Escritas

Lista de Poemas

Os tempos não

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 11 | Assírio & Alvim, 2012

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Se falo

Se falo falta-me um

silêncio rápido no papel: entre as pernas.

Oh, nesse lugar me comovo! Perverso percurso

do corpo, aqui é a cama, o congresso.


Venais movimentos do corpo na cama; o peso.

Eu falo de mais. Não tenho palavras para isto.

Breve morte que sobre o coração

páras tua mortal perversão, a tua morte,


falta-me subitamente com a tua

mão e que eu morra como um corpo

dentro do coração da luz do silêncio

que me cale que não viva nem esteja morto.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 28 | Assírio & Alvim, 2012

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Palavras

Palavras perpetradas em silêncio

na cama, lugar de assassinos.

Escondo-me para morrer. Nenhuma lógica é mais mortal

que esta estúpida perversão, esta morte.

Estúpidos lençóis; escrita de

corpos grosseiros; crimes passionais.

Falta-me uma palavra essencial,

um som perverso para morrer; um sonho.


Contraem-se os músculos na vigília.

Preciso do sono e do movimento dos corpos

para dirigir devidamente o pequeno crime

da tua morte. Agora calo-me um pouco.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 27 | Assírio & Alvim, 2012

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Os joelhos

Os teus joelhos dedicados como bichos

Tão exactamente debaixo da mesa guardas os joelhos!



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 50 | Assírio & Alvim, 2012

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Já não é possível

Já tudo é tudo. A perfeição dos
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?

O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem
Todas as coisas são perfeitas de
Nós até ao infinito, somos pois divinos.

Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito a mais e a menos.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 12 | Assírio & Alvim, 2012
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Resposta

Algo mais elementar que o espaço e o tempo
e a escuridão luminosa do Areopagita,
uma hipótese ilegível, antes do pensamento,
uma sílaba só de uma palavra não dita,

sem sentido e sem finalidade, apenas uma ocasião,
como um olho único e cego que vê
do fundo da sepultura da razão,
vaste comme la nuit et comme la clarté.

Um sonho
de uma sombra de quê?


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 303 | Assírio & Alvim, 2012
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O grito

Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;

e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.

Presente, apenas presente;
a memória, presente,
a esperança, presente.

E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,

e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa maior que nós
ou do nosso exacto tamanho.

Como um animal devorando-se
por dentro a si mesmo,
consumira-se, porém,

o pouco que nos pertencera, os dias e as noites,
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
palavra "cerejeira" ainda em carne na jovem boca.

Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que

nos devolvesse o ser
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração.

Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
nenhumas pálpebras se abriam,
como poderíamos não nos ter perdido?

Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul,

sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 310 e 311 | Assírio & Alvim, 2012


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Que dia? Que olhar?

Cheguei demasiado tarde
e já todos se tinham ido embora
restavam paeis velhos, vidas mortas,
identidade, sujidade, eternidade.

Comeram o meu corpo e
beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca;
e escreveram a minha Obra Completa;
sobro, desapossado, eu.

Resta-me ver televisão,
votar, passear o cão
(a cidadania!). Prosa também podia,
e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria.

Pôr-me aos tiros na cara como Chamfort?
Dar em aforista ou ainda pior?
Mudar de cidade? Desabitar-me?
Posmodernizar-me? Experienciar-me?

Com que palavras e sem que palavras?
Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam
por salões vazios e incendiados
entregando-se a guionistas e aparentados.


Cheira excessivamente a morte por aqui
como no fim de uma batalha cansada
de feridas antigas, e eu sobrevivi
do lado errado e pela razão errada.

"Que dia? Que olhar?"
(Beckett, "Dias felizes")
Que feridas? Que estanda-
te? Que alheias cicatrizes?

Estou diante de uma porta (de uma forma)
com o - como dizer? - coração
(um sítio sem lugar, uma situação)
cheio de palavras últimas e discórdia.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 304 e 305 | Assírio & Alvim, 2012




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Arte poétca


Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.

Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 309 | Assírio & Alvim, 2012
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Interiores

Onde estamos agora que não nos vemos,
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?

Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor com uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na sua breve eternidade?

Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 321 | Assírio & Alvim, 2012
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Comentários (17)

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A esta hora
A esta hora
2025-12-07

Manuel António Pina

Fernanda
Fernanda
2023-03-04

Falta a data de falecimento

João
João
2023-03-02

O livro é muito bom

portugues
portugues
2021-05-08

gostei

euskadia
euskadia
2020-08-06

In: de Os Livros.... Isto é, palavras, formas indecisas procurando um eixo que lhes dê peso, um sentido capaz de conter a sua inocência uma voz (uma palavra) a que se prender antes de se despedaçarem contra tanto silêncio