Escritas

Lista de Poemas

Sala

Ouço passos vindos
do alpendre
para dentro da sala.
Será o vento que fala
coisas da cabala?
Ou será o morto
de regresso à senzala?
O vento se cala
e um rumor de sedas
resvala
no ladrilho da sala.
No alto da cumeeira
a coruja gargalha.
De novo o mistério
se instala
em cada movimento
da sala.

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Escada do Paraíso

Corpo feito de vagas
agitadas e búzios
sonolentos. Oh corpo
de mulher, entre medusas
e portulanos de areia.
Corpo seduzido pela
luminosidade dos cardumes
pelo movimento sinuoso
das marés. Oh corpo
de terracota e cristal.
Corpo aderido ao sexo
de Deus. Corpo nu
de gaivota em tarde azul
escada do paraíso.
Oh corpo varando a noite
E o dia em diagonal.
Corpo, oh corpo de lava
e lêvedo, fendido
pela cintura de um deus:
eu te celebro nesta
canção. Vertente e foz
dos pecados capitais.

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Aranha

Medusa
tecelã dos fios
da morte.

Seus olhos de Górgona
dilaceram
o corpo do vento.

Transformam
em rochas de sal
os filhos do nosso invento.

II

Num raio de sol
os fios da teia.
Arquitetura de vidro
com vigas de areia.

O fulgor da trama
que o vento incendeia.
Numa gota de orvalho
os olhos da teia.

Medusa acordada
a aranha passeia
nas ruas de seda
do seu devaneio.

III

Arquiteta
dos minutos
fiandeira
do tempo circular
semeadora
das messes do vazio
ceifadora
de asas e de vôos
contemporânea
dos anjos e da morte.

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Domingo

É domingo no bosque dos sargaços
constelado de vento e de ardentia.
As ondas se agasalham nos rochedos

ou vão dormir na concha dos teus braços.
Tudo celebra a glória deste dia
em que brotam orquídeas dos teus dedos

e o mistério incendeia a tua nuca.
É domingo no mar. Todas as fúrias
acendem seus penachos de martírio

O coração se veste para a luta
como um herói de impávidas centúrias
que não sucumbe à febre do delírio.

É domingo nas angras, nas retinas
dos peixes e no delta das meninas.

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Lavoura

As minhas mãos

já foram robustas

já plantaram

sementes de milho

nas terras dos filisteus

hoje só semeiam

as lavouras do adeus.

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Gravura Nordestina

A Eduardo Campos

Este sol é um deus feroz
que dardeja e que incendeia
os esqueletos dos bois.

As redondas oiticicas
são carpideiras de luto
chorando a morte dos brutos.

Em vôos rasantes, ao léu,
os urubus mais parecem
anjos expulsos do céu.

Gaviões roçam de esguelha
as asas martirizadas
nas costelas das ovelhas.

Cigarra, ali,devaneia.
Morre de tanto cantar
em sua concha de areia.

Uma rajada de vento
sacode os gonzos das portas
como se fosse um lamento.

Os leitos secos dos rios
são tumbas de faraós
ou de monarcas fenícios.

Quando o sol chega no vértice
os mandacarus acendem
os seus fanais de quermesse.

Os bichos magros cochilam
à sombra dos juazeiros
à espera de alguma brisa.

O canto da juriti
trespassa as almas dos homens
com seu punhal de vizir.

O balido das ovelhas
assusta as aves e os ninhos
que elas fizeram nas telhas.

Entre esquivâncias e astúcias
jumenta se entrega ao macho
que entorna o vinho das núpcias.

Ao mugido de uma rês
percorre toda a paisagem
um clamor de viuvez.

Nas varandas das fazendas
as redes brancas desenham
corpos que são oferendas.

Ninguém que ouse ou que vá
toldar os sonhos de linho
das moças no copiá.

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Canção da Oferta

Te ofereço um búzio
do Mar Morto
o molde de cristal
da placenta de Cleópatra.

Te ofereço a lágrima
de areia do espantalho
a alba seduzida
pelas retinas da águia.

Te ofereço a prata dos arroios
a conjuração da pedra
o mar acorrentado
à quilha da nau de Ulisses.

Te ofereço um ramo de fogo
do pomar da lascívia
um ramalhete de todas
as pulsações da vida.

Te ofereço a sobra de lã
da túnica de Laertes
tecida por Penélope.

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Lição de Espaço

O homem no espaço
é a sombra de Sísifo.

O espectro da esfinge
O vertigem do tísico.

O homem no espaço
é a pedra no vértice.

A folha que tomba
1no vórtice.

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Poema para Escrever no Asfalto

Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.

Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.

Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.

Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.

Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.

Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.

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Adágio Para um Tigre

Quando ele passeia pela floresta
os astros se escondem em seus casulos
de cristal e as ramagens genuflexas
derramam no ar gorjeios de alaúdes.

O tigre escuta o cântico das árvores
seduzidas pela flauta de Pã.
Seus olhos, dançarinos entre as flores
querem dormir ao sol de Aldebarã.

A noite arrasta o seu manto de búzios
sobre os pântanos coroados de chamas.
O tigre é um deus que sai de seus refúgios
para comer os brolhos das semanas.

O vento apaga as lâmpadas dos charcos
volta a zumbir nas veias dos cipós.
O tigre escreve a lenda de seus passos.
Em seu rumor canta secreta voz.

As horas passam, suas vestes longas
tocam de leve as harpas das clareiras.
O andar do tigre e o espírito das sombras
são dois impulsos para as profundezas.

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