Lista de Poemas
Prince Charmant
No lânguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas
Das noites da minh’alma tenebrosas!
Boca sangrando beijos, flor que sente...
Olhos postos num sonho, humildemente...
Mãos cheias de violetas e de rosas...
E nunca O encontrei!... Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!
Ah! Toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas...
– Nunca se encontra Aquele que se espera!... –
Filtro
Numa concha vazia, choro errante...
Ah, olhos que não choram! Pobrezinhos...
Não há luz neste mundo que os levante!
Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas mãos, abertas a diamante,
Hão de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante!
Para que corpos vis te não desejem,
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha
Pra que bocas impuras te não beijem!
Como quem roça um lago que sonhou,
Minhas cansadas asas de andorinha
Hão de prender-te todo num só voo...
Divino Instante
Hierática, deitada sob a terra,
Sem saber se no mundo há paz ou guerra,
Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,
Luz apagada ao alto e que alumia,
Boca fechada à fala que não erra,
Urna de bronze que a Verdade encerra,
Ah! ser Eu essa morta inerte e fria!
Ah, fixar o efêmero! Esse instante
Em que o teu beijo sôfrego de amante
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro;
Ah, fixar o momento em que, dolente,
Tuas pálpebras descem, lentamente,
Sobre a vertigem dos teus olhos de oiro!
Roseira Brava
E no teu riso tanta claridade,
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor.
Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio amor!
Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!
Tua irmã... teu amor... e tua amiga...
E também – toda em flor – a tua filha,
Minha roseira brava que é só minha!...
À Janela de Garcia de Rezende
Ilumina-a o luar com o seu clarão...
Dantes, a descansar de luta insana,
Fui, talvez, flor no poético balcão...
Dantes! Da minha glória altiva e ufana,
Talvez... Quem sabe?... Tonto de ilusão,
Meu rude coração de alentejana
Me palpitasse ao luar nesse balcão...
Mística dona, em outras Primaveras,
Em refulgentes horas de outras eras,
Vi passar o cortejo ao sol doirado...
Bandeiras! Pagens! O pendão real!
E na tua mão, vermelha, triunfal,
Minha divisa: um coração chagado!...
Ii
Poisa os teus lindos olhos de oiro em mim,
– Dos meus beijos de amor Deus fez-me
[avaraPara nunca os contares até ao fim.
Meus olhos têm tons de pedra rara,
– É só para teu bem que os tenho assim –
E as minhas mãos são fontes de água clara
A cantar sobre a sede dum jardim.
Sou triste como a folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenúfares...
Deus fez-me atravessar o teu caminho...
– Que contas dás a Deus indo sozinho,
Passando junto a mim, sem me encontrares? –
Viii
De coração erguido ao alto, em chama,
Que tudo neste mundo se reduz
A ver os astros cintilar na lama!
Amar o sol da glória e a voz da fama
Que em clamorosos gritos se traduz!
Com misericórdia, amar quem nos não ama,
E deixar que nos preguem numa cruz!
Sobre um sonho desfeito erguer a torre
Doutro sonho mais alto e, se esse morre,
Mais outro e outro ainda, toda a vida!
Que importa que nos vençam desenganos,
Se pudermos contar os nossos anos
Assim como degraus duma subida?
A Minha Piedade
Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,
Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensanguentam na subida!
Tenho pena de mim... pena de ti...
De não beijar o riso duma estrela...
Pena dessa má hora em que nasci...
De não ter asas para ir ver o céu...
De não ser Esta... a Outra... e mais Aquela...
De ter vivido e não ter sido Eu...
Lembrança
E fui a que habitou Paços Reais;
No mármore de curvas ogivais
Fui Essa que as mãos pálidas poisou...
Tanto poeta em versos me cantou!
Fiei o linho à porta dos casais...
Fui descobrir a Índia e nunca mais
Voltei! Fui essa nau que não voltou...
Tenho o perfil moreno, lusitano,
E os olhos verdes, cor do verde Oceano,
Sereia que nasceu de navegantes...
Tudo em cinzentas brumas se dilui...
Ah, quem me dera ser Essas que eu fui,
As que me lembro de ter sido... dantes!...
O Teu Olhar
Duma tristeza fatal,
Dum tão íntimo sonhar,
Penso logo no luar
Bendito de Portugal!
O mesmo tom de tristeza,
O mesmo vago sonhar,
Que me traz a alma presa
Às festas da Natureza
E à doce luz desse olhar!
Se algum dia, por meu mal,
A doce luz me faltar
Desse teu olhar ideal,
Não se esqueça Portugal
De dizer ao seu luar
Que à noite, me vá depor
Na campa em que eu dormitar,
Essa tristeza, essa dor,
Essa amargura, esse amor,
Que eu lia no teu olhar!
Comentários (13)
FLORBELA ESPANCA : paixão na primeira poesia! poesia que vasa sentimento pra todos os lados! sentimentos que espelham sofrimentos d'alma!
Alma luz! Poesia.
naseu en 8 de dezembro e moreu em 8 de dezembro
.....erro atrás de erro.... Cada calinada ortográfica capaz de por vacas a grunhir.....Deus, assevera que a língua portuguesa em locais de domínio linguístico como este é suposto ser, dizia, deixa no exterior erros crassos, quer de incúria, quer por livre arbítrio
.....quanto à violência mefítica daqueles que, por não se saberem sentados em palha, julgarão seus atributos na jactância da vil existência que se lhes (a eles próprios) conferem. Falar ou opinar sobre língua portuguesa e, com quem dela se serviu para redesenharem a sua alma como Deus assentiu o mundo pela geometria, sem o fervor da deferência, então nada sabe sobre o parir duma Essência
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Poema "Ódio?" de Florbela Espanca.
Registada como filha de pai incógnito, foi todavia educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira. Note-se como curiosidade que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, por altura da inauguração do seu busto, em Évora, e por insistência de um grupo de florbelianos, a perfilhou.
Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu, em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar. Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se.
Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o Portugal Feminino. Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, Livro de Mágoas.
Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos, e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henriqueta Almeida. Em 1923, publicou o Livro de Sóror Saudade.
Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Laje, em Matosinhos. Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra.
Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela morreu em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar».
Postumamente foram publicadas as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli (1930), Juvenília (1930), As Marcas do Destino (1931, contos), Cartas de Florbela Espanca, por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949) e Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982.
A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito.
A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza.
Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa.
Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões. Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino).
A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.TORMENTO DO IDEAL
Laury Maciel[1]
Florbela d’Alma da Conceição Lobo Espanca nasceu em Vila Viçosa (Alentejo), em 1894. Seus primeiros versos são da época em que fez o curso secundário, em Évora, e que somente viriam a ser reunidos em volume depois de sua morte.
Malogrado seu casamento, vai para Lisboa estudar Direito e, nesse mesmo ano, 1919, publica Livro de mágoas, que passa despercebido. Igual destino teve a obra seguinte, Livro de Soror Saudade, dado a lume em 1923. Novamente infeliz no casamento, retira-se do convívio social, embora continue a escrever poesia e a publicá-la ao acaso. Recolhe-se a Matosinhos, já agora estimulada pelas renovadas esperanças de felicidade conjugal, mas seus versos entram a dar sinais de exaustão. Morre, segundo alguns estudiosos, de suicídio, em 1930.
Toda a produção de Florbela entre os anos de 1915 e 1917 – tanto em poesia como em contos – foi escrita em um livro de mercearia ao qual ela deu o título de Trocando olhares. Deste livro ela separou 33 poemas para publicar sob o título de O livro d’ele, o que não aconteceria.
Publicou os livros de poesia: Livro de mágoas, 1919; Livro de Soror Saudade, 1923; Reliquiae, 1931; Charneca em flor, 1929. E contos: As máscaras do destino, 1931; Dominó negro, 193l.
Talvez Tormento do ideal, título de um dos sonetos de Antero de Quental[2], de quem Florbela Espanca foi discípula – e que recorrera ao suicídio, na impossibilidade de respostas para suas indagações de ordem teológico-existencial –, possa lançar tênue luz sobre a trajetória filosófica e moral da poeta, da qual certamente a base é o amor. “Dele brotam – como notou muito bem Antônio Freire – todas as qualidades e defeitos da poetisa; nele, até, mergulha raízes profundas a prodigiosa inspiração poética que a imortalizou como artista”.
Portadora de uma insaciável sede de amar, logo convertida em ideário de vida, tem início sua dolorosa tragédia: a impossibilidade de expressar, à perfeição, este estado de alma.
Feliciano Ramos, em sua excelente História da Literatura Portuguesa, assinala que “Escolheu (Florbela Espanca) o soneto para transmitir a sua perturbante e sombria interioridade. Dentro dessa pequenina fórmula métrica e estrófica, Florbela move-se e realiza-se com todo o à vontade: crê-se que os seus versos registram com estridência dramática o cruciante viver de sua ‘alma trágica e doente’ (soneto Ao vento). E, no entanto, embora os sonetos de Florbela sejam tão angustiosos e contagiantes, ela tristemente verifica a impossibilidade de efetuar a comunicação integral de sua desventura: no soneto Impossível, confessa que a sua dor é tão grande que não caberia mesmo em ‘cem milhões de versos’, caso os viesse a escrever.” E continua Feliciano Ramos: “Agitada por eterna ansiedade, está sempre longe de encontrar o que espera: ‘o meu reino fica para além’ dirá Florbela, assediada pelo tormento de constantemente pedir à vida mais do que ela pode dar. Esta ‘inquietação’ de exilada da realidade inspira-lhe versos comoventes”.
Nesse sentido – me parece – é que no mencionado Tormento do ideal (soneto em que Antero traduz, à perfeição, todo o seu pessimismo à Schopenhauer), reside integralmente o drama existencial de Florbela Espanca: a inútil busca da forma para expressá-lo:
Tropeço em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente,
Cravos rubros a arder numa fogueira.
– Águia real, apontas-me a subida!
Sempre o amor: Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho, /Viste o Amor acaso em teu caminho?” / E o velho estremeceu... olhou...e riu... / (...) E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!”
Pior: o amor ludibriou-a: Procurei o amor que me mentiu.
A própria poeta, num autorretrato, mostra até que ponto o seu temperamento, visceralmente insatisfeito, a fadava à incompreensão: O meu talento! De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que não me tenha feito mal. Talvez culpa minha, talvez... O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!
É lícito, pois, diante de tanto sofrimento, que a confissão acima corrobora, admitir-se a ideia de que Florbela Espanca se teria suicidado. Amélia Vilar, uma estudiosa da grande poeta, afirma: Essa neurastenia que, sem dó nem piedade, lhe tumultuava no sangue, tinha de produzir os seus funestos estragos nas lamentáveis consequências do suicídio.
Se colocarmos a questão sob a jurisdição da patologia, talvez Amélia Vilar tenha razão. Mas não. Florbela padece de uma sede de infinito que nem seu invulgar talento pode saciar: um tormento do ideal, que tem a ver muito mais com a verdade literária do que com a patologia.
A verdade é que o suicídio nunca se provou, por mais que queiram justificá-lo também com uma provável relação incestuosa com seu irmão Apeles, tragicamente morto nas águas do Tejo, por quem, de fato, votava extremado amor de irmã. Tudo não passou de uma campanha difamatória, como tantas que circularam em torno da poeta.
Há um testemunho decisivo, definitivo (colhido pelo citado Antônio Freire), sobre o assunto e, que, a nosso ver, encerra o assunto: é o do padre Nuno Sanches, de Matosinhos, e que diz o seguinte: Como sacerdote católico, sei o que a Igreja estabelece para os suicidas; como coadjutor da paróquia (de Matosinhos), no cemitério do qual foi inumada a poetisa Florbela Espanca, sei que o seu enterro foi feito religiosamente, assim como o fora antes o seu casamento. Para o enterro religioso não foi pedida nenhuma dispensa ou autorização especial às autoridades eclesiásticas, o que exclui, portanto, essa tal hipótese, que tenho por caluniosa e tanto mais reprovável quando se trata de alguém que não pode defender-se.
Por tudo isso, Florbela Espanca tem sido considerada, com muita justiça, a figura feminina mais importante da Literatura Portuguesa. Sua poesia, mais significativa que seus contos e produto duma sensibilidade exacerbada por fortes impulsos eróticos, corresponde a um verdadeiro diário íntimo, cuja temperatura de confidência só encontra semelhança nas Cartas de Amor de Mariana Alcoforado.
Cansada de suplicar, a Morte é o próximo passo (como em Antero, no soneto Com os mortos): Deixai entrar a Morte, a iluminada /A quem vem para mim, pra me levar /Abri todas as portas par em par /Como asas a bater em revoada.
A tragédia da impossibilidade de comunicar um amor incorrespondido foi, portanto, a grande tragédia de Florbela Espanca, compreensível (se é que há compreensão para essas coisas) na fusão das duas personalidades da poeta numa só: a artista e a amante.
É neste sentido que o mencionado Tormento do ideal, de Antero de Quental, pode ajudar a derramar alguma luz sobre sua alma trágica.
[1] Laury Maciel (1924-2002) foi escritor, autor de Pedra dos anjos e Noites no sobrado, entre outros, livros e professor de Literatura Portuguesa.
[2]Antero Tarquírio de Quental (1842-1891), grande poeta português, figura polêmica, ativista político, teve grande influência sobre a geração de intelectuais da segunda metade do século XIX e início do século XX. Poeta notável, seu livro mais importante é Sonetos completos (1866). Esteve em Paris em 1868, onde conheceu Michelet e Proudhon, de quem passou a comunhar das ideias socialistas. Suicidou-se em 1891 com um tiro de revólver, em plena praça principal da cidade de Ponta Delgada, nos Açores.
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Español
.....começo sempre com reticências quando a minha alma não sabe o que ordenar à mão manuense....algo tangível que se lhe dedique humanamente possível atingi-la por tamanha arte de pôr na dor a poesia de sentir,, eu estive em Vila viçosa, e esta de flor só tem que ser viva
Florbela exagerada que só ela vi
Intelligent keyboards fuck words lose across the streets. ...Ha ha ha
Nâo. Ser poeta nâo é ser maior. A vossa ordem está errada. Quando quiserem saber onde comessa (o meu teclado está hostil) a a grande sabedoria de uma, talvez, quiça, a mais impoortante poetisa portuguesa, não inicuam na soberba, que, eu ateista e tolerante com todas as religiões....não posso aceitar. Grande poetisa, nâo maior que ninguém. Grande é aquele que vê na Humanidade seu alto desiderato.
Florbela, com metro ou sem métrica tenho raiva do tempo em que nos perdemos. Não acredito em épicas declarações apesar de um dos maiores de todos. Preferia ser aquela ou quem quisesses que fosse e saciasse rua sede de infinito como amiga ou realidade à tua escolha. Essa languidez envolve-me e esse medo esse frio... Pudera estar aí para te dar uma palavra uma mão uma opinião de como és real e completamente gente, admiravelmente mulher, poetiza por decorrências irresolvidas. Beijinhos
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
quanta besteira leio aqui, de pessoas que julgam, uma pessoa por seus escritos e vidaa particular.poesia é poesia, o particular fica a parte. porem, deus infelismente não dá a todos em seus neuroneos, a capacidade de ser e escrever como ''Flor Bela''...é quando se vê quanta estupidez e inguinorância.
POESIAS SAO CHATAS MAS SAO MUITO ESPERIENTES DE FAZER NAO SEI OQUE MAS E LEGAL KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK