Lista de Poemas
Buscando a Cristo
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.
A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.
A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, pra chamar-me
A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.
Pica-Flor
fisionomia do poeta lhe chamou "Pica-Flor".
Se Pica-Flor me chamais,
Pica-Flor aceito ser,
Mas resta agora saber,
Se no nome que me dais,
Meteia a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
Que fico então Pica-Flor.
Pondera Agora com Mais Atenção a Formosura de D Ângela
Ouvia falar nela cada dia,
E ouvida me incitava, e me movia
A querer ver tão bela arquitetura.
Ontem a vi por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma Mulher, que em Anjo se mentia,
De um Sol, que se trajava em criatura.
Me matem (disse então vendo abrasar-me)
Se esta a cousa não é, que encarecer-me.
Saiba o mundo, e tanto exagerar-me.
Olhos meus (disse então por defender-me)
Se a beleza hei de ver para matar-me,
Antes, olhos, cegueis, do que eu perder-me.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
Define a Sua Cidade
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.
Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.
Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.
Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.
Epílogos
Que mais por sua desonra?...........Honra
Falta mais que se lhe ponha..........Vergonha.
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.
Quem a pôs neste socrócio?..........Negócio
Quem causa tal perdição?.............Ambição
E o maior desta loucura?...............Usura.
Notável desventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.
Quais são os seus doces objetos?....Pretos
Tem outros bens mais maciços?.....Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?...Mulatos.
Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.
Quem faz os círios mesquinhos?...Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas?.........Guardas
Quem as tem nos aposentos?.........Sargentos.
Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos.
E que justiça a resguarda?.............Bastarda
É grátis distribuída?......................Vendida
Que tem, que a todos assusta?.......Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.
Que vai pela clerezia?..................Simonia
E pelos membros da Igreja?..........Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?.....Unha.
Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.
E nos frades há manqueiras?.........Freiras
Em que ocupam os serões?............Sermões
Não se ocupam em disputas?.........Putas.
Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.
O açúcar já se acabou?..................Baixou
E o dinheiro se extinguiu?.............Subiu
Logo já convalesceu?.....................Morreu.
À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.
A Câmara não acode?...................Não pode
Pois não tem todo o poder?...........Não quer
É que o governo a convence?........Não vence.
Que haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.
Moraliza o Poeta nos Ocidentes
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Apareceu
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.
Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
No Fluxo e Refluxo das Marés
A maré pelas margens do Oceano,
E não larga a tarefa um ponto no ano,
Depois que o mar rodeia, o sol abrasa.
Desde a esfera primeira opaca, ou rasa
A Lua com impulso soberano
Engole o mar por um secreto cano,
E quando o mar vomita, o mundo arrasa.
Muda-se o tempo, e suas temperanças.
Até o céu se muda, a terra, os mares,
E tudo está sujeito a mil mudanças.
Só eu, que todo o fim de meus pesares
Eram de algum minguante as esperanças,
Nunca o minguante vi de meus azares.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
À MARGEM DE UMA FONTE QUE CORRIA
À margem de uma fonte, que corria,
Lira doce dos pássaros cantores
A bela ocasião das minhas dores
Dormindo estava ao despertar do dia.
Mas como dorme Sílvia, não vestia
O céu seus horizontes de mil cores;
Dominava o silêncio entre as flores,
Calava o mar, e rio não se ouvia,
Não dão o parabém à nova Aurora
Flores canoras, pássaros fragrantes,
Nem seu âmbar respira a rica Flora.
Porém abrindo Sílvia os dois diamantes,
Tudo a Sílvia festeja, tudo adora
Aves cheirosas, flores ressonantes.
Queixa-se o Poeta
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
Comentários (4)
O boca do inferno é foda
GEOVANA FOFOQUEIRA E INVEJOSA
EU DARIA PRO BOCA DE FOGO
E muito massa
GREGÓRIO DE MATOS GUERRA: O "BOCA DO INFERNO" | BARROCO | Resumo de Literatura Enem. Profe Camila
Barroco: Gregório de Matos Guerra
Gregório de Matos - Brasil Escola
Gregório de Matos - Ana Carolina
POEMAS ESCOLHIDOS - GREGÓRIO DE MATOS - RESUMÃO#16
Tudo sobre o “Boca-do-inferno” - Gregório de Matos
Poemas Escolhidos de Gregório de Matos 🇧🇷 | Tatiana Feltrin
[Livros da Fuvest] Poemas Escolhidos (Gregório de Matos)
AULA 14 | GREGÓRIO DE MATOS (Estilo de Época) | PROF. JORGE MIGUEL
Gregório de Matos - Ciência & Letras - Canal Saúde
PAS 1 - Poemas de Gregório de Matos - características do autor e análises.
Gregório de Matos Guerra: O Boca do Inferno
Barroco: Gregório de Matos e Pe. Antônio Vieira
Gregório de Matos – “Poemas escolhidos"
VIDA E OBRA | GREGÓRIO DE MATOS GUERRA
GREGÓRIO DE MATOS - MELHORES POEMAS
APRENDA SOBRE GREGÓRIO DE MATOS (O "Boca do Inferno")
Literatura - Gregório de Matos
Poemas escolhidos de Gregório de matos -orientação de leitura - #01
Buscando A Cristo | Poema de Gregório De Matos com narração de Mundo Dos Poemas
Para Ler Gregório de Matos
A Cristo Nosso Senhor Crucificado | Poema de Gregório de Matos com narração de Mundo Dos Poemas
QUEM FOI O BOCA DO INFERNO? | Vida e obra de Gregório de Matos
Soneto VII | Poema de Gregório de Matos com narração de Mundo Dos Poemas
Poemas Escolhidos de Gregório de Matos (FUVEST): resumo, análise e dicas
ANALISANDO GREGÓRIO DE MATOS | UEL
Poemas escolhidos de Gregório de Matos [Fuvest 2023]
Gregório de Matos - Lírica Amorosa - Análise obra PAS-UnB
Antologia Poética de Gregório de Matos - Profa. Débora Rocha
Mortal Loucura (José Miguel Wisnik/Gregório de Matos)
POEMAS ESCOLHIDOS | Gregório de Matos | Resumo + Análise
Análise do poema "A Jesus Cristo Nosso Senhor" de Gregório de Matos Guerra.
Gregório de Matos Guerra
Gregório de Matos - Nasce o Sol, e não dura mais que um dia
BBM no Vestibular: Poemas escolhidos de Gregório de Matos
Análise do poema "Triste Bahia" de Gregório de Matos Guerra.
Leitura e análise de "À Cidade da Bahia" de Gregório de Matos
Gregório de Matos - A Cristo Nosso Senhor crucificado
Poemas Escolhidos de Gregório de Matos - by Ju Palermo - Fuvest
ANTOLOGIA POÉTICA DE GREGÓRIO DE MATOS
1º Soneto A Maria Dos Povos | Poema de Gregório de Matos com narração de Mundo Dos Poemas
#Dica dos Professores - Literatura - Barroco: Gregório de Matos Guerra
GREGÓRIO DE MATOS - SONETO - Descreve a vida escolástica
Gregório de Matos: “Triste Bahia! Ó quão dessemelhante"
Poemas Escolhidos | Gregório de Matos | Principis - Livrarias Família Cristã
gregorio de Matos
GREGÓRIO DE MATOS DEFINIU, NO SÉCULO XVII, O AMOR (...) | CICLO DO AÇÚCAR E SOCIEDADE COLONIAL
Gregório de Matos, O poeta "Boca do Inferno"
Poemas Escolhidos | Análise Literária [Fuvest] - Brasil Escola
Thiago Lucas | Ao Governador Antônio Luís | Gregório de Matos
Português
English
Español