Escritas

Lista de Poemas

Partida

De súbito extinguiu-se qualquer coisa,
soltou-se qualquer peça de uma máquina incompreensível
de que dependia, afinal, a minha vida;
tornou-se tudo demasiadamente literal,
até eu estar ali, sem compreender;
e até eu não compreender parecia
algo inteiramente incompreensível;
o mundo, que via pela primeira vez,
via-o através de uns olhos que não me pertenciam,
que não pertenciam, porque eu próprio era
um acontecimento incompreensível acontecendo,
algo que me acontecia não sabia a quem;
o comboio afastava-se levando-te
para fora de mim como alguém sonhando,
e eu e tudo o que de mim sabia desaparecera
e ficara um sítio vazio
onde as últimas horas da tarde
como aves extenuadas pousavam.


Manuel António Pina | "Todas as palavras" | Poesia reunida, Ed. Assírio & Alvim, 2012
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[Tudo à minha volta ]

Tudo à minha volta cumpre
um destino silencioso e incompreensível
a que algum deus fugaz preside.
Fora de mim, nas costas da cadeira

o casaco, por exemplo, pertence
a uma ordem indistinta e inteira.
Dava bem todo o meu sentido prático
pela sua quieta permanência em si e na cadeira.

A realidade dos livros em cima da mesa
parece tão estritamente real!
As filhas falam, barulhentas e reais,
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real.

Sob este rio real
o rio que me arrasta, de palavras,
como dentro de mim ou fora de mim?
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém,

como está neste lugar (qual?),
e como os livros na mesa?
O que fala falta-me
em que coração real?

É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.

Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.

Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 136 e 137 | Assírio & Alvim, 2012
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Agora é diferente

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro
Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor
Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora
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Gare do Sud

Tudo o que temos pertence a outros
desconhecidos de nós, e ainda a outros,
e temo-lo como se o perdêssemos
ficando uma sombra, a nossa sombra.
Estamos longe de casa e essa sombra
é a única morada a que podemos acolher-nos.

A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante;
e se a ouvíssemos não a compreenderíamos
porque falamos uma língua estrangeira.
Tivemos um passado mas também ele não nos pertenceu,
lemo-lo, ou ouvimo-lo a
outros mais densos que nós.

Aonde regressamos então?
Ao lado das fluviantes águas,
águas idas e vindas. Noite!,
alguém nos chama mas
não é ninguém que conheçamos
nem ninguém de quem possamos dizer o nome.

Um murmúrio a que alguma razão passada
prende os sentidos e que perdura
no meio da vozearia da solidão e das interrogações,
um olho cego, um animal indecifrável atravessando a
distância e olhando-nos ainda,
a nós que os nossos olhos já não podem ver.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 314 e 315 | Assírio & Alvim, 2012

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Alguém atrás de ti

Como no sonho dum sonho, arde
na mão fechada de Deus o que passou.
É cada vez mais tarde
onde o que eu fui sou.

Que coisa morreu
na minha infância
e está lá a ser eu?
A lâmpada do quarto? A criança?

Em quem tudo isto
a si próprio se sente?
Também aquele que escreve
é escrito para sempre.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 115 | Assirio & Alvim, 2012
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A avó

Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando

Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela

Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 323 | Assírio & Alvim, 2012
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Matéria de estrelas

Porque é tudo para sempre, mesmo a efémera morte,
encontrar-nos-emos eternamente
e nunca mais nos veremos.
O impossível volta a ser impossível. Para sempre.

Impossível é cada manhã aberta,
um deus sonha consigo através de nós.
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus,
surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero.

Matéria, alma do nada,
os mortos ouvem a tua música sólida
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas.
A sua intranquilidade transforma-se em si mesma, música.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 125 | Assirio & Alvim, 2012
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Sob escombros

Um tempo houve em que,
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde também tu eras mundo, coisa pulsante.

Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância

e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.

Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.

A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormece
sob escombros.

Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 360 | Assírio & Alvim, 2012

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No rosto da morte

Em qualquer sítio em mim, em 1952,
alguém passa numa rua eternamente.
Alguém ficou lá em mim depois,
outro perdeu-o o coração para sempre.

Quem me lembro de isto
dorme um sono alheio
onde em mim existo. -
Coração, sombra de uma sombra,
na pétala mais funda da noite.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 121 | Assirio & Alvim, 2012
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A carta com cinco anos de atraso (ou mais)

Faz hoje cinco anos que o Manel morreu.
É o primeiro dos "meus" dois poetas por aqui, a viver um aniversário de vida/morte desde que estou com eles. E estou com os "meus" poetas desde o principio da manhã do dia 28 de Agosto deste ano.

Não tenho por hábito assinalar/comemorar a morte, apenas as datas de nascimento. Mas esta situação é especial. E o Pina é muito especial para mim. Por várias razões. E sobressai uma: o ter aprendido a gostar dele, que foi e é uma luta boa.

Foi um poeta que me passou mais ou menos despercebido até à data em que se soube da doença que o matou.
Nessa altura aparecera-me como alguém tímido, discreto e triste. (Os poetas serão todos tristes ou carregarão mais tristeza? Ou talvez se importem menos que a tristeza se note... Não sei.)
Mas não sabia se esse quadro que eu lhe colara se devia à doença ou se o Manel já era assim. Sei que nessa época comecei a sentir imensa pena de não o ter conhecido pessoalmente, o que continuo a sentir, mas agora em dobro.

De vez em quando subia-me a vontade de ir à procura de mais um texto e aos poucos fui construindo a ideia de que a poesia pode ser o equivalente a 'um sítio onde pousar a cabeça', uma expressão muito feliz do Manel. E agora estou a pensar nas razões de eu gostar de poesia... Uma, quando sou eu a rabiscar, é a de me permitir dizer coisas que não posso nem consigo dizer de outra forma. Outra razão, e esta tem que ver com o chegar-me aos poetas, é poder rever-me e reencontrar-me naquilo que outros escreveram. O bonito, o belo, o beber 'só' porque é bonito e belo, é outra razão; o estético pela palavra ou na palavra. A reinterpretação do mundo, também. E outros motivos haverá, que direi depois.

Quase a meio de Julho de 2016, mais precisamente no dia 12, na Lisboa à beira rio que me encanta, ofereceram-me uma antologia do Pina. "Todas as palavras - poesia reunida: 1974 -2011", numa lindíssima capa revestida a mar, que é uma pintura de Ilda David.
Essa foi a grande oportunidade de mergulhar mais fundo na poesia do Manel e de começar a entender melhor o estilo, os temas favoritos - escreveu muito para gatos e sobre gatos, por exemplo... tal como o geninho, que até lhes dedicou um livro... o que estes animais terão de tão especial para os poetas? - as cartas/poemas que escreveu para os amigos poetas.
E em boa parte foi este livro que me levou a propor ser "editora" (isto soa a tão sério!) do Manuel António Pina. Recordo-me de dizer no mail de adesão que era uma boa forma de rentabilizar o material que tinha, ao mesmo tempo que confessava não ser um dos meus poetas favoritos. Hoje já não diria isso porque as muitas leituras que tenho feito da obra e sobre a vida dele, fizeram com que o perspectivasse de outra forma. Há nele uma sensibilidade que eu desconhecia e que tem sido muito bom descobrir.

Tenho-me detido na forma do Manel interpretar a solidão e este é um dos lados surpreendentemente bons da poesia dele. E é também por isto que tenho pena que não tenha vivido mais anos. É que depois de ter lido muitos dos seus escritos, há em mim uma sensação muito forte de que o "meu" poeta tinha ainda muito para escrever sobre a solidão e que esta fase da vida lhe iria permitir fazê-lo de uma forma ainda mais apurada e talvez dizer muito do que ainda não tinha conseguido dizer. E esta é uma ideia muito forte que tenho.


Isabel Pires | 19 Outubro 2017
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Comentários (17)

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A esta hora
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2025-12-07

Manuel António Pina

Fernanda
Fernanda
2023-03-04

Falta a data de falecimento

João
João
2023-03-02

O livro é muito bom

portugues
portugues
2021-05-08

gostei

euskadia
euskadia
2020-08-06

In: de Os Livros.... Isto é, palavras, formas indecisas procurando um eixo que lhes dê peso, um sentido capaz de conter a sua inocência uma voz (uma palavra) a que se prender antes de se despedaçarem contra tanto silêncio