Escritas

Lista de Poemas

Poema do Amanhecer

Que hoje o meu primeiro pensamento
seja como a luz branca da manhã
que envolve os picos
e as pontas da grama.
E faça amanhecerem as emoções.

Que nessa luz eu esteja.

Que hoje a minha intenção primeira
seja como a mão de Deus na estrada certa
ou bastão de pastor
na trilha verde.

E nessa mão me vejas.

Que hoje a minha sílaba primeira
não se abra em meu lábio,
e eu me cale.
Que nada te dirá mais que o meu beijo.

E que esse beijo eu seja.

13.06.96

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Poema Para o Atormentado Silêncio

Que rei me colherá deste silêncio
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?

Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?

Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?

Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?

Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...

23.06.96

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Poemas da Distância

Como se fosses chegar
na hora seguinte.
Estendo os meus olhos
para lá da poeira
mas meus olhos imergem
nas águas do mar...

Se eu sei que,
cortando a enchente
que cresceu e venceu o alto do muro
e alagou o caminho,
não virás ainda,

se eu sei que
os trilhos que os pneus
traçaram paralelos nesta estrada de areia,
nem sabem de ti,

entendo quanto é louco
este olhar que te espera
esperando um milagre.

Se me lembro
de que vieste na noite de ontem
à hora da estrela,
e quando eu colhia o diamante de Vésper
te tinha comigo,
sei,
como é louco este olhar que te espera
esperando o milagre!

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Poema do Apelo

Eu sei que à insônia desta noite
bem poderias vir.
A tua febre aqueceria o mundo.
Da minha febre renasceria a vida.

... e me olhas com este olhar atento
que não sei se não me quer ou não me entende.

Eu sei que esvaziarias este apelo
e que eu te guardaria como um feto
e plenificarias meu vazio.

...mas me olhas com este olhar estranho
que eu não sei se me entende e não me quer...

Eu sei que é como quem beija, que me calo.
E poderíamos arder no mesmo gozo
para morrer depois no mesmo sono.

...mas me olhas com este olhar profano
que eu não sei se não me entende, ou se me espera.

Eu sei. Mas sei que não vale saber.
Se continuas com este olhar estranho
que eu não entendo. Mesmo assim te espero.
(07.06.96)

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Poema para um Domingo

Um roupão amarelo, um abajur
um anjo de bronze sustentando a luz.
Um livro aberto e um blues.

A noite de um domingo.
E o show da solidão se repetindo.

Um cobertor de madras escocesas
uma lembrança de um beijo nos lábios
e uma certeza.

Este sempre espetáculo domingueiro
com luzes de néon ferindo o vidro
caindo no travesseiro.

Ao som do vento as esquadrias gemem.
Quando acontoecerá a última cena?

...Se os ponteiros não param essa ciranda.

(07.06.96)

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Poema Para a Mulher de Malandro

Um segundo
ave assustada voando para longe.
Asas molhadas de vento
arrastando o peso
da surpresa e do susto.

Para longe
para bem longe do temporal.

Olhos enxutos respiram distância
coração de ave frágil
pequenino
pulsa pânico
irrompe do peito.

É preciso aguardar o retorno do sol.

O sol...

Luz infiltrando suave
da coroa dos montes.

A medo e a susto
o romper do vento a rota de retorno.
Não sou, não me torno
mas entendo
a mulher do malandro.

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Poema para um instante

Surpreendente é amor
brincando no olhar
brisa tremulando em canteiro
de miosótis.

Xale de luar de lua cheia
estremecendo nas águas.

Lúdico mesmo é o olhar
brincando de amor
aventura de criança jogando
um jogo de armar.

Mágico tirando da cartola
pombos e flores de papel crepom.

Encantamento é a presença
iluminando a porta
é alguém à espera
com um sol entre os lábios.

05.06.96

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Permanência

É assim que consigo ter-te perto
quando não estás. Apenas manuseio
o livro que deixaste, e então eu creio
sentir as tuas mãos junto a meus gestos.

Sinto que estás pra vir. No meu deserto
sempre deixas sinal. Terás receio
que me perca de ti?... No entanto é certo
que só estou a buscar-te enquanto leio...

Tens o teu jeito de guardar-me pronta
à tua espera: Uma lembrança apenas,
qualquer coisa em que possa me dar conta

da tua presença, enquanto te vais.
Assim te ficas em coisas pequenas
assim te tenho perto se não estás.

10.07.96

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Poema de uma Hora Triste

Deixa que eu sinta este momento novo
e talvez quando houver o nosso encontro
vejas em mim a marca dessa ausência.

Deixa que eu queira te sentir presente
e talvez se eu disser quanto te espero
mostres em ti o quanto me esperavas.

Deixa que eu possa te buscar agora
e talvez nunca mais nosso universo
conheça as brumas desta solidão.

Deixa que eu possa, nesta hora triste,
crer que também, talvez, estou contigo,
e a dor que é minha tua se tornou.

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Soneto do Rio

(A um poeta)
Aonde me levam águas deste rio
com a insignificância de uma folha,
não sei como parar, não tenho escolha,
deslizo em seixos e húmus. Sol ou frio.

Ora numa vertigem rodopio
indo à flor da corrente. Ora à bolha
da água batendo em pedras. Ora me olha
a me encantar, o seu espelho esguio.

Perderam-se os meus pés por essas águas.
Minha sorte não sei. Mas sei que trago a
ansiedade de ainda prosseguir.

Por isso é que me advirto, vez em quando,
se é mesmo o rio que me está levando
ou se sou eu quem está querendo ir...

15.07.96

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