Escritas

Lista de Poemas

O Tempo nos Desfolha

O tempo nos desfolha
com sua foice de murmúrios

somos o rebanho de cabras
pastando o caos

somos os tufos de relva
nas frestas da rocha
batida pelo mar

onde a nau de Ulisses
ainda ancora

somos a escória do mito
a rota em que navega
a nossa penúria.

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Testamento Real

Fui nascido rei
num pomar de luxúrias
me puseram na cabeça
o colar de chamas
dos heróis.

Conheci as rotas do mar
e suas mitologias
de concha e sal.
Minha nau de exílios
um dia ancorou
nos mares de Ulisses.

Construí palácios
de cristal no vértice
das escarpas.
Meus rebanhos pastavam
girassóis em todas
as encostas dos mapas.

Tive vassalos
e cães fiéis.
Duzentas amantes
cavalgaram meu corpo
da cabeça aos pés.

Fui íntimo das águas
e das marés
cem vezes morri
duzentas vezes ressuscitei
voltei do exílio
num esquife de pedra.

Escrevi estas palavras
no papiro
para que reste de mim
algum vestígio
e para que saibam
que um rei

vive para sempre
à sombra do herói.

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Tríptipo

I

tudo o que possuis
a alma, o pomar da lascívia

a fome de palavras
a sede de volúpia

a sentença lavrada
na poeira dos arquivos:

tudo cabe, poeta,
dentro de uma gaveta.

II

o olho da serpente
passeia na treva
o seu fulgor breve

lambe o odor da presa
entre folhas mortas

mastiga as horas
e uma ceia de besouros.

III

somos apanhados
numa teia de mitos

nada sabemos da alma
e do logaritmo binário

entre conchas e búzios
baionetas e obuses

a esfinge nos espreita
nos decifra e devora.

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As Vacas

Nos currais da fazenda
as vacas paridas
acalentam os bezerros
com as suas línguas
transbordantes de oferendas
os seus gemidos de ouro
escrevem uma lenda
de desejos
no espinhaço do touro.

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