ao toque em
alguns pontos e
em outros
afastada.

Nem é a mesma
a pele
que os dois lados veste
e que ao olhar se diz inteira
e una
enquanto a mão
conhece a mais secreta e fina
que ao seu roçar
floresce
e aquela
que na quina do corpo
se oferece.
Mais que suporte
a coxa
é ponte levadiça
guardiã que a entrada
tranca a todo intruso,
defesa que se abaixa
repentina
para atrair o invasor
e
fazer uso.

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Por preço de

Estão sorteando frangos
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
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Entre nosso olhar e

A luz sobre o lago é
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.


Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
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Sem vermelho, porém

Um jovem de Botticelli
toma café
no libre service das Galeries Lafayette.
É aquele de barrete vermelho
com quem já estive em Washington,
mas sem barrete vermelho.
Com a mesma elegante precisão
a mão
fraciona nas falanges luz e sombra
- embora aqui se lhe acrescente
o branco estridor da xícara -
e a cabeça se inclina para o lado
o quanto basta para enviesar o olhar
e deixá-lo descer condescendente
sobre os outros
o nada
sobre o tênue vapor que evola do café.
O jovem de Botticelli pousa a xícara
veste o blusão de couro
os cachos brilham debaixo das lâmpadas.
Falta faz porém o barrete vermelho
o vermelho sangue gerânio laca do barrete
do barrete que em pura cor coroa o jovem
de Washington.
E mais pobre sem ele
o meu quadro incompleto
já se vai.
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Comentários (1)

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maria2020
maria2020
2020-11-04

Amo muito essa escritora mas confesso que nunca sonhei que escrevesse poesias acho que gosto ainda mais dela ela é muito boa