Escritas

Lista de Poemas

Costumes

não é para ficar em casa que fazemos uma casa
não é para ficar no amor que amamos
e não morremos para morrer
temos sede e
paciências de animal
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Final

Um homem morreu e estão juntando seu sangue em colherinhas,
querido juan, morreste finalmente.
De nada serviram teus pedaços
molhados em ternura.

Como foi possível
que tu fosses embora por um furinho
e ninguém tenha posto o dedo
para que ficasses?

Deve ter comido toda a raiva do mundo
antes de morrer
e depois ficava triste triste
apoiado em seus ossos.

Já te baixaram, maninho,
a terra está tremendo de ti.
Velemos para ver onde brotam tuas mãos
empurradas por tua raiva imortal.
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Ancorado em Paris

Do que tenho saudades é do velho leão do zoo,
tomávamos sempre café no Bois de Boulogne,
contava-me as suas aventuras na Rodésia do Sul
mas mentia, era evidente que nunca tinha ido além do Sahara

Seja como for, encantava-me a sua elegância,
a sua maneira de encolher os ombros diante das mesquinharias da vida,
olhava os franceses pela vidraça do café
e dizia "os idiotas fazem filhos".

Os dois ou três caçadores ingleses que tinha comido
provocavam nele remorsos e até melancolia
"as coisas que um tipo faz para viver" pensava
mirando as melenas no espelho do café.

Sim, tenho muitas saudades dele,
nunca pagava a conta,
mas indicava a gorjeta a ser deixada
e os garçons cumprimentavam-no com especial deferência.

Despedíamos-nos na orla do crepúsculo,
ele regresava a son bureau, como dizia,
não sem antes me advertir com uma pata no meu ombro
"tem cuidado, meu filho, com a Paris nocturna"

Tenho realmente muitas saudades dele,
os seus olhos enchiam-se às vezes de deserto
mas sabia calar-se como um irmão
quando emocionado, emocionado,
eu lhe falava de Carlitos Gardel.
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Limites

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.
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Foto

Na fotografia que teus olhos tornam doce
há teu rosto de perfil, tua boca. teus cabelos,
mas quando vibrávamos de amor
debaixo da maré da noite e do clamor da cidade
teu rosto é uma terra sempre desconhecida
e esta fotografia o esquecimento, outra coisa.
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claro que morrerei

claro que morrerei e hão de levar-me
em ossos ou cinzas
e dirão palavras e cinzas
e eu hei de morrer totalmente

claro que isto acabará
minhas mãos pelas tuas alimentadas
hão de pensar-se de novo
na umidade da terra

eu cá não quero caixão
nem roupa

que o barro aceite minha cabeça
e que os bichos me devorem
agora
despido de ti
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Uma mulher e um homem

Uma mulher e um homem levados pela vida,
uma mulher e um homem cara a cara
moram na noite, transbordam por suas mãos,
se ouvem subir livres na sombra,
suas cabeças descansam numa bela infância
que eles criaram juntos, em pleno dia de sol, de luz,
uma mulher e um homem arados por seus lábios
enchem a noite lenta com toda sua memória,
uma mulher e um homem mais belos no outro
ocupam seu lugar na terra
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