Contra os Julgadores
Soneto XII
Que julgas, ó ministro de Justiça?
Por que fazes das leis arbítrio errado?
Cuidas que dás sentença sem pecado,
Sendo que algum respeito mais te atiça?
Para obrar os enganos da injustiça,
Bem que teu peito vive confiado,
O entendimento tens todo arrastado
Por amor, ou por ódio, ou por cobiça.
Se tens amor, julgaste o que te manda;
Se tens ódio, no inferno tens o pleito,
Se tens cobiça, é bárbara, execranda.
Oh miséria fatal de todo o peito!
Que não basta o direito da demanda,
Se o julgador te nega esse direito.
In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Música do Parnasso. Pref. e org. do texto Antenor Nascentes. Rio de Janeiro: INL, 1953. v.1. (Biblioteca popular brasileira, 2
Vendo a Anarda Depõe o Sentimento
A serpe, que adornando várias cores,
Com passos mais oblíquos, que serenos,
Entre belos jardins, prados amenos,
É maio errante de torcidas flores;
Se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe co'a peçonha menos,
Porque não morra cos mortais venenos,
Se acaso gosta dos vitais licores.
Assim também meu coração queixoso,
Na sede ardente do feliz cuidado
Bebe cos olhos teu cristal fermoso;
Pois para não morrer no gosto amado,
Depõe logo o tormento venenoso,
Se acaso gosta o cristalino agrado.
In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Música do Parnasso. Pref. e org. do texto Antenor Nascentes. Rio de Janeiro: INL, 1953. v.1. (Biblioteca popular brasileira, 2
Anarda Vendo-se a um Espelho
Décima 1
De Anarda o rosto luzia
No vidro que o retratava,
E tão belo se ostentava,
Que animado parecia:
Mas se em asseios do dia
No rosto o quarto farol
Vê seu lustroso arrebol;
Ali pondera meu gosto
O vidro, espelho do rosto,
O rosto, espelho do Sol.
2
É da piedade grandeza
Nesse espelho ver-se Anarda,
Pois ufano o espelho guarda
Duplicada a gentileza:
Considera-se fineza,
Dobrando as belezas suas,
Pois contra as tristezas cruas
Dos amorosos enleios
Me repete dous recreios,
Me oferece Anardas duas.
3
De sorte que sendo amante
Da beleza singular,
Posso outra beleza amar
Sem tropeços de inconstante;
E sendo outra vez triunfante
Amor do peito que adora
Ua Anarda brilhadora,
Em dous rostos satisfeitos,
Se em um fogo ardia o peito,
Em dous fogos arde agora.
4
Porém depois, rigorosas,
Deixando o espelho lustroso,
Oh como fica queixoso,
Perdendo a cópia fermosa!
Creio pois que na amorosa
Lei o cego frechador,
Que decreta único ardor,
Não quis a imagem que inflama,
Por extinguir outra chama,
Por estorvar outro amor.
In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Música do Parnasso. Pref. e org. do texto Antenor Nascentes. Rio de Janeiro: INL, 1953. v.1. (Biblioteca popular brasileira, 2
Vendo a Anarda Depõe o Sentimento
A serpe, que adornando várias cores,
com passos mais oblíquos, que serenos,
entre belos jardins, prados amenos,
é maio errante de torcidas flores;
se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe com a peçonha menos,
por que não morra com os mortais venenos,
se acaso gosta dos vitais licores.
Assim também meu coração queixoso,
na sede ardente do feliz cuidado
bebe cos olhos teu cristal formoso;
Pois para não morrer no gosto amado,
depõe logo o tormento venenoso,
se acaso gosta o cristalino agrado.
Comparações no Rigor de Anarda
Quando Anarda me desdenha
afetos de um coração,
é diamante Anarda? não,
não diamante, porque é penha:
penha não, porque se empenha,
qual áspid seu rigor forte;
áspid não, que tem por sorte
ser qual tigre na crueza:
tigre não, que na fereza
tem todo o império da Morte.
Anarda Temerosa de um Raio
Bramando o céu, o céu resplandecendo,
belo a um tempo se via, e rigoroso,
em fugitivo ardor o céu lustroso,
em condensada voz o céu tremendo.
Gira de um raio o golpe, não sofrendo
o capricho de uma árvore frondoso:
que contra o brio de um subir glorioso
nunca falta de um raio o golpe horrendo.
Anarda vendo o raio desabrido,
por altiva temeu seu golpe errante,
mas logo o desengano foi sabido.
Não temas (disse eu logo) o fulminante:
que nunca ofende o raio ao céu luzido,
que nunca teme ao raio o sol brilhante.