Escritas

Lista de Poemas

Lugares da infância

Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.
👁️ 2 373

Calo-me

Calo-me quando escrevo
assim as palavras falam mais alto e mais baixo
Nada no poema é impossível e tudo é possível
mas não arranjo maneira de entrar no poema
e de sair de mim e por isso a minha voz é profunda e rouca
e por isso me calo ( e como me calarei?)
no entanto ninguém é tão falador como eu
nem há palavras que não cheguem para não dizer nada.

e vós também: não me faleis de nada ou falai-me
porque não sabeis o que dizeis


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida" | Ed. Assírio & Alvim, 2001
👁️ 2 190

Luz

Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,

e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.
👁️ 1 770

O que me vale

O que me vale aos fins de semana
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem complicações
viva aragon
morram as repartições.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - Poesia reunida" | Ed. Assírio & Alvim, 2012

👁️ 2 518

O quarto

Quem te pôs a mão no ombro,
a faca que te atravessou o coração,
são feridas alheias, talvez algo que leste;
entretanto partiste
para lugares menos iluminados
e corações menos vulneráveis,
pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não estás.
A hora havia de chegar em que
nos perderíamos um do outro.
E acabaríamos necessariamente assim,
mortos inventariando mortos.
Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.
Apaga a luz e vira-te para o outro lado
e acorda amanhã como novo,
barba impecavelmente feita,
o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.
👁️ 2 318

Nenhuma coisa

Estou sempre a falar de mim ou não. O meu trabalho
é destruir, aos poucos, tudo o que me lembra.
Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal.
Normalmente regresso a casa tarde, doente.

Desta maneira (e doutras -
a carne é triste, hélas, e eu já li tudo)
ocupo o lugar imóvel do poema. Procuro o sentido
(vivo ou morto!) para o liquidar. Mas onde? E como? E quem?

Tudo o que acaba e começa.
O que está entre as pernas, mudando de lugar.
(Que fazer e para quê?)


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 17 | Assírio & Alvim, 2012
👁️ 1 296

Passagem

Com que palavras ou que lábios

é possível estar assim tão perto do fogo,

e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,

tão sem peso por cima do pensamento?


Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,

e não só uma voz de ninguém.

Onde, porém? Em que lugares reais,

tão perto que as palvras são de mais?


Agora que os deuses partiram,

e estamos, se possível, ainda mais sós,

sem forma e vazios, inocentes de nós,

como diremos ainda margens e como diremos rios?


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 378 | Assírio & Alvim, 2012

👁️ 3 600

Silêncio e escuridão e nada mais

(Amor cidade aberta; lugar comum;)

Edificarei a minha igreja sobre as tuas ruínas

Tenho um coração mortal um coração

fora de si como um marido irado

Dentro da casa se instala

a descomunal traição.

Eu sou aquele que rouba, o marido,

o caluniador, abri-vos portas de ouro...

Que deus me perdoará os meus erros humanistas?

Quebrada a espada já, rota

a Armadura, a Beleza, a Regra (Ó Ciência! Ó Cólera!)

Como escreverei? Sem que palavras? Quem? Qual?



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 20 | Assírio & Alvim, 2012

👁️ 1 172

A leitura

Como aquele antiquíssimo burro, talvez o da minha infância,

ave imortal não nascida para morrer

que imovelmente me fita da lembrança,

alguma voz anterior fala no que posso escrever


e no que posso ler; talvez o anjo cabalístico

tocando-me o lábio superior ao nascer

me tenha condenado ao destino paroxístico

e ocioso de repetir, repetir, repetir,


até, puro de novo, me calar por fim,

eu que, com minhas mãos, matei o albatroz,

que culpa penará então a minha alheia voz

dos meus versos, nos vossos errando sem mim?


Não, não me peçais ainda concordância,

estarei ocupado de mais à minha escuta

no coração e na boca, no oiro e na cicuta,

e na escuridão dos livros, talvez os da minha infância.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 308 | Assírio & Alvim, 2012

👁️ 1 282

A mensagem do teu

A mensagem do teu lábio superior

salta bip o parapeito que nos separa

e habita urgentemente nos meus olhos

e repetidamente e urgentemente convoca os meus olhos

para a saudade publicada na tua cara

com slogans de néon interior

Sei que sabes uma palavra indecente

e que tens vergonha dela como se essa palavra fosse

a tua roupa de dentro


Sei o que pensas sei o que fazes

sei coisas que tu mesma não sabes

Sabes, por exemplo, que estás noiva? E que o malandrim

afinal de contas é sargento de infantaria?

Mas deixa lá homens é o que há mais

E (sabes?) os oficiais


O morse lábio bip bip noticia:

ATENÇÃO ATENÇÃO ESTOU QUASE SOZINHA

E sei pormenores da tua respiração

concretos, fotografias



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 51 | Assírio & Alvim, 2012

👁️ 1 155

Comentários (17)

Iniciar sessão ToPostComment
A esta hora
A esta hora
2025-12-07

Manuel António Pina

Fernanda
Fernanda
2023-03-04

Falta a data de falecimento

João
João
2023-03-02

O livro é muito bom

portugues
portugues
2021-05-08

gostei

euskadia
euskadia
2020-08-06

In: de Os Livros.... Isto é, palavras, formas indecisas procurando um eixo que lhes dê peso, um sentido capaz de conter a sua inocência uma voz (uma palavra) a que se prender antes de se despedaçarem contra tanto silêncio