Manuel António Pina

Manuel António Pina

1943–2012 · viveu 68 anos PT PT

Manuel António Pina foi um poeta, escritor, dramaturgo e ensaísta português, figura proeminente da literatura contemporânea. Sua obra, caracterizada pela simplicidade aparente, profundidade filosófica e um olhar aguçado sobre a condição humana, explora temas como a infância, a memória, a linguagem e a transcendência. Reconhecido pela sua originalidade e pela sua capacidade de reinventar a forma poética, Pina deixou um legado significativo, marcado pela reflexão sobre a existência e a arte de escrever.

n. 1943-11-18, Sabugal · m. 2012-10-19, Porto

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O pássaro da cabeça (versos para crianças)

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.
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Poemas

98

Pura coincidência

[...]
Estares; ou seres;
a palavra ou a frase,
a dúvida ou o sentido,
para isso terias, no entanto, que reaprender tudo,
reaprender a chorar, a perceber,
reaprender a reaprender;
porque talvez, afinal, seja tudo simples,
o efeito suceda à causa e a vida
encare apenas a sua própria face
(embora verdadeiramente isso não tenha
[demasiada importância);
terias que saber (e não o saber)
que dias e esperança,
incredulidade e medo,
tempo e lugar, carne e espírito
são sombras que nenhum
corpo e nenhuma luz consomem;
reaprender a ironia;
por fim, como uma imagem desfocada
recentrando-se, estarias tão perto ou tão longe
que a tua existência coincidiria,
transparente e pura coincidência



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 285 | Assírio & Alvim, 2012

1 376

Palavras não

Palavras não me faltam (quem diria o quê?),
faltas-me tu poesia cheia de truques.
De modo que te amo em prosa, eis o
lugar onde guardarei a vida e a morte.

De que outra maneira poderei
assim te percorrer até à perdição?
Porque te perderei para sempre como
o viajante perde o caminho de casa.

E tendo-te perdido, te perderei para sempre.
Nunca estive tão longe e tão perto de tudo.
Só me faltavas tu para me faltar tudo,
as palavras e o silêncio, sobretudo este.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 13 | Assírio & Alvim, 2012

2 112

Escrito de memória

1. Um pequeno depósito de incredulidade
no fundo dos teus olhos.

2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).

3. A impressão de alguém olhando-
te atrás de ti.

4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente.
(que só tu ouves dentro de ti).

5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.

6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.

7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.

8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.

9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.

10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.

11. Esse país estrangeiro, o tempo.
1 542

Na biblioteca

O que não pode ser dito
guarda um silêncio feito
de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiado tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 181 | Assírio & Alvim, 2012
2 576

A porta estreita

A porta estreita do regresso
abre-se finalmente para aquele
que perdeu a paciência e também a impaciência
e que pára sobre o coração sem lugar de tudo.

A visão de esse, de o que está de fora,
de aquele que regressa sem ter partido
dançando sobre os destroços da sua imagem,
é o que me vê a mim: falo ainda de mim

embora por um momento só.
Mas já não sou o mesmo nem sou diferente.
O dentro de isto está fora
de mim e de si próprio.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 80 | Assírio & Alvim, 2012
1 630

Nenhuma coisa

Estou sempre a falar de mim ou não. O meu trabalho
é destruir, aos poucos, tudo o que me lembra.
Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal.
Normalmente regresso a casa tarde, doente.

Desta maneira (e doutras -
a carne é triste, hélas, e eu já li tudo)
ocupo o lugar imóvel do poema. Procuro o sentido
(vivo ou morto!) para o liquidar. Mas onde? E como? E quem?

Tudo o que acaba e começa.
O que está entre as pernas, mudando de lugar.
(Que fazer e para quê?)


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 17 | Assírio & Alvim, 2012
1 360

Já não é possível

Já tudo é tudo. A perfeição dos
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?

O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem
Todas as coisas são perfeitas de
Nós até ao infinito, somos pois divinos.

Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito a mais e a menos.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 12 | Assírio & Alvim, 2012
1 825

Os joelhos

Os teus joelhos dedicados como bichos

Tão exactamente debaixo da mesa guardas os joelhos!



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 50 | Assírio & Alvim, 2012

1 504

Silêncio e escuridão e nada mais

(Amor cidade aberta; lugar comum;)

Edificarei a minha igreja sobre as tuas ruínas

Tenho um coração mortal um coração

fora de si como um marido irado

Dentro da casa se instala

a descomunal traição.

Eu sou aquele que rouba, o marido,

o caluniador, abri-vos portas de ouro...

Que deus me perdoará os meus erros humanistas?

Quebrada a espada já, rota

a Armadura, a Beleza, a Regra (Ó Ciência! Ó Cólera!)

Como escreverei? Sem que palavras? Quem? Qual?



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 20 | Assírio & Alvim, 2012

1 238

Palavras

Palavras perpetradas em silêncio

na cama, lugar de assassinos.

Escondo-me para morrer. Nenhuma lógica é mais mortal

que esta estúpida perversão, esta morte.

Estúpidos lençóis; escrita de

corpos grosseiros; crimes passionais.

Falta-me uma palavra essencial,

um som perverso para morrer; um sonho.


Contraem-se os músculos na vigília.

Preciso do sono e do movimento dos corpos

para dirigir devidamente o pequeno crime

da tua morte. Agora calo-me um pouco.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 27 | Assírio & Alvim, 2012

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Fernanda
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Falta a data de falecimento

João
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O livro é muito bom

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gostei

euskadia

In: de Os Livros.... Isto é, palavras, formas indecisas procurando um eixo que lhes dê peso, um sentido capaz de conter a sua inocência uma voz (uma palavra) a que se prender antes de se despedaçarem contra tanto silêncio